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Briga de vizinhos
Há muito tempo, quando ainda havia casas com quintal, invadir o
"terreno" alheio não era coisa rara. Bastava a bola passar por
cima da cerca e lá ia alguém buscá-la para a brincadeira não
parar. Mas tinha a invasão planejada, aquela arquitetada, com
risco calculado, quando era para furtar as gostosuras das
árvores frutíferas. Aí o segredo era não ser descoberto, não
deixar rastros, fazer a coisa bem feita para que não chegasse ao
conhecimento dos pais e evitar uma confusão entre eles.
Mas quando o "invasor" era pego em flagrante a coisa descambava.
Sempre tinha alguém maior, ou o irmão mais velho, ou o mais
forte, para resolver a parada. Se o mal já estava feito, a
questão era saber como ia ser resolvido. Às vezes, não adiantava
dizer que era coisa de criança, que fazia parte desta fase da
vida. Quando a questão não chegava a termo, se estabelecia uma
espécie de guerra fria entre os vizinhos - que passavam a não se
falar mais por causa disso.
A maturidade é caracterizada pelo bom senso em resolver questões
polêmicas, aquelas onde não se sabe quem está certo ou errado,
mas geram insatisfações entre as partes. E aí, como resolver?
Como fazer para evitar decisões que relembram os fatos
vexatórios ocorridos na infância? Nessas horas entra em campo a
diplomacia - aquele que vai resolver a parada - para satisfazer
gregos e troianos. É uma situação muito delicada porque exige
flexibilidade e boa vontade de todos.
O mundo tomou conhecimento da invasão de tropas colombianas para
capturar um dos líderes das FARCS no território equatoriano. Mas
a coisa se agravou porque houve morte que foi divulgada aos
quatro cantos do planeta. Daí o clima esquentou, o bate-boca
elevou o tom de voz, as acusações surgiram de todas as formas -
enfim, o caldo entornou. Falou-se até numa desestabilização do
continente sul-americano. Uribe, Hugo Chavez, Bush... quem foi o
estopim desse impasse?
Fala-se que as causas são as mais diversas possíveis. Da
liderança para a redenção da América Latina ao combate do
narcotráfico. Desta forma, surgem atores de estatura e
importância para todos os gostos. Hugo Chavez, o sucessor
natural de Fidel; Bush, o perseguidor implacável dos
narcotraficantes; e Uribe, o homem que quer acabar com as FARCS.
E o Brasil, que é considerado o corredor do tráfico, viu-se
ameaçado pelo episódio. Devemos "meter o nariz" nessa briga de
vizinhos?
Entre a exigência do pedido de desculpas, por parte do Equador,
e a reunião marcada para aparar as arestas, ficam as perguntas:
qual a lição que os países do continente aprenderam? À parte as
suspeitas que o narcotráfico, os petrodólares de Chavez e o
mercado consumidor norte-americano, formam um grupo de interesse
comum, como chegar a uma posição que garanta a estabilidade e a
segurança da região? Até onde a libertação dos reféns das FARCS
atende outros interesses?
Apertos de mãos mostrados pela mídia não significam que a paz
foi selada definitivamente entre os envolvidos. Se assim fosse o
clima permanente de guerra que se vive no Oriente Médio já
estaria fazendo décadas de sepultamento. Os verdadeiros motivos
nunca são divulgados, expostos e discutidos à exaustão para se
buscar uma solução. Mas sabe-se que Hugo Chavez está adquirindo
equipamentos de guerra para defender o seu país. Isso é preciso?
Quem o estaria ameaçando?
Voltando-se à infância, onde a bola foi parar no quintal do
vizinho. Será que se pedisse permissão para apanhá-la, ou apenas
que fosse devolvida, não seria mais racional? Talvez esse
simples gesto evitasse tanta confusão. Ou será que ninguém sabe
onde começa o terreno do vizinho? Pode ser que alguém entendeu
que a bola sendo sua, não importa onde esteja, é um direito seu
ir buscá-la de qualquer maneira. Vai adivinhar qual será a
atitude de uma criança!
Como o mal já foi feito, resta ao irmão mais velho, ou o pai do
infrator, tentar resolver o imbróglio junto ao dono do terreno
invadido. Se vai ser num Fórum, numa reunião de lideranças, ou
na base da força bruta ninguém sabe. Só não adianta continuar
esse bate-boca, troca de acusações e ofensas, insinuações e
outras aparições jogando para a platéia na mídia. Mas ficou
muito claro, para todos, que o quintal do vizinho tem de ser
respeitado, não importando quem é o dono da bola.
Jose Roberto Takeo Ichihara
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 18/03/2008
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