|
Pra não dizer que não falei
das flores...
Deixamos de falar sobre as coisas belas que existem no mundo. Há
pouco mais de trinta anos, quando era muito disputada a corrida
espacial entre EUA e URSS, um astronauta exclamou: "A Terra,
vista daqui de cima, é azul!" Desde então, todos que falam deste
lugar o pinta de todas as cores, menos de azul. Será que
perdemos a beleza das cores?
Temos o negro da poluição, o cinza da incerteza, o vermelho da
violência, o roxo da raiva e da vergonha das instituições e o
amarelo estampado no rosto sorridente do impune. Nem sinal do
branco da paz, do verde da esperança e do azul da limpeza
celeste. E assim, nesse espectro sombrio e assustador, vamos
alimentando nossos sonhos e frustrações.
Nunca falta assunto para denúncia sobre abuso de poder,
escândalos, falcatruas, malversação, violência e impunidade. São
os pontos cardeais da vida contemporânea no país. Mata-se e
rouba-se por qualquer motivo. Noventa por cento das notícias
abordam esses temas. As coisas do mal tomaram o lugar da beleza,
do sonho, do romantismo, da imaginação, da vida.
A exaltação do amor, do desabrochar de uma vida, de um exemplo
de luta pessoal e a contribuição de alguém para o beneficio
geral da humanidade não são mais divulgados. Optou-se por um
genérico, mais barato e de fácil aquisição, algo mais
vendável... com mercado cativo. E assim, num desfilar de fatos e
cenas chocantes do dia-a-dia, sobrevive a nossa mídia.
Por que as balas perdidas só encontram quem elas não
procuravam? O saldo doloroso das vitimas inocentes traduz qual
o valor de uma vida neste país. Numa batalha entre bandidos
assumidos e alguns bandidos disfarçados, quem sofre é o cidadão
que não tem nada com isso. Ele tem de se defender dos dois lados
porque é o único alvo certo nesta guerra.
Qual é a poesia mais comentada nas revistas, nos jornais e na
televisão? A cidade com melhor qualidade vida utilizou quais
métodos para conseguir isso? Quando vamos conhecer a vacina
contra a dengue? Como foi premiado o melhor estudante do país?
Ninguém sabe porque isso não interessa, não dá audiência! É
assunto para os chatos sem objetivos na vida.
Será que só sabemos comentar sobre coisas ruins? Onde estão os
outros valores da vida? O que restou das amizades? Dos tempos
de escola? Para onde foram as lembranças da juventude? Perdemos
tudo porque tudo agora é descartável. Até os valores
intangíveis. Arte, esporte e literatura agora são profissões
fundamentalmente conhecidas pelas cifras.
Tínhamos ídolos por causa do seu comportamento não por seus bens
materiais acumulados. Eles representavam uma vontade coletiva de
uma geração. Copiava-se tudo deles: o modo de vestir, o
penteado, as gírias, as preferências - enfim eram exemplos. Mais
importante ainda era que tínhamos orgulho deles, brigávamos por
eles.
O que dizer dos ídolos de hoje? A maioria não resiste a uma
investigação preliminar de suas atuações, tanto na vida
profissional quanto na pessoal. Muitos são apenas produtos,
também descartáveis, elaborados pela mídia. Talvez até
materializem a previsão do Andy Wharol, onde todos um dia terão
os seus quinze minutos de fama sob os holofotes.
Mas a roda-viva do mundo não pode parar. Neste circo ou em outro
picadeiro. Com esses atores ou com aqueles que estão surgindo.
Sem script conhecido ou com algum improvisado. Somente quando
cair o pano, porém, após o ato final, saberemos se o espetáculo
valeu a pena. Quem sabe um dia desses sejamos encontrados pela
esperança perdida!
Jose Roberto Takeo Ichihara
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 09/07/2007

 |