A casa dos grandes pensadores
 
 
 

JOAQUIM SATURNINO DA SILVA

 

 

 

Reminiscências

 

Não creio que existam marcas maiores em nosso espírito, que aquelas gravadas durante a infância.

Por óbvio, esta é uma opinião pessoal e não creio que será – ou deva ser – levada em consideração por terceiros. Isto é – como a maioria das coisas escritas – são apenas exercício de abstração, tendo como substrato a experiência pessoal apenas. Nada científico, portanto.

Quando criança, criado num ambiente demasiadamente rigoroso, teve meu caráter a inevitável influência nos exemplos de meus pais e meus avós. E nenhum tempo marcou mais minha vida,  que minha infância.

Recordo-me das histórias contadas pela minha avó, a ela relatada pelos pais e tios, sobre a fuga deles da Rússia após a revolução de 1917. Ela tinha apenas dois anos quando a família embarcou, em fuga, num navio cargueiro.

Um relato que muito me impressionou, foi o de um tio de minha avó, sobre um momento em que o capitão do navio deu a ele um binóculo e disse para que olhasse no litoral russo, do qual se afastavam. Então, ele descobriu que a fumaça vista ao longe, agora graças ao binóculo, se revelava ser da queima de pessoas dependuradas.

Atualmente, quando tomo conhecimento de qualquer regime totalitário, de exceção, é a lembrança de relatos como este, que me faz sentir a eterna repugnância por esse tipo de domínio. E isto se estende por todos os setores da vida humana, como em certas empresas que, embora não matem dessa forma, espoliam direitos, com um domínio sutilmente maquiavélico.

 Por outro lado, a lição de superação de meus antepassados, ensina-me que, de alguma forma, possuímos uma qualidade semelhante à da ave Fênix. Sempre somos capazes de emergir das cinzas, variando tal capacidade, de pessoa para pessoa.

Não consigo, no entanto, definir se a humanidade evoluiu ou regrediu. Pois quando olhamos a história, podemos ver que a maldade não só utiliza os mesmos sistemas, mas os aperfeiçoaram de tal forma que, quando se descobre as armadilhas, espalhadas pelo caminho, é quase sempre tarde demais.

A título de exemplo, imagino que não existe nenhuma diferença entre Adolph Hitler e George Walker Bush. A forma de ação do primeiro era mais grosseira, enquanto a do segundo sutil. Mas os resultados são idênticos.  Ou seja, ocorreu uma “evolução” nas formas, mas não nas intenções. A arte de matar foi aprimorada. As justificativas sofisticadas. E a conivência humana ampliada.

Outra coisa que entendo como quase totalmente perdida por nós, foi a solidariedade. Recordo-me claramente da colaboração mútua entre nossa comunidade. Independentemente de ser ou não um parente do benfeitor, o socorro sempre vinha.

Quem já viveu mais de cinqüenta anos deve se lembrar de como era o mundo e de quanto ele mudou nestes últimos quarenta anos. E naquilo que é mais importante, para pior.

Perdemos a certeza da palavra dada, pois a esperteza passou a ser mais importante do que a própria honra. E não poder se desfazer do sentimento de honradez assimilado, tornou-se razão de desvantagem em relação à prática aceita atualmente, onde a vantagem material é mais importante de tudo aquilo que se possa dizer como solidamente decente.

Tudo nos leva hoje, queiramos ou não, a aceitar justificativas para o injustificável. Não é só a moral (no sentido clássico) que perdeu espaço. Falar em respeito ao outro agora, é transformar-se em motivo de piada.

No entanto, apesar de tudo, não sei por quê, creio existir algum fundamento para a esperança de que, antes que seja tarde demais, a humanidade pare para rever, seriamente, os valores em que está assentando (leia destruindo) agora o futuro. Compare-os com os valores perdidos e, numa espécie de “mea culpa”, faça o caminho de volta, emocional e psicologicamente sem, necessariamente, precisar abrir mão das conquistas positivas conquistadas.

Há no ser humano – e bem visível isso – uma capacidade de buscar sua própria destruição, como se estivesse realizando o trabalho mais importante de sua existência. Pois quando deixou de se preocupar com o outro – de verdade – o homem traçou um caminho de difícil retorno.

Por isso, quando relembro minhas lições infantis e o meio em que fui criado, cercado pela natureza das florestas e na ajuda a meu pai, lavrando a terra, a petrificada certeza de que aquilo era viver, mais e mais se consolida. A autenticidade da vida simples, ainda é meu bem mais caro. Por isso a fixação na observação da filosofia contido no óbvio.

No entanto, mesmo certo de que ninguém vive de passado, carrego-o comigo como uma espécie de bússola, para consultas vitais, quando os momentos se tornam ruins. Pois sinto ser imperativo manter em mente que, vender a alma não só um péssimo “negócio”, como o pagamento será pior do que a mais negra miséria. Isso por “culpa” de uma coisa arcaica chamada consciência.

 
Joaquim Saturnino da Silva
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 03/07/2007