- Religião e
Espiritualidade!
Em primeiro lugar gostaria de fazer uma pequena explanação
sobre a etimologia da palavra religião e, logo depois,
apresentar o que alguns pensadores pensam dela.
Religião, geralmente, pode ser definida como um conjunto de
crenças relacionadas com aquilo que a humanidade considera
como sobrenatural, divino e sagrado, bem como o conjunto de
rituais e códigos morais que derivam dessas crenças.
Durante séculos a palavra religião foi utilizada no contexto
cultural da Europa, marcado pela presença do judaísmo e
cristianismo que se apropriou do termo latino "religio'. Em
outras civilizações não existe uma palavra equivalente. O
hinduísmo antigo utilizava a palavra Rita, que apontava para
a ordem cósmica do mundo, com a qual todos os seres deveriam
estar harmonizados e que também se referia à correta
execução dos ritos pelos brâmanes. Mais tarde, o termo foi
substituído por dharma, termo que atualmente é também usado
pelo budismo e que exprime a idéia de uma lei divina e
eterna".
Historicamente foram propostas várias etimologias para a
origem de religio. Cícero, na sua obra "De natura deorum",
45 a.C., afirma que o termo se refere a relegere, reler,
sendo característico das pessoas religiosas prestarem muita
atenção a tudo o que se relacionava com os deuses, relendo
as escrituras. Esta proposta etimológica sublinha o caráter
repetitivo do fenômeno religioso, bem como o aspecto
intelectual. Mais tarde, Lactâncio, no século III e IV d.C.,
rejeita a interpretação de Cícero e afirma que o termo vem
de religare, religar, argumentando que a religião é um laço
de piedade que serve para religar os seres humanos a Deus.
Na obra "A Cidade de Deus", Agostinho de Hipona, século IV
d.C., afirma que religio deriva de religere, "reeleger".
Através da religião a humanidade reelegia de novo a Deus, do
qual se tinha separado. Mais tarde, na obra "De vera
religione" Agostinho retoma a interpretação de Lactâncio,
que via em religio uma relação com "religar".
Macróbio, no século V d.C., considera que religio deriva de
relinquere, algo que nos foi deixado pelos antepassados.
Independente da origem, o termo é adotado para designar
qualquer conjunto de crenças e valores que compõem a fé de
determinada pessoa ou conjunto de pessoas. Cada religião
inspira certas normas e motiva certas práticas.
Quando jovem, Xenofonte participou na expedição contra
Artaxerxes II, liderada pelo próprio irmão caçula do
imperador persa, Cyrus, o mais Jovem, em 401 a.C., Xenofonte
diz que se aconselhou com o veterano Sócrates se deveria ou
não ir com Cyrus, e Sócrates indicou-lhe o oráculo de
Delfos. Sua pergunta ao oráculo, no entanto, não foi de
aceitar ou não o convite de Cyrus, mas "para qual dos deuses
deveria rezar e prestar sacrifício, para que pudesse
completar sua pretendida jornada e retornar em segurança,
com bons resultados." O oráculo lhe disse para quais deuses.
Quando Xenofonte retornou a Atenas e contou para Sócrates o
conselho do oráculo, Sócrates o reprimiu por fazer a
pergunta errada ao oráculo, mas disse: "Já que você fez essa
pergunta, você deve fazer o que alegrará o deus".
É certo que todas as sociedades humanas, desde as mais
primitivas, criaram seus mitos e desenvolveram ritos,
valores, costumes e uma moral baseada em seu estágio de
evolução sócio-econômica e intelectual. A própria figura do
sacerdote era entre elas reverenciada; sendo o sumo
sacerdote também uma autoridade política, além de religiosa.
Porém, a religião perpassa nas sociedades a função
espiritual e também executa um fundamental papel, o de
regulador e de manutenção da ordem estabelecida. Portanto, a
religião atende, antes de tudo, aos interesses do Estado, e
não, essencialmente, a alma humana.
Para Freud, a religião cumpre a função de ajudar o ser
humano a satisfazer na imaginação o que na realidade ele não
se atreve ou não pode realizar na vida real. A religião, em
suas palavras, seria um erro grave e como erro, toda a
ambigüidade entre signos, símbolos e realidade, é grande
demais para ser real. Trata-se de um delírio da verdade.
Para Wilber (1977), a diversidade das religiões exotéricas
reflete a diversidade das ideologias, idiossincrasias e
paradigmas culturais.
No filme americano Coração Satânico (Angel Heart) há um
diálogo entre o detetive Harry Angel e o misterioso homem
chamado Louis Cyphre, que profere a seguinte expressão:
"Dizem que há religiões suficientes no mundo para os homens
se odiarem uns aos outros, mas não para que se amem".
Todas pregam a mesma coisa: a prática do bem. Todas condenam
a mesma coisa: o exercício do mal. Todas afirmam que somos
irmãos, somos iguais, que devemos nos amar e unir. Mas todas
brigam entre si em nome do amor do seu Deus.
Para Karl Marx, a religião é o ópio do povo. Porque impede
que o homem veja sua realidade e lute pelos seus direitos,
mas aceitem suas condições de explorados.
As religiões de forma geral criam seus dogmas e liturgias e
ensinam aos seus discípulos a necessidade de suas práticas
como lei divina. Causam a falsa impressão de que aqueles que
andam segundo os seus preceitos, doutrinas e regras evoluem
espiritualmente. Entretanto, as transformações que estes
discípulos manifestam são externas. Podem até se apresentar
com aparências divinas, mas suas atitudes são de condenação
e morte. Veja o que diz Jesus dos escribas e fariseus: "Ai
de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que sois
semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente
parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de
mortos e de toda a imundícia." (Mateus 23 : 27). Creio que
Jesus procurou mostrar-lhes que sua religião era vã, visto
que sua aparência era de religiosidade, mas seus corações
estavam cheios de pecados. Pois na verdade a evolução
espiritual não ocorrera no homem pelo cumprir a Lei divina
(coisa que ninguém é capaz!), mas pelo crescimento
da vida de Deus no homem!
A religião se expressa em poder social e político; a
espiritualidade, se expressa em amor nas suas mais variadas
formas!
Nesta passagem bíblica temos uma compreensão maior da
vontade de Deus na vida dos homens: "Mas os fariseus,
sabendo que Jesus fizera calar os saduceus, reuniram-se; e
um deles, doutor da lei, para o experimentar, fez-lhe esta
pergunta: Mestre, qual é o grande mandamento da lei?
"Respondeu-lhe Jesus: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o
teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu
entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. E o
segundo semelhante a este é: Amarás ao teu próximo como a ti
mesmo. Estes dois mandamentos resumem toda a lei e os
profetas". (Mateus, XXII, 34-40. ).
Enfim, os homens podem continuar a ser religiosos e a se
esforçarem na pratica dogmática das leis divinas, podem ter
aparências de justos e perfeitos; mas não deixaram de buscar
seus proveitos próprios e de ostentarem poder. Mas o
crescimento da vida interior que agrada a Deus só ocorrerá
quando o próprio Deus se expressar no homem!
- Joelson Lima
Publicação:
www.paralerepensar.com.brr
27/10/2006


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