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...mas livrai-nos do mal.
Amém
Esta é a parte final da prece mais conhecida dos católicos. Após
agradecer todas as bênçãos recebidas, os fiéis pedem a proteção
divina contra todos os males que existem na vida das pessoas.
Como não ficam claro quais são eles, provavelmente devem ser a
violência, o egoísmo, a inveja, o ódio, a ganância, o
terrorismo, a avareza e toda atitude que só depende da mente e
do coração do ser humano.
Sabe-se que a Igreja e o Estado são divergentes em muitos
entendimentos quanto ao comportamento em sociedade. Mas alguns
valores possuem pontos comuns como o respeito às pessoas, aos
bens alheios e à vida. Isso serve como um atenuante contra a
primeira lei natural do ser humano, a autopreservação,
fartamente comentada por Thomas Hobbes no seu famoso livro, "Leviatã",
escrito em 1651.
Passados mais de três séculos e meio, a teoria desse filósofo
fica cada dia mais comprovada, quando ele dizia que a vontade do
homem impor-se sobre os demais estimula uma "guerra de todos
contra todos". Alguma coincidência com o que está acontecendo
hoje? Quanta semelhança, apesar da passagem do tempo, da
evolução do ser humano, dos avanços da ciência e da tecnologia!
Onde buscar explicações?
O Estado brasileiro criou todo um aparato legal para proteger as
pessoas. Pelo que está escrito todos estão sob a proteção dele.
E quem desobedecer deve sofrer as penalidades previstas no
Código Penal. Dessa forma, de acordo com as leis, somos livres e
temos a garantia que podemos viver com os nossos direitos
assegurados. Conquistamos a plena e verdadeira cidadania - pelo
menos no papel.
A imprensa, os poderes legalmente constituídos e demais órgãos
fiscalizadores seriam os meios utilizados para consolidar o
regime democrático que todos querem. O direito, segundo Thomas
Hobbes, é a liberdade para manifestar opiniões. Mas para coibir
os possíveis excessos precisa-se da lei. No nosso país, somente
o Estado, através das instituições, é quem pode garantir os
direitos e exigir as obrigações.
Mas onde estão as fontes seguras na formação do verdadeiro
cidadão? Algum estudioso já dizia que a pátria é a família
amplificada - a célula de toda formação ética, moral e
religiosa. Da multiplicação dessas células surgiria uma nação
próspera, justa, respeitadora das leis e da Justiça. Por isso,
apesar de todas as mudanças que o mundo sofreu, a família ainda
continua sendo o celeiro dos valores pessoais positivos.
O que fazer quando as determinações legais não conseguem impor
obediência a todos? Aí, entra em ação a Justiça, baseada no que
as leis definem como permitido ou proibido ao cidadão praticar
no seu convívio com os demais. Algumas geram muita polêmica,
como a recente Lei Seca que pune o motorista que dirigir após
ingerir bebida alcoólica. Mas como são fundamentadas somente na
razão, sendo aprovadas, devem ser obedecidas, gostando-se ou não
da sua aplicação.
Com tantas regras e direitos poderíamos nos sentir seguros e
exercer plenamente a cidadania, correto? Nem tanto. Quando vemos
guardião da lei atuar em favor da bandidagem, médico abusar de
paciente, pai violentar sexualmente a filha, padre praticar
pedofilia, posto de gasolina vender produto adulterado e
político se apossar do dinheiro público, ficamos indignados.
Mas... O que acontece?!!!
Face a tanta impunidade, perante uma vida supostamente
tranqüila, totalmente amparada pelas leis, não podemos descartar
essa súplica dos fiéis. Como o nosso país conseguiu impor tanta
imoralidade às pessoas? Adiantou garantir tantos direitos e
prometer tanta segurança? Por que esta distância inaceitável
entre a teoria e a prática? Além do mais, quanta decepção com
muitos que tiveram acesso ao saber!
Nossas leis até que são ousadas em alguns aspectos.
Infelizmente, temos muita dificuldade quanto ao cumprimento
delas. Vendo que é um bom negócio desobedecê-las, a turma de
infratores arrisca-se cada vez mais, formando verdadeiros
grupos, com o apoio daqueles que deveriam combater a
criminalidade. Essa atividade, devido à eficácia,
respeitosamente passou a ser chamada de "crime organizado".
Cansada de tanto ver a lei, a ordem e a Justiça dos homens
serem desrespeitadas, a população apela para a providência
divina, implorando que algum poder, acima de tudo isso, a livre
de todos os males. Por falta de credibilidade, adquirimos o
hábito de apostar que algumas leis "pegam" e outras "não
pegam". Quando a razão não funciona, como combater a maldade
que brota no coração e na mente das pessoas?
Jose Roberto Takeo Ichihara
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 07/07/2008
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