A casa dos grandes pensadores
 
 

 

JOAQUIM SATURNINO DA SILVA

 

 

 

Retrovisor

 

No veículo que conduz a minha vida, o passado é o retrovisor a me mostrar por onde andei.  Dá-me a nostálgica saudade de tempos memoráveis a cada vez que o observo. Ele me mostra, silenciosamente, os erros a evitar, pois cometê-los novamente seria – no mínimo – imensa insensatez.

Por isso mesmo, quando atento olho adiante, arrisco olhadelas para o passado, como consulta a um “guia” sempre disponível e ao meu alcance, gratuitamente.

Aprendi a aceitar a competição, somente se ela for contra minhas limitações, pois sei que competir com qualidades alheias, nada mais é do que o estúpido exercício mal dissimulado da inveja, o pior dos sentimentos. Acredito que competir é um verbo restrito à prática dos esportes.

Como posso competir com alguém e ganhar um inimigo, ao invés de ter um aliado, um amigo?

E foi no retrovisor de minha vida, que encontrei pessoas com as quais agi desatento, deixando a desejar como amigo de verdade.

Hoje, do aqui e agora, quando olho nas duas direções, passado e futuro, descubro magicamente que ambos existem em mim, quase independentes de minha vontade. Sei que não poderei alterar o primeiro, mas acredito poder melhorar o segundo. Às vezes, num relance, todos os momentos parecem ser um só e único momento.

A idade tem o dom de nos trazer uma misteriosa serenidade. Uma capacidade de observar as coisas mais atentamente,  perdendo menos das dádivas que, sem regatear, a vida nos dá abundantemente.

Descobri que agilidade não significa pressa, mas precisão. Que as palavras não são apenas sons, mas uma forma de revelarmos nossos pensamentos com mais clareza, quando certeiras e carinhosamente escolhidas.

Deixei de sentir saudade daquilo que não tive, não vivi. Prefiro viver mais, do embalar-me demasiadamente na nostálgica boemia da falta de êxito, de êxtase. Então me embriago de verde e espaços imensos, ampliando a visão que me foi dada pela natureza, para observá-la melhor, aprender com ela.

Não quero competir, quero compartilhar. Não dividir, mas multiplicar. Não ser indiferente, participar.  Pois é triste assistir o deplorável espetáculo dantesco onde vidas não possuem mais nenhum valor e as notícias, cada vez mais freqüentes, de mortes e mais mortes, seja algo “tão normal”.

No meu retrovisor, observo que se tivéssemos cuidado mais da vida, em todas as suas formas de manifestação, não existiriam tantas tragédias hoje e não haveriam de existir amanhã, horríveis, tanto qualitativamente quanto quantitativamente.

Substituí meu tempo diante da televisão e sua superficialidade, pela densidade das páginas de livros que me levam para viagens incríveis. De certa forma, sinto como que num retorno às origens, quando ler era mais que simplesmente olhar, até mais do que apenas ver.  Pois enxergar com a alma é algo com muito mais amplidão.

Decididamente, particularmente creio que, no abandono decisivo da superficialidade,  reside a real possibilidade de navegarmos em nossa própria profundidade, onde nossos sonhos podem nos ensinar que tudo é mesmo muito simples.

Por coisas assim, é que gosto de meu retrovisor, pois com ele ganhei uma visibilidade de trezentos e sessenta graus.

 
Joaquim Saturnino da Silva
Advogado e Administrador de Recursos Humanos
Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 16/05/2008