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O réveillon
Retrospectiva, planos
futuros, preparativos para o último dia do ano, esquecer o que
passou e tocar a vida pra frente. É o que passa na cabeça de
todos nesta data. Todos esperam que o próximo ano seja melhor do
que o atual. Nessas horas ninguém liga para estatísticas,
tendências ou seja lá o que for.
Valem mais as previsões dos tarólogos ou dos que lêem e sabem
decifrar o que os búzios dizem. Paira certa ansiedade no ar. A
crença está muito presente na passagem de ano. Da cor da roupa a
rituais, cada um com a sua preferência. É um dia marcante que
vai influenciar muito como será o restante do ano. Todo cuidado
é pouco, dizem os mais crédulos. Claro, pois ninguém quer
amargar dias horríveis somente porque não cumpriu direitinho o
ritual da passagem de ano.
Ouve-se de tudo nesse dia: deixar de fumar, mudar de emprego,
casar, voltar a estudar, ter filho, trocar de carro, mudar de
vida etc. Fazer tudo o que precisa ser feito. Como se tudo o que
não conseguimos fazer durante 364 dias dependesse apenas desse
dia. Mas se não existir um dia assim, como nos daremos outra
chance? É a velha história da recuperação do tempo perdido. Pelo
menos todos têm a boa vontade de refazer seus planos, corrigir o
que está errado, reconhecer suas falhas e admitir que as coisas
possam ser melhores para todos, a partir da meia-noite.
Mas nem todos os setores da sociedade encaram esta data da mesma
forma. Hotéis, clubes e restaurantes torcem para receber uma
enxurrada de pessoas. Hospitais, Delegacias e Corpo de Bombeiros
rezam para receber o mínimo de pessoas e chamadas de emergência.
Até neste dia o que é bom para alguns pode ser muito ruim para
outros. É a roda-viva, que faz o mundo funcionar, cobrando de
cada um a sua cota de sacrifício pela participação.
Apesar de individualmente cada um ter o seu plano, muitos fazem
questão de ajudar os mais necessitados, esquecendo festas,
banquetes, espetáculos pirotécnicos e reuniões com amigos.
Preferem atender asilos, creches, instituições de caridade ou
simplesmente dar um pouco de conforto aos menores e velhos
abandonados nas ruas. O mais importante disso tudo é que não
tiram proveito desses atos. Fazem apenas por amor ao próximo sem
esperar o reconhecimento de ninguém.
Se todos lutassem para diminuir a desigualdade que existe entre
as pessoas, grande parte dos problemas sociais desapareceria. A
injustiça e a exclusão seriam mais aceitáveis se as
oportunidades fossem iguais entre todos. Vivemos num mundo
imperfeito, apesar de existir muita coisa boa na vida de cada
um, porém não devemos desistir de ajudar a torná-lo melhor.
Precisamos deixar de lado a imparcialidade e agir. Não vamos
buscar a perfeição, mas o admissível. Esqueçamos a prosperidade
para todos, mas lutemos pela redução das desigualdades. Utópico
um mundo sem doenças, mas que os mais necessitados tenham um
mínimo de assistência médica. Sabemos que nem todos podem morar
como deveriam, mas qualquer abrigo decente é melhor que debaixo
de uma ponte. Nem todos podem ser doutores, mas saber ler e
escrever é o mínimo que merecem. Nenhum banquete farto, apenas o
que comer.
Impossível o que todos querem? Sabemos que não. No dia que
atingirmos parte disso tudo podemos dizer que estamos caminhando
para a verdadeira prosperidade. Quando as necessidades básicas
de nossos semelhantes forem totalmente atendidas, teremos todo o
direito de dizer que somos irmãos, que alcançamos a categoria de
animal racional, que temos inteligência, competência e moral.
Aí, sim, podemos dizer com muita propriedade: Feliz Ano-Novo a
todos.
Jose Roberto Takeo Ichihara
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 19/12/2006

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