A casa dos grandes pensadores
 
 
     
 

JOSE ROBERTO TAKEO ICHIHARA

 

José Roberto T. Ichihara

 

 

 

As exceções à regra

Somos um país onde toda regra tem exceção. Até brincamos que a regra que não tem exceção é uma exceção à regra. O nosso idioma, por exemplo, é complicadíssimo. Dificilmente alguém sabe escrever corretamente em Português.  Com algum critério veremos que nem os veículos de comunicação o fazem sem cometer deslizes. Mas o importante é que entendemos as mensagens dos anúncios, cartazes, placas indicativas, leis e etc. De um jeito ou de outro se estabelece a comunicação.
Quando achávamos que sabíamos o suficiente para nos expressar de forma inteligível, um grupo de estudiosos resolveu mudar algumas regras do nosso idioma. Desta forma, quem nem chegou a aprender como era terá que se adaptar ao como será. Parece simples, não? Mas se imaginarmos a situação de quem está iniciando os estudos, a coisa se complica. O que era não é mais! Sem um motivo justificável para que ocorra essa mudança, não vemos como isso melhora a vida das pessoas.
Como o nosso povo é flexível às mudanças não temos dúvidas que todos se adaptarão às novas regras gramaticais. Cada qual à sua maneira, claro, levará a vida normalmente. Mas os professores, os alunos, os escritores e todos que dependem da forma escrita para se fazer entender, precisam reagir mais rápidos às novidades. Gostando ou não, já que não houve proposta, plebiscito ou qualquer oportunidade para o povo se manifestar, todos terão de obedecer à nova determinação.
Sabe-se que a globalização influencia até no idioma. Por isso é normal a adoção de palavras estrangeiras ao nosso vocabulário. Os mais jovens são menos resistentes porque o uso da internet contribui muito para isso. Quanto aos mais velhos, apesar da resistência natural, são obrigados a aderir ou ficarão marginalizados com a nova forma de comunicação. Além do que, em qualquer ambiente de trabalho hoje, o meio digital é imprescindível para as tarefas do dia-a-dia.
Hoje, independentemente da idade, quem não dominar as novas ferramentas de trabalho, é chamado de Jurássico, analfabeto informático e, provavelmente, será banido do processo produtivo em qualquer empresa. No mundo competitivo, onde o tempo é um bem cada vez mais escasso, tudo tem de ser rápido, objetivo, eficaz e avaliado com base no resultado. A exigência é cada vez maior e só tem espaço para quem possui qualificação. Dificilmente há vagas para as exceções!
Fora do ambiente profissional a coisa muda de figura. Desconfiamos do artigo que diz que todos são iguais perante a lei. Mas temos carradas de motivos para isso. Os casos recentes envolvendo banqueiro, empresário e ex-prefeito, reforçam que para alguns o tratamento é diferente. Foram comprovadas as irregularidades, os prejuízos aos cofres públicos e o enriquecimento ilícito. Mas por que o ministro do STF ordenou que o banqueiro fosse solto, apesar da ordem partir de um juiz?
Façamos agora um paralelo com outra lei criada recentemente que já está em uso. Se o cidadão tomar um gole, apenas um, de qualquer bebida que contenha álcool e isso ficar comprovado, terá a CNH retida, pagará uma multa de quase mil reais e o seu veículo pode ser apreendido. E não precisa se envolver em acidente, se comportar de forma perigosa ou desrespeitar autoridade. Basta uma blitz pará-lo e constatar o fato. Fica uma pergunta: será que o uso de tanto rigor é justo?
Cansamos de ver figurão sonegar impostos, prejudicar outros cidadãos, desviar recursos do serviço público e continuar rindo do contribuinte. E mais: prédio desabar deixando centenas sem moradia; crianças morrendo em maternidade por falta de responsabilidade; gestor público receber propina de empreiteira; avião cair e matar centenas de passageiros; senadores inventar vagas, com salário altíssimo, sem nenhuma justificativa. Onde está o rigor da lei e da Justiça nesses casos?
Enquanto para uns existe a regra, para outros vale a exceção. Essa discriminação com as pessoas, regidas pela mesma Constituição, mostra a força e a fraqueza da nossa Justiça. Depende muito contra quem a lei vai ser usada. Alguns até recomendam àqueles que pretendem cometer irregularidade: "se for roubar, roubem uma quantia bem grande porque o peso da lei e da Justiça depende do poder aquisitivo do réu". Quando veremos as exceções ser utilizadas de forma correta?

Jose Roberto Takeo Ichihara
                   
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 14/07/2008