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Em
sua bela música “Águas de março”, Tom Jobim, entre outras coisas,
faz uma alusão a Matitapereira, que seria – segundo a mitologia
Tupi – uma ave de mau agouro. Um tipo de coruja que à noite vinha
cantar no telhado das casas onde alguém morreria muito
brevemente, ou tragédia maior se abateria sobre o lar onde ela
houvera cantado.
Admitindo, para efeito de figura de
linguagem, que Matitapereira exista, pergunto-me se ela teria
cantado no telhado do Palácio de Versailhes às vésperas da tomada
da Bastilha, episódio significativo da Revolução Francesa, quando
Luís XVI e Maria Antonieta, literalmente, perderam a cabeça.
Ali
nasceu, sob o trinômio Liberdade/Igualdade/Fraternidade, o
liberalismo que passou a fazer parte da maioria da “administração”
política e econômica do mundo. Através do ideal liberal, pregou-se
– tanto quanto possível – o afastamento do estado, da vida dos
cidadãos, permanecendo ele com apenas faculdade de fiscalizar o
cumprimento das leis e proteger do estado de direito.
Avançamos no tempo, mas não na evolução.
A História nos ensina? Sim e muito.
Os homens aprenderam com ela? Não.
Desde as “lições” de Thomas Malthus, que afirmava, do alto de sua
popularidade no início do século XIX que, o Estado devia
limitar-se a proteger os mais ricos, recusando quaisquer direitos
aos pobres. Aliás, aos pobres Malthus endereçava apenas um
conselho: não se reproduzam. Assim, em matéria de liberalismo, a
teoria se revelou outra na prática e nem o “conselho” foi aceito.
Aliás, na maioria dos estados, ocorreu uma espécie de “eliminação”
dos pobres via fome, ou coisa pior, no desenvolvimento de uma
sistemática indiferença para com os governados(?) menos
favorecidos.
A
perversidade político-econômica vem marcando, cada vez mais a
desigualdade, travestida de igualdade, ao longo do tempo.
Agora, novamente na França algo acontece, como uma resposta a um
novo canto de Matitapereira – talvez no topo da Torre Eifel –
revelando onde pode desaguar o descontentamento coletivo.
Seria sinal de uma nova revolução marcada pela presença maciça da
miséria humana perigosamente concentrada num mesmo lugar?
Os
fantasmas do rei Luis XVI e sua esposa Maria Antonieta, devem
estar rolando de rir, mesmo sem suas respectivas cabeças, da
intolerância humana que eles conheciam muito bem.
E
se for mantida a regra, quanto ao exemplo significativo da
Revolução Francesa do século XVIII, este atual levante que ocorre
agora e dá sinais de expandir-se pela Europa, que significado
trará para o restante do mundo?
A
falácia do liberalismo não só fracassou perante as forças do
Estado, como revelou que a “filosofia” embutida em seus movimentos
pelo mundo, causaram mais pobreza do que provocaram o crescimento
dos indivíduos socialmente.
Do
trinômio Liberdade/Igualdade/Fraternidade, o liberalismo deixou
apenas que florescesse o primeiro: liberdade. Mas isso apenas para
o círculo dos eleitos, amigos do poder, jogando na lata de lixo da
história a igualdade e a fraternidade.
Em
resumo, vale a lição que a agricultura nos ensina: quem planta
arroz, colhe arroz. Quem planta feijão, colhe feijão. Quem
cultivar goiaba, jamais colherá maçãs. Em outras palavras – como
no dito popular – quem semeia vento colhe tempestades.
Logo, existe o risco de que os povos descubram a força que
possuem, quando permitem a ocorrência da verdadeira união entre
seus iguais. E restará então apenas saber de que forma a história
será escrita para a posteridade, se posteridade existir.
Joaquim
Saturnino da Silva
josaturnino@aasp.org.br
Publicação:
www.paralerepensar.com.br -
21/11/2005

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