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As exceções à regra
Somos um país onde toda regra tem exceção. Até brincamos que a
regra que não tem exceção é uma exceção à regra. O nosso idioma,
por exemplo, é complicadíssimo. Dificilmente alguém sabe
escrever corretamente em Português. Com algum critério veremos
que nem os veículos de comunicação o fazem sem cometer deslizes.
Mas o importante é que entendemos as mensagens dos anúncios,
cartazes, placas indicativas, leis e etc. De um jeito ou de
outro se estabelece a comunicação.
Quando achávamos que sabíamos o suficiente para nos expressar de
forma inteligível, um grupo de estudiosos resolveu mudar algumas
regras do nosso idioma. Desta forma, quem nem chegou a aprender
como era terá que se adaptar ao como será. Parece simples, não?
Mas se imaginarmos a situação de quem está iniciando os estudos,
a coisa se complica. O que era não é mais! Sem um motivo
justificável para que ocorra essa mudança, não vemos como isso
melhora a vida das pessoas.
Como o nosso povo é flexível às mudanças não temos dúvidas que
todos se adaptarão às novas regras gramaticais. Cada qual à sua
maneira, claro, levará a vida normalmente. Mas os professores,
os alunos, os escritores e todos que dependem da forma escrita
para se fazer entender, precisam reagir mais rápidos às
novidades. Gostando ou não, já que não houve proposta,
plebiscito ou qualquer oportunidade para o povo se manifestar,
todos terão de obedecer à nova determinação.
Sabe-se que a globalização influencia até no idioma. Por isso é
normal a adoção de palavras estrangeiras ao nosso vocabulário.
Os mais jovens são menos resistentes porque o uso da internet
contribui muito para isso. Quanto aos mais velhos, apesar da
resistência natural, são obrigados a aderir ou ficarão
marginalizados com a nova forma de comunicação. Além do que, em
qualquer ambiente de trabalho hoje, o meio digital é
imprescindível para as tarefas do dia-a-dia.
Hoje, independentemente da idade, quem não dominar as novas
ferramentas de trabalho, é chamado de Jurássico, analfabeto
informático e, provavelmente, será banido do processo produtivo
em qualquer empresa. No mundo competitivo, onde o tempo é um bem
cada vez mais escasso, tudo tem de ser rápido, objetivo, eficaz
e avaliado com base no resultado. A exigência é cada vez maior e
só tem espaço para quem possui qualificação. Dificilmente há
vagas para as exceções!
Fora do ambiente profissional a coisa muda de figura.
Desconfiamos do artigo que diz que todos são iguais perante a
lei. Mas temos carradas de motivos para isso. Os casos recentes
envolvendo banqueiro, empresário e ex-prefeito, reforçam que
para alguns o tratamento é diferente. Foram comprovadas as
irregularidades, os prejuízos aos cofres públicos e o
enriquecimento ilícito. Mas por que o ministro do STF ordenou
que o banqueiro fosse solto, apesar da ordem partir de um juiz?
Façamos agora um paralelo com outra lei criada recentemente que
já está em uso. Se o cidadão tomar um gole, apenas um, de
qualquer bebida que contenha álcool e isso ficar comprovado,
terá a CNH retida, pagará uma multa de quase mil reais e o seu
veículo pode ser apreendido. E não precisa se envolver em
acidente, se comportar de forma perigosa ou desrespeitar
autoridade. Basta uma blitz pará-lo e constatar o fato. Fica uma
pergunta: será que o uso de tanto rigor é justo?
Cansamos de ver figurão sonegar impostos, prejudicar outros
cidadãos, desviar recursos do serviço público e continuar rindo
do contribuinte. E mais: prédio desabar deixando centenas sem
moradia; crianças morrendo em maternidade por falta de
responsabilidade; gestor público receber propina de empreiteira;
avião cair e matar centenas de passageiros; senadores inventar
vagas, com salário altíssimo, sem nenhuma justificativa. Onde
está o rigor da lei e da Justiça nesses casos?
Enquanto para uns existe a regra, para outros vale a exceção.
Essa discriminação com as pessoas, regidas pela mesma
Constituição, mostra a força e a fraqueza da nossa Justiça.
Depende muito contra quem a lei vai ser usada. Alguns até
recomendam àqueles que pretendem cometer irregularidade: "se for
roubar, roubem uma quantia bem grande porque o peso da lei e da
Justiça depende do poder aquisitivo do réu". Quando veremos as
exceções ser utilizadas de forma correta?
Jose Roberto Takeo Ichihara
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 14/07/2008
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