A casa dos grandes pensadores
 
 
 
 

LUÍS SÉRGIO LICO

 

Uma Fábula para Tempos sem Ética

Já reproduzi e comentei algumas histórias que circulam pela internet, sem autor definido. Mas, esta me chamou a atenção pela simplicidade e poder de impacto de sua mensagem. Gostaria de compartilhar com vocês esta pequena fábula:

Um homem, seu cavalo e seu cão, haviam morrido em um acidente e, depois do choque inicial resolveram ir até algum lugar. Quando se deram conta, já caminhavam há um bom tempo por uma estrada deserta. A caminhada era muito longa, sempre morro acima. O sol estava forte e eles acabaram ficando exaustos, desidratados e com muita sede.

Nada parecia fazer sentido, sabiam já não estar vivos, mas mesmo assim precisavam desesperadamente de água.  Após algum tempo, ao contornar uma curva do caminho, avistaram um portão magnífico, todo de mármore, que conduzia a uma praça calçada com blocos de ouro. No centro havia uma fonte de onde jorrava água cristalina. Juntarem suas últimas forças e correram para o esplêndido local.

O caminhante dirigiu-se ao homem que numa guarita, guardava a entrada e o cumprimentou:
 
- Bom dia, ele disse.
- Bom dia, respondeu o homem.
- Que lugar é este, tão lindo? ele perguntou.
- Ora! Que pergunta! Isto aqui é o céu, foi a resposta...
- Que bom que nós chegamos ao céu, estamos com muita sede, disse o homem.
- O senhor pode entrar e beber água à vontade, disse o guarda, indicando-lhe a fonte.
- Mas, meu cavalo e meu cachorro também estão com sede.
- Lamento muito, disse o guarda. Aqui não se permite a entrada de animais. E antecipando seus pensamentos, completou: Muito menos retirar qualquer coisa e levar para fora. Deixe-os por aí que o instinto os guiará. 

O homem ficou muito desapontado porque sua sede era grande, mas ele não beberia deixando seus amigos com sede. Assim, resolveu prosseguir seu caminho, estranhando as condições do paraíso.

Depois de muito caminharem morro acima, com sede e cansaço multiplicados, ele chegou a um sítio, cuja entrada era marcada por uma porteira velha semi aberta. A porteira se abria para um caminho de terra, com árvores dos dois lados que lhe faziam sombra. O panorama era majestoso, porém simples e calmo. À sombra de uma das belas árvores, um homem estava deitado, cabeça coberta com um chapéu de palha e, parecia que estava dormindo:

- Bom dia, disse o caminhante.
- Bom dia, disse o homem deitado.
- Estamos com muita sede, eu, meu cavalo e meu cachorro.
- Há uma fonte naquelas pedras, disse o homem e indicando o lugar. Podem beber à vontade.
 
O homem, o cavalo e o cachorro não esperaram mais nada. Foram até a fonte e mataram a sede. Na volta, passaram pelo fazendeiro e agradeceram:

- Muito obrigado, ele disse ao sair.
- Oh! Já vão? Nem passaram pelo pomar. Voltem quando quiserem , respondeu o homem.
- A propósito, disse o caminhante, qual é o nome deste lugar?
- Aqui  é o Céu, foi a resposta.
- O Céu? Mas o homem na guarita ao lado do portão de mármore disse que lá era o Céu!
- Oh, não! Aquilo não é o céu, aquilo é o inferno. Depois do portão dourado há um abismo eterno...

O caminhante ficou perplexo, mas parou para pensar e disse:
- Mas, então, disse ele, essa informação falsa deve causar grandes confusões.
- De forma alguma, respondeu o homem, agora resplandecendo uma luminosidade ímpar. Na verdade, eles nos fazem um favor.
- Como assim?
- É porque lá ficam aqueles que são capazes de abandonar até seus melhores amigos. Onde há respeito pela vida e pela condição do outro não há lugar para os que têm o egoísmo como norte. Vão em paz, ou fiquem conosco, se quiserem. Aqui é um lugar infinito de perfeições. Vocês irão gostar.
- E os que ficaram lá, o que será deles?
- Vê-se que és realmente uma boa alma. Eles terão que vencer o pior dos demônios e escalar, palmo a palmo, a profundidade a que se lançaram. Somente depois é que poderão aparecer por aqui.
- Nossa! Que coisa. Posso perguntar quem é a besta que devem enfrentar.
- Claro! São eles mesmos. O pior inimigo reside no interior de cada um. Ele tem duas faces e chama-se: Não me Importo e Não Tenho o Suficiente. A maioria sucumbe perante sua própria iniqüidade.

Como diria Pascal: É melhor fazer a aposta e acreditar na sobrevivência da alma e na necessidade de uma vida ética e pautada pela eqüidade. Se houver apenas o vazio por lá, você não perdeu nada e nem sequer existirá para pensar isto, já que seus átomos estarão dispersos no éter. Mas se houver uma continuidade qualquer e você não se importou de viver à custa de danos e mágoas infringidos a outros...

Luís Sérgio Lico

Publicação: www.paralerepensar.com.br 14/08/2007