A casa dos grandes pensadores
 
 
 

JOAQUIM SATURNINO DA SILVA

 

 

 

TRATADO DA DECEPÇÃO

 

Nossos sonhos, particulares ou coletivos, primam pelo ideal da felicidade comum, onde não existam infelizes por perto. Nem longe.

Tomemos como exemplo, para efeito de análise – mesmo que superficial – uma comunidade fictícia composta de cem pessoas. Imaginemos que essa comunidade represente um país, o que comumente chamamos de Estado.

Pois bem, este minúsculo Estado não deixa de possuir mais problemas que soluções, como a maioria dos estados espalhados pelo planeta.

Destes cem cidadãos, apenas cinco possuem aquilo que podemos chamar de fortuna, ou riqueza. Como queiram.

Em segundo lugar podemos considerar que uma casta média seja composta por uma multidão de dez cidadãos.

Resta computar que a classe pobre seja constituída de quinze cidadãos.

E para terminar esta perversa contabilidade, consideremos que a categoria dos miseráveis seja composta de setenta  “sub-cidadãos”.

Poderíamos denominar este sistema – com uma pequena margem de erro – de “sistema destrutivo de vida”, onde o desespero predomina, ou fatalmente predominará em breve espaço de tempo.

Particularmente, chamaria este sistema de “sistema Brasil”, em um momento social onde a última coisa que poderia existir, seria o mínimo de sociabilidade capaz de se manter ao longo do tempo.

Para não exigir maior esforço de imaginação, basta que ampliemos a quantidade de cidadãos deste ficto sistema contados em cem, para milhões, sem deixar de lado a mesma proporção adotada neste ridículo exemplo.

Pois bem.  Ignorando o arrepio que já se forma na coluna vertebral dos mais lúcidos, vamos considerar que seja possível a manutenção de um pretenso equilíbrio social em tal ambiente. Até quando?

Até aqui, temos então que uma minoria se mantém à custa de uma maioria que, por medo de arriscar-se, de certa forma, torna-se cúmplice do estabelecido, sob o pretexto de manter essa vacilante “paz social”, ou simplesmente para salvar a própria pele.

Até onde isso levará à sobrevivência tal estrado social?

Convenhamos – novamente – que esta não seja uma pergunta fácil de responder.

Imagine-se na pele de um adolescente cursando uma universidade – não importa de que área – com toda a carga de concorrência instituída pelo falido sistema social vigente. Imagine-se na pele de um entre vinte mil candidatos a uma das cem vagas existentes para o exercício da profissão escolhida. Estimulante não?

Então surge, no horizonte, a decepção e o receio.

Temos então um engenheiro vendendo suco na avenida Paulista. Um advogado camelô na rua Santa Efigênia (estamos em São Paulo), vendendo produto pirata, sempre preparado para fugir do rapa. Estudou para fazer cumprir a Lei, mas a transgride, por falta de opção.

Que decepção! Era essa a promessa de campanha de “n” candidatos a cargos eletivos mantidos pelo sacrifício geral?

Mas somos a nobre raça humana. Aquela que agride a natureza, desde os animais até seus semelhantes, para usufruir sua particular vantagem buscada deslealmente entre seus iguais.

Tudo pode estar – ou ser – justificado. Mas jamais será justificada a enorme decepção dos heróis anônimos que lutaram e sucumbiram diante da perversidade perpetrada por seus semelhantes.  Semelhantes???

Hipocritamente todos são proclamados irmãos. E sob o jugo de interesses particulares, todos são convencidos de que fazem parte de uma mesma família, enquanto isso for conveniente. Aliás, chamar de irmão é uma forma corriqueira utilizada para explorar os desavisados ou menos  instruídos.

Mas que família é essa, onde uns são melhores que outros? Que dialética cretina é esta, que planta a fome na maioria dos estômagos, enquanto poucos se dão ao luxo de esbanjar o dinheiro público?  Qual síntese de tais teses e antíteses?

É impossível manter tal enganação impunemente. A história é pródiga em exemplos de desastres causados por tal prática.

E a única coisa que não é passível de entendimento, é que numa fatalidade coletiva, todos seguirão  juntos o mesmo destino cruel.

As prisões superlotadas e a existência de facções criminosas criteriosamente organizadas são mais que um alerta, que ninguém vê.

Mas falemos da decepção. Aquela mesma e velha conhecida decepção que sucede cada eleição dos cretinos que nada fazem, do que ganham para fazer. Legisladores que apenas administram contas bancárias. Nada mais. E outros que legislam quando deveriam administrar.

Decepção é pouco. Asco é nada perto disso. E a sensação constante de náuseas é nossa herança maldita, deixada por um sistema falido.

O pior, para aqueles que não pactuam com a escória, é ter que arrastar pela vida sua honestidade, como um defeito congênito, um pecado natural pior que a farsa de Adão e Eva. Verdadeiro aleijão “social”.

O mais grave nisso tudo, é que a solução cada vez mais se distancia de sua possibilidade. Caminhamos para um abismo tal, que até os “eleitos” cairão juntos.

Parece restar perdido qualquer resquício de bom senso.

Que pena!

Joaquim Saturnino da Silva

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 03/08/2006