A casa dos grandes pensadores
 
 

JOSE ROBERTO TAKEO ICHIHARA

 

 

José Roberto T. Ichihara

Conquistas, lágrimas e emoções

Mais uma olimpíada chegou ao final. Quem conseguiu o seu objetivo ainda vai comemorar por alguns dias; quem fracassou já sonha com Londres em 2012. Vida de atleta é assim! À parte as análises dos especialistas, as opiniões dos otimistas incuráveis e dos críticos de plantão, ficam histórias pessoais e de equipes para alimentar a mídia e engordar as estatísticas dessa atividade que encanta e apaixona. O mundo respirou esporte durante esses 16 dias. Houve chance e oportunidade para todos na China.
Como em todo balanço, houve perdas e ganhos. Previsões que se confirmaram, como do norte-americano Michael Phelps e sua atuação histórica. Decepções como o tombo inesperado da nossa maior esperança, Diego Hipólyto. Surpresa agradável como o ponto mais alto do pódio com o nadador César Cielo. Volta por cima da saltadora Maurren Maggi que foi afastada sob acusação de doping. Recuperação da auto-estima da nossa equipe feminina de vôlei de quadra, a que sempre amarelava na hora H.
São fatos que mostram que toda competição pode comprovar, decepcionar, resgatar e surpreender. Além do mais, desfaz o mito de que o desempenho só depende de investimento maciço e que quanto mais desenvolvido o país maior o número de medalhas de ouro. O certo é que esse evento revela heróis, consagra mitos, escolhe vilões, recompensa sacrifícios, realiza sonhos, apresenta imprevistos e empurra os desafios para limites cada vez mais longe para a superação do ser humano.
Os resultados, gostem ou não os dirigentes, servem para conscientizar onde precisamos melhorar. Que nem sempre qualidade é produto da quantidade disponível. Mas que as conquistas, por mais insatisfatórias que sejam, devem ser valorizadas porque representam o resultado de um esforço. Reconhecer que o adversário foi melhor também faz parte do espírito olímpico. Afinal, se os nossos melhores foram superados significa que o esforço que fizemos ainda não foi o suficiente.
A classificação geral espelha que não existe país melhor ou pior para revelar atleta competitivo. Se assim fosse, a Jamaica e o Quênia não conseguiriam as suas medalhas de ouro. Mas o país pode ser prejudicado se os seus bons valores procurar outros lugares para viver, como foi o caso de Cuba. Sem os seus principais competidores, ficou muito longe de edições anteriores, quando sempre participou como forte candidato a medalhas. Isso prova que às vezes política e esporte não combinam.
O pódio é o local onde o atleta extravasa toda a sua emoção. Talvez por causa da latinidade, os brasileiros sempre choram quando o mundo reconhece a sua superioridade e toca o hino nacional. Mas é o choro carregado do sentimento de alegria, de emoção, de recompensa pelo objetivo alcançado. Muito diferente do choro pela decepção, como do judoca Eduardo Santos que foi desclassificado e pediu desculpa pela incompetência, ou da raiva pela impotência, como da saltadora Fabiana Murer que teve o seu equipamento extraviado. Nessas horas não tem preparo psicológico que segure a emoção ou a dor.
Apesar dos feitos excepcionais, os atletas continuam sendo humanos. As marcas atingidas, conseqüência de uma vida espartana, não os transformam em máquinas infalíveis e insuperáveis.   Mais dias, menos dias, alguém vai superar o que outro estabeleceu como recorde.  Pode ser um desses que fracassou nesta olimpíada, pode ser um desconhecido que surgirá... quem sabe? O fato é que a roda-viva dos desafios não pode parar.  Nunca os detalhes e a precisão fizeram tanta diferença!
Se o espetáculo foi o momento de consagração para os deuses Michael Phelps (nadador norte-americano), Usain Bolt (velocista da Jamaica) e Yelena Isinbayeva (saltadora com vara, da Rússia), a anfitriã viu o azar tirar o seu ídolo Liu Xiang (100m com barreiras), que mesmo com a perna direita machucada ia correr só para satisfazer a saga dos dirigentes por medalhas. Da mesma forma, os norte-americanos viram que sua hegemonia acabou em algumas modalidades. Mudanças acontecem!
Sempre acusamos a falta de apoio como a responsável pelo nosso fraco desempenho, citando os bons exemplos do vôlei e do judô. Agora arrumamos outro culpado: a falta de preparo psicológico.  Só a Petrobras beneficiou 28 modalidades esportivas neste ano, sendo que os investimentos nas seleções de handebol, desde 2003, não foram capazes de colocar as equipes no pódio. Além dela outras empresas privadas também investiram. Isso prova que, além de cifras, está faltando aquele algo mais que transforma as pessoas em vencedoras, evitando as tais derrapadas nos momentos inoportunos.

Jose Roberto Takeo Ichihara

Publicação: www.paralerepensar.com.br - 26/08/2008