Quando você foi
embora de perto de mim fisicamente, a solidão instalou seu
plantão. Chorei, em silêncio, a minha dor como respiração, por
não poder parar de respirar. Olhei o sol me perguntando se o
merecia, afinal, nada mudei no mundo que me desse algum mérito
real.
Já havia decaído
do egoísmo para a solidariedade, por força de tuas lições,
como quem cai de uma imensa altura para um chão que não chega
nunca. Foram quedas como esta agora. Encontro-me no vazio
absoluto do sem você. As músicas cessaram. Fiquei sem som, sem
nada!
O som de sua voz
foi o primeiro que meus ouvidos capturam ao chegar neste
planeta, para chegar a esta experiência tanto incrível, quanto
terrível: Perde-la de meus olhos e tendo de me contentar em
tê-la em meu coração.
Então comecei a
pior guerra de toda a minha vida: contra mim mesmo. Não sei se
a venci, ainda. Mas de algumas coisas agora sei, ensinada pela
instalação da guerra que, como todas as outras exaltam nossa
pequenez diante do belo e do sagrado. Da nossa própria
natureza e daquela que permeia o ambiente. Que expõe o
sentimento de vítima com a crueza atroz de sua total
inutilidade.
Aprendi que uma
mente com altos conhecimentos, mas sem coração (sentimentos) é
extremamente burra nas suas ações. Nada pode, nada consegue,
nada produz a não ser frustração, destruição e dor, por onde
passa.
Descobri que um
grande coração, mas com uma mente limitada, nada mais dá a seu
portador do que a condição de “coisa” sempre usada pelos
outros.
Então vi, sem
saber se mais via do que sentia, que o ideal é o equilíbrio
entre mente (intelecto) e coração (sentimentos), onde a
solidariedade e o amor, por natureza, podem existir sem
traumas.
Poucos dias,
antes de sua partida, quando já entravas em delírio, me
disseste que “a vida segue em frente”. Naquele momento
não tive o alcance de tuas palavras. Hoje, remoendo-as, letra
por letra, sílaba por sílaba, começo a compreendê-las. Fora
este teu último recado para meu coração e minha mente.
Foi assim, que a
percepção de um e a compreensão da outra, me fez entender e
reagir, retomar a sobrevivência, contrariando a força de todas
as minhas frustrações e me fez recomeçar outra vez.
Todas as lições
que me ensinaste, durante toda a minha vida, só agora se
tornaram claras. Límpidas como a águas dos riachos em que eu
me banhava no sertão da minha infância, muitas vezes sob teu
olhar. Tua crença de potenciais em mim, teus conselhos,
encontram agora eco em cada cromossomo em minhas células.
É nova e
totalmente estranha esta minha vida agora, sem os sons de suas
palavras. Sem nossos longos papos a respeito de tudo, sem
hipocrisia e sem falsos pudores, mas com aquele imenso
respeito e amor que sempre cultivamos.
Lembro-me que
nunca me censuraste pelo fato de ser sonhador, de crer que o
mundo é passível de mudanças para melhor, mas recordo-me
também dos alertas a respeito de minha irrestrita confiança
nas pessoas. Minha falta de malícia ao amar da formiga ao
elefante, sem parar um segundo para pensar que poderia me
ferir. E sabes o quanto me feri.
Tudo isso passou
por mim ultimamente. E sinto-me obrigado a te dizer que não
sou, mesmo, mais a mesma pessoa.
Bobagem dizer
isso né? Afinal, sei que já sabias disso!
Mas não se
preocupe, pois mesmo sem som sem nada, seguirei, pois “a vida
segue em frente”.
Joaquim Saturnino da Silva
Publicação:
www.paralerepensar.com.br -
01/02/2007