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Avanços x recuos
Não se pode desprezar as pequenas conquistas quando se trata de
mudanças. Da mesma forma, não podemos permitir retrocesso nos
avanços. Igual aquela charada do caramujo que sobe alguns metros
durante o dia e desce outros tantos durante a noite, na parede
de um poço. Quanto tempo ele levará para sair totalmente do
fundo do poço? Devemos analisar os fatos separadamente ou apenas
o resultado final?
Muitos comemoraram a aprovação para a pesquisa com
células-tronco. Viram nisso a possibilidade de cura para os
males que os impedem de levar uma vida normal, se livrar de
doenças que dificultam suas atividades diárias, enfim, desfrutar
na totalidade aquilo que o mundo tem para oferecer ao ser
humano. Vencer o preconceito religioso, uma barreira natural num
país extremamente católico, foi um grande avanço.
Por outro lado, no mesmo segmento da ciência, vimos que a nossa
saúde, há algum tempo na UTI, ressuscitou o recém-extinto CPMF,
com o nome de CSS, para salvar o agonizante setor público que
trata dessa obrigação do governo. Mesmo contra a vontade da
maioria, o novo imposto já passou na Câmara dos Deputados e
agora vai ao Senado para a aprovação. O nosso Leão da Receita
Federal detesta fazer regime!
Mesmo prometendo que a arrecadação, estimada em dez bilhões de
reais, será destinada para resolver os problemas da saúde, uma
avalanche de protestos da oposição ecoou na mídia. O que não se
sabe, entretanto, é o que o governo negocia nos bastidores com a
oposição, na forma de aprovação de emendas, cargos e outras
moedas de troca que costumam pesar nessas horas... Podemos ter
surpresas.
Para sensibilizar a opinião pública, os telejornais exibiram
diariamente a situação dos hospitais mantidos pelo Ministério da
Saúde. Sabe-se que isso não são nenhuma novidade, nem prioridade
deste governo, mas um mal que perdura desde que surgiram os
planos de saúde privados. O povo, escaldado com tanta
imoralidade, prefere aguardar o desfecho sem arriscar um palpite
sobre o resultado da votação.
O fato é que avanço mesmo na ética, na moral e na aplicação do
dinheiro público, para oferecer serviços dignos, está muito
longe de acontecer. Explodiu casos de corrupção nos governos
tucanos no Rio Grande do Sul e em São Paulo, com o velho método
de superfaturar valores com as prestadoras de serviço, o que
deixa o contribuinte sem saber em quem confiar, sob as óticas da
seriedade, compromisso e verdade.
Além dos novos fatos, persistem os antigos males da corrupção. A
TV mostrou um prefeito praticamente extorquindo um empresário do
ramo de transportes urbanos, para favorecer um aumento na
passagem. O cidadão comum sempre espera que uma oposição, quando
no governo, atue de maneira totalmente diferente daquela que
combatia. Qual o avanço se quem criticava procede exatamente
igual?
Se servir de consolo pode-se dizer que, pelo menos agora, os
acusados são temporariamente presos, mostrados na mídia e em
seguida soltos pela Justiça. Será esta última parte aquela
correspondente à descida do caramujo durante a noite? Pelo
visto, o topo do poço ainda está muito longe de ser alcançado!
Isoladamente melhoramos, mas o resultado final continua igual -
voltamos sempre ao ponto de partida.
Ninguém duvida da capacidade do nosso povo, do espírito
empreendedor, do poder de superação diante das dificuldades.
Somos destaque em algumas atividades, apesar das nossas
deficiências em infra-estrutura física e intelectual. Mas o que
não dá para entender é porque avançamos tão pouco, muito aquém
das necessidades que o mundo globalizado exige. O pior é que as
nossas maiores barreiras são as internas.
Parece que não acreditamos no que o mercado global sinaliza para
o nosso país. Enquanto os outros nos dão crédito, indicando o
topo para que avancemos, preferimos recuar nos dirigindo para o
fundo do poço. Será que nenhum modelo utilizado, com sucesso, na
saúde, na educação, na segurança, na Justiça, serve para ser
aplicado no nosso país? Ou ainda precisamos manter o nosso
complexo de megalomania?
Pena que enquanto ficamos nesta dança de dois passos pra frente
e dois pra trás, permanecendo no mesmo lugar, os nossos
concorrentes diretos são mais objetivos e ocupam os melhores
espaços. Infelizmente, os avanços no rumo errado - abuso,
corrupção, impunidade, descaso, ilegalidade - são maiores e mais
significativos que aqueles que nos levarão aos dias melhores
para a sociedade como um todo.
Jose Roberto Takeo Ichihara
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 17/06/2008
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