Não creio que existam
marcas maiores em nosso espírito, que aquelas gravadas durante
a infância.
Por óbvio, esta é uma
opinião pessoal e não creio que será – ou deva ser – levada em
consideração por terceiros. Isto é – como a maioria das coisas
escritas – são apenas exercício de abstração, tendo como
substrato a experiência pessoal apenas. Nada científico,
portanto.
Quando criança, criado
num ambiente demasiadamente rigoroso, teve meu caráter a
inevitável influência nos exemplos de meus pais e meus avós. E
nenhum tempo marcou mais minha vida, que minha infância.
Recordo-me das
histórias contadas pela minha avó, a ela relatada pelos pais e
tios, sobre a fuga deles da Rússia após a revolução de 1917.
Ela tinha apenas dois anos quando a família embarcou, em fuga,
num navio cargueiro.
Um relato que muito me
impressionou, foi o de um tio de minha avó, sobre um momento
em que o capitão do navio deu a ele um binóculo e disse para
que olhasse no litoral russo, do qual se afastavam. Então, ele
descobriu que a fumaça vista ao longe, agora graças ao
binóculo, se revelava ser da queima de pessoas dependuradas.
Atualmente, quando
tomo conhecimento de qualquer regime totalitário, de exceção,
é a lembrança de relatos como este, que me faz sentir a eterna
repugnância por esse tipo de domínio. E isto se estende por
todos os setores da vida humana, como em certas empresas que,
embora não matem dessa forma, espoliam direitos, com um
domínio sutilmente maquiavélico.
Por outro lado, a
lição de superação de meus antepassados, ensina-me que, de
alguma forma, possuímos uma qualidade semelhante à da ave
Fênix. Sempre somos capazes de emergir das cinzas, variando
tal capacidade, de pessoa para pessoa.
Não consigo, no
entanto, definir se a humanidade evoluiu ou regrediu. Pois
quando olhamos a história, podemos ver que a maldade não só
utiliza os mesmos sistemas, mas os aperfeiçoaram de tal forma
que, quando se descobre as armadilhas, espalhadas pelo
caminho, é quase sempre tarde demais.
A título de exemplo,
imagino que não existe nenhuma diferença entre Adolph Hitler e
George Walker Bush. A forma de ação do primeiro era mais
grosseira, enquanto a do segundo sutil. Mas os resultados são
idênticos. Ou seja, ocorreu uma “evolução” nas formas, mas
não nas intenções. A arte de matar foi aprimorada. As
justificativas sofisticadas. E a conivência humana ampliada.
Outra coisa que
entendo como quase totalmente perdida por nós, foi a
solidariedade. Recordo-me claramente da colaboração mútua
entre nossa comunidade. Independentemente de ser ou não um
parente do benfeitor, o socorro sempre vinha.
Quem já viveu mais de
cinqüenta anos deve se lembrar de como era o mundo e de quanto
ele mudou nestes últimos quarenta anos. E naquilo que é mais
importante, para pior.
Perdemos a certeza da
palavra dada, pois a esperteza passou a ser mais importante do
que a própria honra. E não poder se desfazer do sentimento de
honradez assimilado, tornou-se razão de desvantagem em relação
à prática aceita atualmente, onde a vantagem material é mais
importante de tudo aquilo que se possa dizer como solidamente
decente.
Tudo nos leva hoje,
queiramos ou não, a aceitar justificativas para o
injustificável. Não é só a moral (no sentido clássico) que
perdeu espaço. Falar em respeito ao outro agora, é
transformar-se em motivo de piada.
No entanto, apesar de
tudo, não sei por quê, creio existir algum fundamento para a
esperança de que, antes que seja tarde demais, a humanidade
pare para rever, seriamente, os valores em que está assentando
(leia destruindo) agora o futuro. Compare-os com os valores
perdidos e, numa espécie de “mea culpa”, faça o caminho de
volta, emocional e psicologicamente sem, necessariamente,
precisar abrir mão das conquistas positivas conquistadas.
Há no ser humano – e
bem visível isso – uma capacidade de buscar sua própria
destruição, como se estivesse realizando o trabalho mais
importante de sua existência. Pois quando deixou de se
preocupar com o outro – de verdade – o homem traçou um caminho
de difícil retorno.
Por isso, quando
relembro minhas lições infantis e o meio em que fui criado,
cercado pela natureza das florestas e na ajuda a meu pai,
lavrando a terra, a petrificada certeza de que aquilo era
viver, mais e mais se consolida. A autenticidade da vida
simples, ainda é meu bem mais caro. Por isso a fixação na
observação da filosofia contido no óbvio.
No entanto, mesmo
certo de que ninguém vive de passado, carrego-o comigo como
uma espécie de bússola, para consultas vitais, quando os
momentos se tornam ruins. Pois sinto ser imperativo manter em
mente que, vender a alma não só um péssimo “negócio”, como o
pagamento será pior do que a mais negra miséria. Isso por
“culpa” de uma coisa arcaica chamada consciência.
Joaquim Saturnino da Silva
Publicação:
www.paralerepensar.com.br -
03/07/2007