A casa dos grandes pensadores
 
 
 
     
 

JOSE ROBERTO TAKEO ICHIHARA

 

 

 

Obedecer ou transgredir?

As pessoas de bem sempre foram orientadas, desde a mais tenra idade, a respeitar as regras da boa convivência. No lar, na escola, no trabalho, no dia-a-dia em geral. Isso é o principio básico da cidadania. Obedecer às leis escritas, morais, éticas e culturais. Baseados nisso acreditamos que, somente assim, construiremos uma sociedade mais justa e equilibrada. Em contrapartida, esperamos que o mundo, tão cruel e perigoso, se torne mais seguro. Por isso fazemos a nossa parte.
Rotulamos como uma pessoa ou família de bem aquela que exige seus direitos, mas cumpre com todos os deveres estabelecidos pela sociedade. Apostamos que isso nos leva à tão sonhada paz, harmonia e esperança de dias melhores. Temos a convicção de que é uma corrente muito forte, inquebrável, super-resistente às ameaças externas.  O caminho para o sonho. A certeza da construção de uma obra grandiosa para ser desfrutada e admirada por todos. Uma luta que vale a pena.
Mas o mal, sempre ele, nos mostra que apenas o respeito e a obediência são insuficientes para combatê-lo. Ele está sempre a anos-luz do bem. Inova e surpreende a cada minuto. É um adversário implacável, combativo, tenaz... incansável. Nunca mostra inteiramente a sua face e as suas intenções - é imprevisível! Merece ser muito bem avaliado, jamais desprezado, ignorado ou esquecido.  Devemos estar sempre preparados, pois ele não nos dá trégua - além de ser covarde e traiçoeiro.
De uma forma ou de outra, somos penalizados por infringir leis, regras de comportamento ou política de boa vizinhança. Apesar de nem sempre envolver valores materiais, o custo disso pode ser muito caro para nós. Peso na consciência? Sentimento de culpa? Irresponsabilidade? Prejuízo a terceiros? É sempre uma preocupação, pelo menos para aqueles que são conscientes. Isso tudo é o que regula o freio ou o acelerador da nossa vida. Funcionam como os limitadores dos nossos impulsos.
Sabemos que a concentração exagerada da população dificulta a convivência entre as pessoas. Se para uns significa oportunidades, um mercado maior a ser explorado; para outros é um alerta sobre problemas sem soluções. Em ambos os casos, geralmente, as dificuldades são maiores. Explosão demográfica é sinônimo de multiplicação: da desigualdade, da insegurança... da violência. E nesse caldeirão de incertezas, o bom comportamento pode se tornar inviável, impraticável, ineficaz.
Qual é a visão do mundo para uma pessoa de 20 anos? Milhões de oportunidades? Realizações sem limites? Mostrar que tudo pode ser diferente? Provar que a vida vale a pena? Deixar de reclamar e simplesmente empreender, realizar, fazer acontecer? Quem já passou por isso sabe qual é o significado! Constatar que o medo pode ser vencido, derrotado, banido de uma vez por todas. Aposentar velhos conceitos e preconceitos. Quem duvida disso? Jovens são invencíveis - sempre!
O passar do tempo, segundo os especialistas, não aumenta a inteligência. Apenas valoriza a sabedoria, uma outra forma de sobrevivência. Onde a cautela substitui a ousadia; a indagação vem antes da afirmação; o "se" sobrepõe o "por que não"; o "pode ser" assume o lugar do "com certeza". Essas divergências são normais, salutares e necessárias. Compõem, confrontam e resumem o que é a vida.  Delineiam uma existência. Se não mostram o rumo certo, pelo menos balizam um caminho.
Por que não ensinamos aos filhos, entes queridos e pessoas de nosso círculo de amizade que o mal existe? Que a vida é mais valiosa que as regras medíocres impostas pela legislação defasada da realidade? Incutimos medos com base nos parâmetros utópicos de quem não pode garantir nada!  Quando a tragédia acontece todos lamentam, mas ninguém explica ou se responsabiliza. Assim é fácil e cômodo ser um gestor da lei: impor muitas obrigações sem oferecer o mínimo de segurança.
Como se sentiu o pai da jovem estupidamente assassinada, num semáforo de São Paulo, há poucos dias? O que ela fez de errado? Usava o cinto de segurança e parou no sinal fechado, como manda a regra do trânsito. Morreu por causa disso, à toa. Por que, neste país, quem tenta fazer o certo, cumprir a lei e seguir as normas, sempre se dá mal? Valeu a pena evitar a multa e os pontos na carteira? Esses jovens... Por que nunca sabem quando devem desobedecer os conselhos dos pais?

Jose Roberto Takeo Ichihara
                   
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 20/08/2007