A casa dos grandes pensadores
 
 
 
     
 

JOSE ROBERTO TAKEO ICHIHARA

 

 

 

O réveillon


   Retrospectiva, planos futuros, preparativos para o último dia do ano, esquecer o que passou e tocar a vida pra frente. É o que passa na cabeça de todos nesta data. Todos esperam que o próximo ano seja melhor do que o atual. Nessas horas ninguém liga para estatísticas, tendências ou seja lá o que for.
Valem mais as previsões dos tarólogos ou dos que lêem e sabem decifrar o que os búzios dizem. Paira certa ansiedade no ar. A crença está muito presente na passagem de ano. Da cor da roupa a rituais, cada um com a sua preferência. É um dia marcante que vai influenciar muito como será o restante do ano.  Todo cuidado é pouco, dizem os mais crédulos. Claro, pois ninguém quer amargar dias horríveis somente porque não cumpriu direitinho o ritual da passagem de ano.
Ouve-se de tudo nesse dia: deixar de fumar, mudar de emprego, casar, voltar a estudar, ter filho, trocar de carro, mudar de vida etc. Fazer tudo o que precisa ser feito. Como se tudo o que não conseguimos fazer durante 364 dias dependesse apenas desse dia. Mas se não existir um dia assim, como nos daremos outra chance? É a velha história da recuperação do tempo perdido. Pelo menos todos têm a boa vontade de refazer seus planos, corrigir o que está errado, reconhecer suas falhas e admitir que as coisas possam ser melhores para todos, a partir da meia-noite.
Mas nem todos os setores da sociedade encaram esta data da mesma forma. Hotéis, clubes e restaurantes torcem para receber uma enxurrada de pessoas. Hospitais, Delegacias e Corpo de Bombeiros rezam para receber o mínimo de pessoas e chamadas de emergência. Até neste dia o que é bom para alguns pode ser muito ruim para outros. É a roda-viva, que faz o mundo funcionar, cobrando de cada um a sua cota de sacrifício pela participação.
Apesar de individualmente cada um ter o seu plano, muitos fazem questão de ajudar os mais necessitados, esquecendo festas, banquetes, espetáculos pirotécnicos e reuniões com amigos. Preferem atender asilos, creches, instituições de caridade ou simplesmente dar um pouco de conforto aos menores e velhos abandonados nas ruas. O mais importante disso tudo é que não tiram proveito desses atos. Fazem apenas por amor ao próximo sem esperar o reconhecimento de ninguém.
Se todos lutassem para diminuir a desigualdade que existe entre as pessoas, grande parte dos problemas sociais desapareceria. A injustiça e a exclusão seriam mais aceitáveis se as oportunidades fossem iguais entre todos. Vivemos num mundo imperfeito, apesar de existir muita coisa boa na vida de cada um, porém não devemos desistir de ajudar a torná-lo melhor.
Precisamos deixar de lado a imparcialidade e agir. Não vamos buscar a perfeição, mas o admissível. Esqueçamos a prosperidade para todos, mas lutemos pela redução das desigualdades. Utópico um mundo sem doenças, mas que os mais necessitados tenham um mínimo de assistência médica. Sabemos que nem todos podem morar como deveriam, mas qualquer abrigo decente é melhor que debaixo de uma ponte. Nem todos podem ser doutores, mas saber ler e escrever é o mínimo que merecem. Nenhum banquete farto, apenas o que comer.
Impossível o que todos querem? Sabemos que não. No dia que atingirmos parte disso tudo podemos dizer que estamos caminhando para a verdadeira prosperidade. Quando as necessidades básicas de nossos semelhantes forem totalmente atendidas, teremos todo o direito de dizer que somos irmãos, que alcançamos a categoria de animal racional, que temos inteligência, competência e moral. Aí, sim, podemos dizer com muita propriedade: Feliz Ano-Novo a todos.

Jose Roberto Takeo Ichihara
                   
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 19/12/2006