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O último predador
A cena é excitante: o felino se aproxima da vítima, abaixado, e
dá o bote abatendo a presa. Dificilmente falha na sua investida.
Em seguida, leva a caça para alimentar a sua família,
aproveitando as melhores partes e deixando o restante para os
caçadores menos competentes. Só faz isso para saciar a fome,
nada mais. À medida que os filhotes vão crescendo, ensina as
técnicas para eles e cada um cuida da sua vida daí pra frente.
Mas, de uma maneira geral, eles são caçadores natos.
No mundo animal cada espécie é vitima e predador, numa cadeia
que consegue manter o equilíbrio natural do ecossistema. A
Natureza dotou os irracionais do instinto de sobrevivência para
que não ocorra o desequilíbrio no meio ambiente. Se não houver
interferência externa, os animais conseguem sobreviver sem a
extinção de qualquer espécie por ação predatória.
O animal irracional só mata por instinto de sobrevivência, para
se alimentar ou para disputar o poder no grupo. Fora essas
situações, o irracional vive e deixa viver qualquer outro tipo
que compartilhe o espaço físico com ele. Normalmente é o
predador de alguém mais fraco, que pode ser vencido numa luta
corporal, mas precisa se defender do seu caçador, este
geralmente mais forte fisicamente ou aquele que conhece os seus
pontos vulneráveis, que consegue ser mais ardiloso.
Apesar de toda a violência que existe no mundo animal, não se
sabe de espécie que exibe partes de suas vítimas como troféu ou
algo que demonstre superioridade. Satisfeitas as suas
necessidades, o irracional segue em busca de novas presas, ao
mesmo tempo em que tenta se defender dos seus predadores. E
assim o ciclo da vida entre os animais prossegue sem muita
mudança ou novidade quanto à sobrevivência. Suas leis são muito
bem definidas e respeitadas.
Nós, os racionais, entretanto, conseguimos desenvolver outros
meios para garantir a nossa sobrevivência. Mas continuamos
matando os outros seres, além dos nossos semelhantes, por
motivos inexplicáveis. Haja vista as salas de troféus exibidas
com muito orgulho pelos caçadores profissionais. O motivo não é
a fome nem a defesa da vida, mas apenas a alimentação do ego
para provar a nossa superioridade sobre os demais, os nossos
feitos de conquistador, a auto-afirmação do poder.
O ser humano também elimina os seus concorrentes de forma
indireta - prova da sua inteligência - quando cria e impõe
condições adversas usando o poder econômico, que é a nova
técnica de dominação no mundo globalizado. Não precisa mais de
lutas armadas, ocupação territorial ou esforço físico. Apenas um
bloqueio ou uma retaliação nas relações comerciais já condena o
mais fraco. Não chega a matar, literalmente, mas aniquila. Temos
a incrível necessidade de dominar!
Uma característica marcante no racional é que a sua evolução é
inversamente proporcional à preservação do meio ambiente. À
medida que vai transformando o que existe naturalmente, para
melhorar a sua qualidade de vida, a espécie humana age como um
predador voraz. Falta bom senso? Talvez. Mas colocamos à
disposição de todos a preservação de vários espécimes para
mostrar que nos preocupamos com os demais seres vivos. Os
desequilíbrios mostrados, porém, dizem o contrário.
Podemos nos orgulhar que conseguimos sobreviver sem a terrível
fama de sermos o último predador? Nem tanto. Ainda temos tempo
para consertar o que já destruímos? Esperamos que sim. A nossa
capacidade de adaptação é que nos levou a dominar os outros
animais. Felizmente já vemos muitas atitudes coletivas no
sentido de compartilharmos, de forma pacífica e harmônica, os
recursos indispensáveis para a sobrevivência de todos. Será que
precisamos aprender mais com os irracionais?
Jose Roberto Takeo Ichihara
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 29/08/2007
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