A casa dos grandes pensadores
 
 
 
     
 

JOSE ROBERTO TAKEO ICHIHARA

 

 

 

O último predador

A cena é excitante: o felino se aproxima da vítima, abaixado, e dá o bote abatendo a presa. Dificilmente falha na sua investida. Em seguida, leva a caça para alimentar a sua família, aproveitando as melhores partes e deixando o restante para os caçadores menos competentes. Só faz isso para saciar a fome, nada mais. À medida que os filhotes vão crescendo, ensina as técnicas para eles e cada um cuida da sua vida daí pra frente. Mas, de uma maneira geral, eles são caçadores natos.
No mundo animal cada espécie é vitima e predador, numa cadeia que consegue manter o equilíbrio natural do ecossistema. A Natureza dotou os irracionais do instinto de sobrevivência para que não ocorra o desequilíbrio no meio ambiente. Se não houver interferência externa, os animais conseguem sobreviver sem a extinção de qualquer espécie por ação predatória.
O animal irracional só mata por instinto de sobrevivência, para se alimentar ou para disputar o poder no grupo. Fora essas situações, o irracional vive e deixa viver qualquer outro tipo que compartilhe o espaço físico com ele. Normalmente é o predador de alguém mais fraco, que pode ser vencido numa luta corporal, mas precisa se defender do seu caçador, este geralmente mais forte fisicamente ou aquele que conhece os seus pontos vulneráveis, que consegue ser mais ardiloso.
Apesar de toda a violência que existe no mundo animal, não se sabe de espécie que exibe partes de suas vítimas como troféu ou algo que demonstre superioridade. Satisfeitas as suas necessidades, o irracional segue em busca de novas presas, ao mesmo tempo em que tenta se defender dos seus predadores. E assim o ciclo da vida entre os animais prossegue sem muita mudança ou novidade quanto à sobrevivência. Suas leis são muito bem definidas e respeitadas.
Nós, os racionais, entretanto, conseguimos desenvolver outros meios para garantir a nossa sobrevivência. Mas continuamos matando os outros seres, além dos nossos semelhantes, por motivos inexplicáveis. Haja vista as salas de troféus exibidas com muito orgulho pelos caçadores profissionais. O motivo não é a fome nem a defesa da vida, mas apenas a alimentação do ego para provar a nossa superioridade sobre os demais, os nossos feitos de conquistador, a auto-afirmação do poder.
O ser humano também elimina os seus concorrentes de forma indireta - prova da sua inteligência - quando cria e impõe condições adversas usando o poder econômico, que é a nova técnica de dominação no mundo globalizado. Não precisa mais de lutas armadas, ocupação territorial ou esforço físico. Apenas um bloqueio ou uma retaliação nas relações comerciais já condena o mais fraco. Não chega a matar, literalmente, mas aniquila. Temos a incrível necessidade de dominar!
Uma característica marcante no racional é que a sua evolução é inversamente proporcional à preservação do meio ambiente. À medida que vai transformando o que existe naturalmente, para melhorar a sua qualidade de vida, a espécie humana age como um predador voraz. Falta bom senso? Talvez. Mas colocamos à disposição de todos a preservação de vários espécimes para mostrar que nos preocupamos com os demais seres vivos. Os desequilíbrios mostrados, porém, dizem o contrário.
Podemos nos orgulhar que conseguimos sobreviver sem a terrível fama de sermos o último predador? Nem tanto. Ainda temos tempo para consertar o que já destruímos? Esperamos que sim. A nossa capacidade de adaptação é que nos levou a dominar os outros animais. Felizmente já vemos muitas atitudes coletivas no sentido de compartilharmos, de forma pacífica e harmônica, os recursos indispensáveis para a sobrevivência de todos. Será que precisamos aprender mais com os irracionais?

Jose Roberto Takeo Ichihara
                   
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 29/08/2007