A casa dos grandes pensadores
 
 
 

JOSE FIER

 

 

 

Galileu, a Igreja Católica e os personagens de seus "Diálogos".

O livro que levou o físico e astrônomo italiano Galileu Galilei (1564-1642) a ser condenado pela Santa Inquisição foi o Diálogo sobre os Dois Grandes Sistemas do Mundo [nome foi dado por Maffeo Barberini (1568-1644), então Papa Urbano VIII, em substituição ao nome Diálogos sobre o Fluxo e Refluxo das Marés escolhido inicialmente por Galileu] publicado em 1632, no qual ele, Galileu, mostrava, entre outras coisas, que as marés só poderiam ser explicadas, caso fosse admitida uma Terra em movimento e, portanto, em favor do Modelo Copernicano. Convém salientar que a sentença que condenou Galileu a negar o movimento da Terra não foi assinada por três cardeais da Santa Inquisição, de vez que não concordaram com esse ato. Entre eles estava o cardeal Francesco Barberini, primo de Maffeo Barberini (1568-1644), o Papa Urbano VIII. Contudo, o irmão mais novo de Maffeo, Antonio Barberini (1696-1646), foi um dos acusadores de Galileu. Registre-se que Galileu morreu lúcido, no dia 9 de janeiro de 1642, rodeado de amigos e discípulos, dentre os quais, destacam-se os físicos italianos Benedetto Castelli (1577-1644), Evangelista Torricelli (1608-1647) e Vicenzio Viviani (1622-1703). Aliás, no túmulo de Galileu estão escritas as palavras Eppur si muove ("Mas, no entanto, ela se move"), que ele teria proferido por ocasião de seu julgamento. No livro intitulado Galileu (Publicações Dom Quixote, 1981) pelo escritor e historiador norte-americano Stillman Bayant Drake (n.1910), ele defende a seguinte tese: Galileu foi um partidário entusiasta não do modelo de Copérnico, mas do futuro da Igreja Católica e da fé religiosa contra "qualquer" descoberta científica que se pudesse fazer. Para mostrar essa religiosidade, Drake cita uma das frases do Cardeal Cesare Baronius (1538-1607) que Galileu usou, em 1615, quando o acusavam de defender idéias contra as Sagradas Escrituras: A Bíblia diz-nos como se vai para o Céu, não como andam os céus. Registre-se que a filha mais velha de Galileu, de nome Virgínia, entrou para um Convento Franciscano, recebendo o nome de irmã Maria Celeste. Uma das principais razões pela qual Galileu optou em escrever seus dois principais livros: Diálogo sobre os Dois Grandes Sistemas do Mundo (1632) e Diálogos sobre as Duas Novas Ciências (1638), foi o fato de que, durante o Século XVI, essa forma de diálogo havia se tornado muito popular, principalmente nos livros que se destinava a educar o povo. (É oportuno registrar que o nome do primeiro livro foi sugerido pelo Papa Urbano VIII, em substituição ao nome Diálogos sobre o Fluxo e Refluxo das Marés, escolhido inicialmente por Galileu. Seu amigo Papa achava que o nome dado por Galileu realçava, demasiadamente, os méritos do sistema Copernicano sobre o sistema Ptolomaico.) Nesses dois livros, os diálogos acontecem entre três personagens: SALVIATI, que representa o próprio Galileu; SIMPLíCIO, defensor de Aristóteles; e SAGREDO, que simbolizava um observador imparcial e inteligente. Tais nomes foram escolhidos por Galileu para homenagear a dois de seus amigos. Filippo Salviati (1582-1614), era um patrício florentino, em cuja casa, em 1611, Galileu se reuniu, juntamente com outros intelectuais, para discutirem problemas polêmicos, como por exemplo, os relacionados com a condensação e a rarefação, principais temas de discussões entre Aristotélicos e os atomistas. Giovanfrancesco Sagredo (1571-1620), era um nobre veneziano que estudara com Galileu e a quem este recorria quando tinha necessidades financeiras. [Registre-se que Sagredo era um talentoso cientista amador, chegando, inclusive, a fazer algumas modificações no termoscópio inventado por Galileu, e que foi utilizado por um amigo comum aos dois, o médico Santório Santório (1561-1636), que clinicava em Veneza.] Simplício de Cilicia (500-549) era um filósofo grego que ficara famoso por haver sido o mais célebre e profundo comentador das obras de Aristóteles, durante a Idade Média. A primeira edição do livro Diálogos sobre as Duas Novas Ciências, era composta de apenas quatro jornadas. Nas outras duas edições (publicadas, respectivamente, em 1674 e 1718), o livro apresentava mais duas jornadas, sendo que a quinta tratava da interpretação do Livro V da Geometria de Euclides. Essa quinta jornada foi ditada por Galileu ao seu discípulo Viviani, pois Galileu já se encontrava cego. Na sexta jornada, Galileu discute o choque de dois corpos, na qual Simplício é substituído por APROINO [Paolo Aproino (1586-1638), nobre de Treviso, discípulo e amicíssimo de Galileu durante o período que passou em Pádua], ex-discípulo de Galileu. Essa sexta jornada foi ditada por Galileu a Torricelli.
 
Jose Fier
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  17/09/2007