A casa dos grandes pensadores
 
 
 

JOAQUIM SATURNINO DA SILVA

 

 

 

SEM SOM SEM NADA.

 

Quando você foi embora de perto de mim fisicamente, a solidão instalou seu plantão. Chorei, em silêncio, a minha dor como respiração, por não poder parar de respirar. Olhei o sol me perguntando se o merecia, afinal, nada mudei no mundo que me desse algum mérito real.

Já havia decaído do egoísmo para a solidariedade, por força de tuas lições, como quem cai de uma imensa altura para um chão que não chega nunca. Foram quedas como esta agora. Encontro-me no vazio absoluto do sem você. As músicas cessaram. Fiquei sem som, sem nada!

O som de sua voz foi  o primeiro que meus ouvidos capturam ao chegar neste planeta, para chegar a esta experiência tanto incrível, quanto terrível: Perde-la de meus olhos e tendo de me contentar em tê-la em meu coração.

Então comecei a pior guerra de toda a minha vida: contra mim mesmo. Não sei se a venci, ainda. Mas de algumas coisas agora sei, ensinada pela instalação da guerra que, como todas as outras exaltam nossa pequenez diante do belo e do sagrado. Da nossa própria natureza e daquela que permeia o ambiente. Que expõe o sentimento de vítima com a crueza atroz de sua total inutilidade.

Aprendi que uma mente com altos conhecimentos, mas sem coração (sentimentos) é extremamente burra nas suas ações. Nada pode, nada consegue, nada produz a não ser frustração, destruição e dor, por onde passa.

Descobri que um grande coração, mas com uma mente limitada, nada mais dá a seu portador do que a condição de “coisa” sempre usada pelos outros.

Então vi, sem saber se mais via do que sentia, que o ideal é o equilíbrio entre mente (intelecto) e coração (sentimentos), onde a solidariedade e o amor, por natureza, podem existir sem traumas.

Poucos dias, antes de sua partida, quando já entravas em delírio, me disseste que “a vida segue em frente”.  Naquele momento não tive o alcance de tuas palavras. Hoje, remoendo-as, letra por letra, sílaba por sílaba, começo a compreendê-las. Fora este teu último recado para meu coração e minha mente.

Foi assim, que a percepção de um e a compreensão da outra, me fez entender e reagir, retomar a sobrevivência, contrariando a força de todas as minhas frustrações e me fez recomeçar outra vez.

Todas as lições que me ensinaste, durante toda a minha vida, só agora se tornaram claras. Límpidas como a águas dos riachos em que eu me banhava no sertão da minha infância, muitas vezes sob teu olhar. Tua crença de potenciais em mim, teus conselhos, encontram agora eco em cada cromossomo em minhas células.

É nova e totalmente estranha esta minha vida agora, sem os sons de suas palavras. Sem nossos longos papos a respeito de tudo, sem hipocrisia e sem falsos pudores, mas com aquele imenso respeito e amor que sempre cultivamos.

Lembro-me que nunca me censuraste pelo fato de ser sonhador, de crer que o mundo é passível de mudanças para melhor, mas recordo-me também dos alertas a respeito de minha irrestrita confiança nas pessoas. Minha falta de malícia ao amar da formiga ao elefante, sem parar um segundo para pensar que poderia me ferir. E sabes o quanto me feri.

Tudo isso passou por mim ultimamente. E sinto-me obrigado a te dizer que não sou, mesmo, mais a mesma pessoa.

Bobagem dizer isso né? Afinal, sei que já sabias disso!

Mas não se preocupe, pois mesmo sem som sem nada, seguirei, pois “a vida segue em frente”.

Joaquim Saturnino da Silva
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 01/02/2007