A casa dos grandes pensadores
 
 

JOSE ROBERTO TAKEO ICHIHARA

 

 

José Roberto T. Ichihara

Extinção por excesso


Parece estranho, mas no nosso país existe extinção por excesso da espécie. Não, não estamos falando de fauna ou flora, mas de pessoas. Na parte da proteção aos animais irracionais até que melhoramos. Vê-se pelo tratamento vip para baleias, cães, tartarugas e pingüins - aqueles que vêm da Patagônia sazonalmente procurar águas mais quentes em determinada época. Para mostrar o nosso grau de conscientização, ministramos verdadeiras aulas de logística para salvar cada uma dessas espécies.
Abraçamos pra valer a defesa do meio ambiente na questão dos animais e das florestas. Está certo que ainda estamos devendo no comportamento urbano quanto à destinação do lixo, poluição visual e sonora, código de postura e outros indicadores da evolução em educação ambiental. Mas as campanhas educativas não param e até as ações punitivas já começam a aparecer em algumas cidades, como o rodízio de veículos nas ruas de São Paulo - mesmo que o objetivo disso seja apenas para amenizar o trânsito caótico.
Mas o que dizer das pessoas? No meio de toda essa conscientização elas foram esquecidas! Pouco se tem feito para preservar a vida delas. Sem motivo aparente, ou justificável, os índices de mortalidade de jovens, aqueles que formam a força de trabalho, aumentam a cada dia. Se não é pela violência no trânsito, será pela imposição do tráfico de drogas. Aglomeração de pessoas significa risco de vida: jogos de futebol, carnaval, balada, festa rave e show de música ao vivo.  Isso desfaz a teoria de que somos seres sociáveis.
Vê-se com freqüência a atuação de ONGs contra o desmatamento, a ação predatória dos animais e a construção de hidrelétricas. Pena que não vemos o mesmo rigor contra a morte de crianças, a fome e a seca no nordeste, o caos nos hospitais públicos, a violência nas escolas, o tráfico de drogas, a pedofilia! Todas são causas que afetam diretamente o ser humano. Fontes fidedignas relatam que os Estados Unidos gastam milhões de dólares por ano somente para preservar o simpático ursinho panda. Nada contra, mas... 
Não queremos dizer que os animais mereçam condenação, mas dar mais importância a eles do que aos seres humanos está correto? Afinal, se melhorarmos as condições das pessoas, elas poderão cuidar melhor do meio ambiente. Da forma que está sendo feito não atende a nenhuma das necessidades. O ser humano é o mais frágil dos animais que se conhece. Se não receber bastante atenção nos primeiros meses de vida, não sobrevive. Muitos irracionais, ao contrário, já nascem com o instinto de sobrevivência.
Tome-se como exemplo a África. Enquanto a preocupação com os animais selvagens é ferrenhamente defendida pelos ambientalistas, o descaso com as pessoas é alarmantemente visível. Não é difícil entender por que este continente abriga o maior índice de pobreza e miséria do planeta. Será que adianta ter reservas de petróleo, diamante e outras riquezas mais, se o povo vive pior que os animais? Onde está comprovado que relegar o ser humano ao segundo plano é mais benéfico para o meio ambiente?
Além disso, se esquece de algo tão nobre quanto uma vida. Crenças, princípios e valores, são bens intangíveis, mas necessários. Excessos no abuso de poder, na impunidade, na irresponsabilidade com o bem público, no desrespeito às leis e às pessoas têm as suas conseqüências: a extinção da esperança, da ética, da moral, da paz, da ordem, da justiça, da prosperidade... do futuro. Pura bobagem acreditar que existe um atalho seguro para chegar mais rápido ao desenvolvimento com todos esses obstáculos no caminho.
Continuamos apostando que um país justo e desenvolvido pode ser construído aos saltos e não gradativamente. Mas se nos dermos o trabalho de olhar os exemplos, vamos concluir que são os resultados de mudanças a longo prazo. Se tivermos paciência, determinação e persistência para separar o que é bom daquilo que é inútil, vai sobrar aquilo que todos querem. E aí vale o velho ditado que diz que "não se começa uma casa pelo telhado, mas pelo alicerce". Dessa forma, as pessoas são o único alicerce seguro de um país! 
Nossa evolução possibilita que possamos desenvolver, holisticamente, melhorando a vida de todos. Aderir à modernidade não significa que precisamos extinguir as formas de vida que ocupam a Terra, principalmente o ser humano. Combater as ameaças não pode ser feito apenas dando um tratamento diferenciado aos animais irracionais, mas também evitando que seres humanos morram por falta de assistência. Tudo isso é possível desde que lutemos pela extinção de alguns excessos!

Jose Roberto Takeo Ichihara

Publicação: www.paralerepensar.com.br - 05/08/2008