A casa dos grandes pensadores
 
 
 
     
 

JOSE ROBERTO TAKEO ICHIHARA

 

José Roberto T. Ichihara

 

 

...mas livrai-nos do mal. Amém

Esta é a parte final da prece mais conhecida dos católicos. Após agradecer todas as bênçãos recebidas, os fiéis pedem a proteção divina contra todos os males que existem na vida das pessoas. Como não ficam claro quais são eles, provavelmente devem ser a violência, o egoísmo, a inveja, o ódio, a ganância, o terrorismo, a avareza e toda atitude que só depende da mente e do coração do ser humano.
Sabe-se que a Igreja e o Estado são divergentes em muitos entendimentos quanto ao comportamento em sociedade. Mas alguns valores possuem pontos comuns como o respeito às pessoas, aos bens alheios e à vida. Isso serve como um atenuante contra a primeira lei natural do ser humano, a autopreservação, fartamente comentada por Thomas Hobbes no seu famoso livro, "Leviatã", escrito em 1651.
Passados mais de três séculos e meio, a teoria desse filósofo fica cada dia mais comprovada, quando ele dizia que a vontade do homem impor-se sobre os demais estimula uma "guerra de todos contra todos". Alguma coincidência com o que está acontecendo hoje? Quanta semelhança, apesar da passagem do tempo, da evolução do ser humano, dos avanços da ciência e da tecnologia! Onde buscar explicações?
O Estado brasileiro criou todo um aparato legal para proteger as pessoas. Pelo que está escrito todos estão sob a proteção dele. E quem desobedecer deve sofrer as penalidades previstas no Código Penal. Dessa forma, de acordo com as leis, somos livres e temos a garantia que podemos viver com os nossos direitos assegurados. Conquistamos a plena e verdadeira cidadania - pelo menos no papel.
A imprensa, os poderes legalmente constituídos e demais órgãos fiscalizadores seriam os meios utilizados para consolidar o regime democrático que todos querem. O direito, segundo Thomas Hobbes, é a liberdade para manifestar opiniões. Mas para coibir os possíveis excessos precisa-se da lei. No nosso país, somente o Estado, através das instituições, é quem pode garantir os direitos e exigir as obrigações.
Mas onde estão as fontes seguras na formação do verdadeiro cidadão? Algum estudioso já dizia que a pátria é a família amplificada - a célula de toda formação ética, moral e religiosa. Da multiplicação dessas células surgiria uma nação próspera, justa, respeitadora das leis e da Justiça. Por isso, apesar de todas as mudanças que o mundo sofreu, a família ainda continua sendo o celeiro dos valores pessoais positivos.
O que fazer quando as determinações legais não conseguem impor obediência a todos? Aí, entra em ação a Justiça, baseada no que as leis definem como permitido ou proibido ao cidadão praticar no seu convívio com os demais. Algumas geram muita polêmica, como a recente Lei Seca que pune o motorista que dirigir após ingerir bebida alcoólica. Mas como são fundamentadas somente na razão, sendo aprovadas, devem ser obedecidas, gostando-se ou não da sua aplicação.
Com tantas regras e direitos poderíamos nos sentir seguros e exercer plenamente a cidadania, correto? Nem tanto. Quando vemos guardião da lei atuar em favor da bandidagem, médico abusar de paciente, pai violentar sexualmente a filha, padre praticar pedofilia, posto de gasolina vender produto adulterado e político se apossar do dinheiro público, ficamos indignados. Mas... O que acontece?!!!
Face a tanta impunidade, perante uma vida supostamente tranqüila, totalmente amparada pelas leis, não podemos descartar essa súplica dos fiéis. Como o nosso país conseguiu impor tanta imoralidade às pessoas?  Adiantou garantir tantos direitos e prometer tanta segurança? Por que esta distância inaceitável entre a teoria e a prática? Além do mais, quanta decepção com muitos que tiveram acesso ao saber!
Nossas leis até que são ousadas em alguns aspectos. Infelizmente, temos muita dificuldade quanto ao cumprimento delas. Vendo que é um bom negócio desobedecê-las, a turma de infratores arrisca-se cada vez mais, formando verdadeiros grupos, com o apoio daqueles que deveriam combater a criminalidade. Essa atividade, devido à eficácia, respeitosamente passou a ser chamada de "crime organizado".
   Cansada de tanto ver a lei, a ordem e a Justiça dos homens serem desrespeitadas, a população apela para a providência divina, implorando que algum poder, acima de tudo isso, a livre de todos os males.  Por falta de credibilidade, adquirimos o hábito de apostar que algumas leis "pegam" e outras "não pegam".  Quando a razão não funciona, como combater a maldade que brota no coração e na mente das pessoas?

Jose Roberto Takeo Ichihara
                   
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 07/07/2008