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Nossos sonhos,
particulares ou coletivos, primam pelo ideal da felicidade
comum, onde não existam infelizes por perto. Nem longe.
Tomemos como exemplo,
para efeito de análise – mesmo que superficial – uma comunidade
fictícia composta de cem pessoas. Imaginemos que essa comunidade
represente um país, o que comumente chamamos de Estado.
Pois bem, este
minúsculo Estado não deixa de possuir mais problemas que
soluções, como a maioria dos estados espalhados pelo planeta.
Destes cem cidadãos,
apenas cinco possuem aquilo que podemos chamar de fortuna, ou
riqueza. Como queiram.
Em segundo lugar
podemos considerar que uma casta média seja composta por uma
multidão de dez cidadãos.
Resta computar que a
classe pobre seja constituída de quinze cidadãos.
E para terminar esta
perversa contabilidade, consideremos que a categoria dos
miseráveis seja composta de setenta “sub-cidadãos”.
Poderíamos denominar
este sistema – com uma pequena margem de erro – de “sistema
destrutivo de vida”, onde o desespero predomina, ou fatalmente
predominará em breve espaço de tempo.
Particularmente,
chamaria este sistema de “sistema Brasil”, em um momento social
onde a última coisa que poderia existir, seria o mínimo de
sociabilidade capaz de se manter ao longo do tempo.
Para não exigir maior
esforço de imaginação, basta que ampliemos a quantidade de
cidadãos deste ficto sistema contados em cem, para milhões, sem
deixar de lado a mesma proporção adotada neste ridículo exemplo.
Pois bem. Ignorando o
arrepio que já se forma na coluna vertebral dos mais lúcidos,
vamos considerar que seja possível a manutenção de um pretenso
equilíbrio social em tal ambiente. Até quando?
Até aqui, temos então
que uma minoria se mantém à custa de uma maioria que, por medo
de arriscar-se, de certa forma, torna-se cúmplice do
estabelecido, sob o pretexto de manter essa vacilante “paz
social”, ou simplesmente para salvar a própria pele.
Até onde isso levará à
sobrevivência tal estrado social?
Convenhamos –
novamente – que esta não seja uma pergunta fácil de responder.
Imagine-se na pele de
um adolescente cursando uma universidade – não importa de que
área – com toda a carga de concorrência instituída pelo falido
sistema social vigente. Imagine-se na pele de um entre vinte mil
candidatos a uma das cem vagas existentes para o exercício da
profissão escolhida. Estimulante não?
Então surge, no
horizonte, a decepção e o receio.
Temos então um
engenheiro vendendo suco na avenida Paulista. Um advogado camelô
na rua Santa Efigênia (estamos em São Paulo), vendendo produto
pirata, sempre preparado para fugir do rapa. Estudou para fazer
cumprir a Lei, mas a transgride, por falta de opção.
Que decepção! Era essa
a promessa de campanha de “n” candidatos a cargos eletivos
mantidos pelo sacrifício geral?
Mas somos a nobre raça
humana. Aquela que agride a natureza, desde os animais até seus
semelhantes, para usufruir sua particular vantagem buscada
deslealmente entre seus iguais.
Tudo pode estar – ou
ser – justificado. Mas jamais será justificada a enorme decepção
dos heróis anônimos que lutaram e sucumbiram diante da
perversidade perpetrada por seus semelhantes. Semelhantes???
Hipocritamente todos
são proclamados irmãos. E sob o jugo de interesses particulares,
todos são convencidos de que fazem parte de uma mesma família,
enquanto isso for conveniente. Aliás, chamar de irmão é uma
forma corriqueira utilizada para explorar os desavisados ou
menos instruídos.
Mas que família é
essa, onde uns são melhores que outros? Que dialética cretina é
esta, que planta a fome na maioria dos estômagos, enquanto
poucos se dão ao luxo de esbanjar o dinheiro público? Qual
síntese de tais teses e antíteses?
É impossível manter
tal enganação impunemente. A história é pródiga em exemplos de
desastres causados por tal prática.
E a única coisa que
não é passível de entendimento, é que numa fatalidade coletiva,
todos seguirão juntos o mesmo destino cruel.
As prisões
superlotadas e a existência de facções criminosas
criteriosamente organizadas são mais que um alerta, que ninguém
vê.
Mas falemos da
decepção. Aquela mesma e velha conhecida decepção que sucede
cada eleição dos cretinos que nada fazem, do que ganham para
fazer. Legisladores que apenas administram contas bancárias.
Nada mais. E outros que legislam quando deveriam administrar.
Decepção é pouco. Asco
é nada perto disso. E a sensação constante de náuseas é nossa
herança maldita, deixada por um sistema falido.
O pior, para aqueles
que não pactuam com a escória, é ter que arrastar pela vida sua
honestidade, como um defeito congênito, um pecado natural pior
que a farsa de Adão e Eva. Verdadeiro aleijão “social”.
O mais grave nisso
tudo, é que a solução cada vez mais se distancia de sua
possibilidade. Caminhamos para um abismo tal, que até os
“eleitos” cairão juntos.
Parece restar perdido
qualquer resquício de bom senso.
Que pena!
Joaquim Saturnino da Silva
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Publicação:
www.paralerepensar.com.br -
03/08/2006