A casa dos grandes pensadores
 
 
 
     
 

JOSE ROBERTO TAKEO ICHIHARA

 

 

 

Pra não dizer que não falei das flores...

Deixamos de falar sobre as coisas belas que existem no mundo. Há pouco mais de trinta anos, quando era muito disputada a corrida espacial entre EUA e URSS, um astronauta exclamou: "A Terra, vista daqui de cima, é azul!" Desde então, todos que falam deste lugar o pinta de todas as cores, menos de azul. Será que perdemos a beleza das cores?
Temos o negro da poluição, o cinza da incerteza, o vermelho da violência, o roxo da raiva e da vergonha das instituições e o amarelo estampado no rosto sorridente do impune. Nem sinal do branco da paz, do verde da esperança e do azul da limpeza celeste. E assim, nesse espectro sombrio e assustador, vamos alimentando nossos sonhos e frustrações.
Nunca falta assunto para denúncia sobre abuso de poder, escândalos, falcatruas, malversação, violência e impunidade. São os pontos cardeais da vida contemporânea no país. Mata-se e rouba-se por qualquer motivo.  Noventa por cento das notícias abordam esses temas. As coisas do mal tomaram o lugar da beleza, do sonho, do romantismo, da imaginação, da vida.
A exaltação do amor, do desabrochar de uma vida, de um exemplo de luta pessoal e a contribuição de alguém para o beneficio geral da humanidade não são mais divulgados. Optou-se por um genérico, mais barato e de fácil aquisição, algo mais vendável... com mercado cativo. E assim, num desfilar de fatos e cenas chocantes do dia-a-dia, sobrevive a nossa mídia.
Por que as balas perdidas só encontram quem elas não procuravam?  O saldo doloroso das vitimas inocentes traduz qual o valor de uma vida neste país. Numa batalha entre bandidos assumidos e alguns bandidos disfarçados, quem sofre é o cidadão que não tem nada com isso. Ele tem de se defender dos dois lados porque é o único alvo certo nesta guerra.
Qual é a poesia mais comentada nas revistas, nos jornais e na televisão? A cidade com melhor qualidade vida utilizou quais métodos para conseguir isso? Quando vamos conhecer a vacina contra a dengue? Como foi premiado o melhor estudante do país? Ninguém sabe porque isso não interessa, não dá audiência! É assunto para os chatos sem objetivos na vida.
Será que só sabemos comentar sobre coisas ruins? Onde estão os outros valores da vida? O que restou das amizades?  Dos tempos de escola? Para onde foram as lembranças da juventude? Perdemos tudo porque tudo agora é descartável.  Até os valores intangíveis. Arte, esporte e literatura agora são profissões fundamentalmente conhecidas pelas cifras.
Tínhamos ídolos por causa do seu comportamento não por seus bens materiais acumulados. Eles representavam uma vontade coletiva de uma geração. Copiava-se tudo deles: o modo de vestir, o penteado, as gírias, as preferências - enfim eram exemplos. Mais importante ainda era que tínhamos orgulho deles, brigávamos por eles.
O que dizer dos ídolos de hoje? A maioria não resiste a uma investigação preliminar de suas atuações, tanto na vida profissional quanto na pessoal. Muitos são apenas produtos, também descartáveis, elaborados pela mídia. Talvez até materializem a previsão do Andy Wharol, onde todos um dia terão os seus quinze minutos de fama sob os holofotes.
Mas a roda-viva do mundo não pode parar. Neste circo ou em outro picadeiro. Com esses atores ou com aqueles que estão surgindo. Sem script conhecido ou com algum improvisado. Somente quando cair o pano, porém, após o ato final, saberemos se o espetáculo valeu a pena. Quem sabe um dia desses sejamos encontrados pela esperança perdida!

Jose Roberto Takeo Ichihara
                   
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 09/07/2007