A casa dos grandes pensadores
 
 
 

JOAQUIM SATURNINO DA SILVA

 

 

 

UMA NOVA REVOLUÇÃO?

 

Em sua bela música “Águas de março”, Tom Jobim, entre outras coisas, faz uma alusão a  Matitapereira, que seria – segundo a mitologia Tupi – uma ave de mau agouro. Um tipo de coruja que à noite vinha cantar no telhado das casas onde alguém morreria muito  brevemente, ou  tragédia maior se abateria sobre o  lar onde ela houvera cantado.

Admitindo, para efeito de figura de linguagem, que Matitapereira exista, pergunto-me se ela teria cantado no telhado do Palácio de Versailhes  às vésperas da tomada da Bastilha, episódio significativo da Revolução Francesa, quando Luís XVI e Maria Antonieta, literalmente, perderam a cabeça.

Ali nasceu, sob o trinômio Liberdade/Igualdade/Fraternidade, o liberalismo que passou a fazer parte da maioria da “administração” política e econômica do mundo. Através do ideal liberal, pregou-se – tanto quanto possível – o afastamento do estado, da vida dos cidadãos, permanecendo ele com apenas faculdade de fiscalizar o cumprimento das leis e proteger do estado de direito.

Avançamos no tempo, mas não na evolução.

A História nos ensina? Sim e muito. Os homens aprenderam com ela? Não.

Desde as “lições” de Thomas Malthus, que afirmava, do alto de sua popularidade no início do século XIX que, o Estado devia limitar-se a proteger os mais ricos, recusando quaisquer direitos aos pobres. Aliás, aos pobres Malthus endereçava apenas um conselho: não se reproduzam. Assim, em matéria de liberalismo, a teoria se revelou outra na prática e nem o “conselho” foi aceito.

Aliás, na maioria dos estados, ocorreu uma espécie de “eliminação” dos pobres via fome, ou coisa pior, no desenvolvimento de uma sistemática indiferença para com os governados(?) menos favorecidos.

A perversidade político-econômica vem marcando, cada vez mais a desigualdade, travestida de igualdade, ao longo do tempo.

Agora, novamente na França algo acontece, como uma resposta a um novo canto de Matitapereira – talvez no topo da Torre Eifel – revelando onde pode desaguar o descontentamento coletivo.

Seria sinal de uma nova revolução marcada pela presença maciça da miséria humana perigosamente concentrada num mesmo lugar?

Os fantasmas do rei Luis XVI e sua esposa Maria Antonieta, devem estar rolando de rir, mesmo sem suas respectivas cabeças, da intolerância humana que eles conheciam muito bem.

E se for mantida a regra, quanto ao exemplo significativo da Revolução Francesa  do século XVIII, este atual levante que ocorre agora e dá sinais de expandir-se pela Europa, que significado trará para o restante do mundo?

A falácia do liberalismo não só fracassou perante as forças do Estado, como revelou que a “filosofia” embutida em seus movimentos pelo mundo, causaram mais pobreza do que provocaram o crescimento dos indivíduos socialmente.

 Do trinômio Liberdade/Igualdade/Fraternidade, o liberalismo deixou apenas que florescesse o primeiro: liberdade. Mas isso apenas para o círculo dos eleitos, amigos do poder, jogando na lata de lixo da história a igualdade e a fraternidade.

Em resumo, vale a lição que a agricultura nos ensina: quem planta arroz, colhe arroz. Quem planta feijão, colhe feijão. Quem cultivar goiaba, jamais colherá maçãs.  Em outras palavras – como no dito popular – quem semeia vento colhe tempestades.

Logo, existe o risco de que os povos descubram a força que possuem, quando permitem a ocorrência da verdadeira união entre seus iguais. E restará então apenas saber de que forma a história será escrita para a posteridade, se posteridade existir.

Joaquim Saturnino da Silva

josaturnino@aasp.org.br

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 21/11/2005