A casa dos grandes pensadores
 
 
 
     
 

JOSE ROBERTO TAKEO ICHIHARA

 

José Roberto T. Ichihara

 

 

Avanços x recuos

Não se pode desprezar as pequenas conquistas quando se trata de mudanças. Da mesma forma, não podemos permitir retrocesso nos avanços. Igual aquela charada do caramujo que sobe alguns metros durante o dia e desce outros tantos durante a noite, na parede de um poço. Quanto tempo ele levará para sair totalmente do fundo do poço? Devemos analisar os fatos separadamente ou apenas o resultado final?
Muitos comemoraram a aprovação para a pesquisa com células-tronco. Viram nisso a possibilidade de cura para os males que os impedem de levar uma vida normal, se livrar de doenças que dificultam suas atividades diárias, enfim, desfrutar na totalidade aquilo que o mundo tem para oferecer ao ser humano. Vencer o preconceito religioso, uma barreira natural num país extremamente católico, foi um grande avanço.
Por outro lado, no mesmo segmento da ciência, vimos que a nossa saúde, há algum tempo na UTI, ressuscitou o recém-extinto CPMF, com o nome de CSS, para salvar o agonizante setor público que trata dessa obrigação do governo. Mesmo contra a vontade da maioria, o novo imposto já passou na Câmara dos Deputados e agora vai ao Senado para a aprovação. O nosso Leão da Receita Federal detesta fazer regime!
Mesmo prometendo que a arrecadação, estimada em dez bilhões de reais, será destinada para resolver os problemas da saúde, uma avalanche de protestos da oposição ecoou na mídia. O que não se sabe, entretanto, é o que o governo negocia nos bastidores com a oposição, na forma de aprovação de emendas, cargos e outras moedas de troca que costumam pesar nessas horas... Podemos ter surpresas.
Para sensibilizar a opinião pública, os telejornais exibiram diariamente a situação dos hospitais mantidos pelo Ministério da Saúde. Sabe-se que isso não são nenhuma novidade, nem prioridade deste governo, mas um mal que perdura desde que surgiram os planos de saúde privados.  O povo, escaldado com tanta imoralidade, prefere aguardar o desfecho sem arriscar um palpite sobre o resultado da votação.
O fato é que avanço mesmo na ética, na moral e na aplicação do dinheiro público, para oferecer serviços dignos, está muito longe de acontecer. Explodiu casos de corrupção nos governos tucanos no Rio Grande do Sul e em São Paulo, com o velho método de superfaturar valores com as prestadoras de serviço, o que deixa o contribuinte sem saber em quem confiar, sob as óticas da seriedade, compromisso e verdade.
Além dos novos fatos, persistem os antigos males da corrupção. A TV mostrou um prefeito praticamente extorquindo um empresário do ramo de transportes urbanos, para favorecer um aumento na passagem. O cidadão comum sempre espera que uma oposição, quando no governo, atue de maneira totalmente diferente daquela que combatia. Qual o avanço se quem criticava procede exatamente igual?
Se servir de consolo pode-se dizer que, pelo menos agora, os acusados são temporariamente presos, mostrados na mídia e em seguida soltos pela Justiça. Será esta última parte aquela correspondente à descida do caramujo durante a noite? Pelo visto, o topo do poço ainda está muito longe de ser alcançado! Isoladamente melhoramos, mas o resultado final continua igual - voltamos sempre ao ponto de partida.
Ninguém duvida da capacidade do nosso povo, do espírito empreendedor, do poder de superação diante das dificuldades. Somos destaque em algumas atividades, apesar das nossas deficiências em infra-estrutura física e intelectual. Mas o que não dá para entender é porque avançamos tão pouco, muito aquém das necessidades que o mundo globalizado exige. O pior é que as nossas maiores barreiras são as internas.
Parece que não acreditamos no que o mercado global sinaliza para o nosso país. Enquanto os outros nos dão crédito, indicando o topo para que avancemos, preferimos recuar nos dirigindo para o fundo do poço. Será que nenhum modelo utilizado, com sucesso, na saúde, na educação, na segurança, na Justiça, serve para ser aplicado no nosso país? Ou ainda precisamos manter o nosso complexo de megalomania?
Pena que enquanto ficamos nesta dança de dois passos pra frente e dois pra trás, permanecendo no mesmo lugar, os nossos concorrentes diretos são mais objetivos e ocupam os melhores espaços. Infelizmente, os avanços no rumo errado - abuso, corrupção, impunidade, descaso, ilegalidade - são maiores e mais significativos que aqueles que nos levarão aos dias melhores para a sociedade como um todo.

Jose Roberto Takeo Ichihara
                   
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 17/06/2008