Conquistas, lágrimas e emoções
Mais uma olimpíada chegou ao final. Quem conseguiu o seu
objetivo ainda vai comemorar por alguns dias; quem fracassou
já sonha com Londres em 2012. Vida de atleta é assim! À parte
as análises dos especialistas, as opiniões dos otimistas
incuráveis e dos críticos de plantão, ficam histórias pessoais
e de equipes para alimentar a mídia e engordar as estatísticas
dessa atividade que encanta e apaixona. O mundo respirou
esporte durante esses 16 dias. Houve chance e oportunidade
para todos na China.
Como em todo balanço, houve perdas e ganhos. Previsões que se
confirmaram, como do norte-americano Michael Phelps e sua
atuação histórica. Decepções como o tombo inesperado da nossa
maior esperança, Diego Hipólyto. Surpresa agradável como o
ponto mais alto do pódio com o nadador César Cielo. Volta por
cima da saltadora Maurren Maggi que foi afastada sob acusação
de doping. Recuperação da auto-estima da nossa equipe feminina
de vôlei de quadra, a que sempre amarelava na hora H.
São fatos que mostram que toda competição pode comprovar,
decepcionar, resgatar e surpreender. Além do mais, desfaz o
mito de que o desempenho só depende de investimento maciço e
que quanto mais desenvolvido o país maior o número de medalhas
de ouro. O certo é que esse evento revela heróis, consagra
mitos, escolhe vilões, recompensa sacrifícios, realiza sonhos,
apresenta imprevistos e empurra os desafios para limites cada
vez mais longe para a superação do ser humano.
Os resultados, gostem ou não os dirigentes, servem para
conscientizar onde precisamos melhorar. Que nem sempre
qualidade é produto da quantidade disponível. Mas que as
conquistas, por mais insatisfatórias que sejam, devem ser
valorizadas porque representam o resultado de um esforço.
Reconhecer que o adversário foi melhor também faz parte do
espírito olímpico. Afinal, se os nossos melhores foram
superados significa que o esforço que fizemos ainda não foi o
suficiente.
A classificação geral espelha que não existe país melhor ou
pior para revelar atleta competitivo. Se assim fosse, a
Jamaica e o Quênia não conseguiriam as suas medalhas de ouro.
Mas o país pode ser prejudicado se os seus bons valores
procurar outros lugares para viver, como foi o caso de Cuba.
Sem os seus principais competidores, ficou muito longe de
edições anteriores, quando sempre participou como forte
candidato a medalhas. Isso prova que às vezes política e
esporte não combinam.
O pódio é o local onde o atleta extravasa toda a sua emoção.
Talvez por causa da latinidade, os brasileiros sempre choram
quando o mundo reconhece a sua superioridade e toca o hino
nacional. Mas é o choro carregado do sentimento de alegria, de
emoção, de recompensa pelo objetivo alcançado. Muito diferente
do choro pela decepção, como do judoca Eduardo Santos que foi
desclassificado e pediu desculpa pela incompetência, ou da
raiva pela impotência, como da saltadora Fabiana Murer que
teve o seu equipamento extraviado. Nessas horas não tem
preparo psicológico que segure a emoção ou a dor.
Apesar dos feitos excepcionais, os atletas continuam sendo
humanos. As marcas atingidas, conseqüência de uma vida
espartana, não os transformam em máquinas infalíveis e
insuperáveis. Mais dias, menos dias, alguém vai superar o
que outro estabeleceu como recorde. Pode ser um desses que
fracassou nesta olimpíada, pode ser um desconhecido que
surgirá... quem sabe? O fato é que a roda-viva dos desafios
não pode parar. Nunca os detalhes e a precisão fizeram tanta
diferença!
Se o espetáculo foi o momento de consagração para os deuses
Michael Phelps (nadador norte-americano), Usain Bolt
(velocista da Jamaica) e Yelena Isinbayeva (saltadora com
vara, da Rússia), a anfitriã viu o azar tirar o seu ídolo Liu
Xiang (100m com barreiras), que mesmo com a perna direita
machucada ia correr só para satisfazer a saga dos dirigentes
por medalhas. Da mesma forma, os norte-americanos viram que
sua hegemonia acabou em algumas modalidades. Mudanças
acontecem!
Sempre acusamos a falta de apoio como a responsável pelo nosso
fraco desempenho, citando os bons exemplos do vôlei e do judô.
Agora arrumamos outro culpado: a falta de preparo
psicológico. Só a Petrobras beneficiou 28 modalidades
esportivas neste ano, sendo que os investimentos nas seleções
de handebol, desde 2003, não foram capazes de colocar as
equipes no pódio. Além dela outras empresas privadas também
investiram. Isso prova que, além de cifras, está faltando
aquele algo mais que transforma as pessoas em vencedoras,
evitando as tais derrapadas nos momentos inoportunos.