A casa dos grandes pensadores
 
 
 
     
 

JOSE ROBERTO TAKEO ICHIHARA

 

 

 

Briga de vizinhos

Há muito tempo, quando ainda havia casas com quintal, invadir o "terreno" alheio não era coisa rara. Bastava a bola passar por cima da cerca e lá ia alguém buscá-la para a brincadeira não parar. Mas tinha a invasão planejada, aquela arquitetada, com risco calculado, quando era para furtar as gostosuras das árvores frutíferas. Aí o segredo era não ser descoberto, não deixar rastros, fazer a coisa bem feita para que não chegasse ao conhecimento dos pais e evitar uma confusão entre eles.
Mas quando o "invasor" era pego em flagrante a coisa descambava. Sempre tinha alguém maior, ou o irmão mais velho, ou o mais forte, para resolver a parada. Se o mal já estava feito, a questão era saber como ia ser resolvido. Às vezes, não adiantava dizer que era coisa de criança, que fazia parte desta fase da vida. Quando a questão não chegava a termo, se estabelecia uma espécie de guerra fria entre os vizinhos - que passavam a não se falar mais por causa disso.
A maturidade é caracterizada pelo bom senso em resolver questões polêmicas, aquelas onde não se sabe quem está certo ou errado, mas geram insatisfações entre as partes. E aí, como resolver? Como fazer para evitar decisões que relembram os fatos vexatórios ocorridos na infância? Nessas horas entra em campo a diplomacia - aquele que vai resolver a parada - para satisfazer gregos e troianos. É uma situação muito delicada porque exige flexibilidade e boa vontade de todos.
O mundo tomou conhecimento da invasão de tropas colombianas para capturar um dos líderes das FARCS no território equatoriano. Mas a coisa se agravou porque houve morte que foi divulgada aos quatro cantos do planeta. Daí o clima esquentou, o bate-boca elevou o tom de voz, as acusações surgiram de todas as formas - enfim, o caldo entornou. Falou-se até numa desestabilização do continente sul-americano. Uribe, Hugo Chavez, Bush... quem foi o estopim desse impasse?
Fala-se que as causas são as mais diversas possíveis. Da liderança para a redenção da América Latina ao combate do narcotráfico. Desta forma, surgem atores de estatura e importância para todos os gostos. Hugo Chavez, o sucessor natural de Fidel; Bush, o perseguidor implacável dos narcotraficantes; e Uribe, o homem que quer acabar com as FARCS. E o Brasil, que é considerado o corredor do tráfico, viu-se ameaçado pelo episódio. Devemos "meter o nariz" nessa briga de vizinhos?
Entre a exigência do pedido de desculpas, por parte do Equador, e a reunião marcada para aparar as arestas, ficam as perguntas: qual a lição que os países do continente aprenderam? À parte as suspeitas que o narcotráfico, os petrodólares de Chavez e o mercado consumidor norte-americano, formam um grupo de interesse comum, como chegar a uma posição que garanta a estabilidade e a segurança da região? Até onde a libertação dos reféns das FARCS atende outros interesses?
Apertos de mãos mostrados pela mídia não significam que a paz foi selada definitivamente entre os envolvidos. Se assim fosse o clima permanente de guerra que se vive no Oriente Médio já estaria fazendo décadas de sepultamento. Os verdadeiros motivos nunca são divulgados, expostos e discutidos à exaustão para se buscar uma solução. Mas sabe-se que Hugo Chavez está adquirindo equipamentos de guerra para defender o seu país. Isso é preciso? Quem o estaria ameaçando?
Voltando-se à infância, onde a bola foi parar no quintal do vizinho. Será que se pedisse permissão para apanhá-la, ou apenas que fosse devolvida, não seria mais racional? Talvez esse simples gesto evitasse tanta confusão. Ou será que ninguém sabe onde começa o terreno do vizinho? Pode ser que alguém entendeu que a bola sendo sua, não importa onde esteja, é um direito seu ir buscá-la de qualquer maneira. Vai adivinhar qual será a atitude de uma criança!
Como o mal já foi feito, resta ao irmão mais velho, ou o pai do infrator, tentar resolver o imbróglio junto ao dono do terreno invadido. Se vai ser num Fórum, numa reunião de lideranças, ou na base da força bruta ninguém sabe. Só não adianta continuar esse bate-boca, troca de acusações e ofensas, insinuações e outras aparições jogando para a platéia na mídia. Mas ficou muito claro, para todos, que o quintal do vizinho tem de ser respeitado, não importando quem é o dono da bola.

Jose Roberto Takeo Ichihara
                   
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 18/03/2008