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BIOGRAFIA
Cidade
natal: - Alegrete, RS.
Diziam
os amigos mais íntimos, que Mario Quintana era o poeta
das coisas simples e fazia pouco caso em relação à crítica.
Conforme costumava comentar, sua poesia era feita
simplesmente por sentir necessidade de escrever.
Em
1928 ingressou no jornal O
Estado do Rio Grande. Após ter participado da Revolução
de 1930, mudou-se para o Rio de Janeiro, retornando em
1936 para a Livraria do Globo, em Porto Alegre, onde
trabalhou sob a direção de Erico Verissimo.
Dentre
suas obras traduzidas, destacamos: Lin Yutang, Charles
Morgan, Maupassant, Proust, Rosamond Lehman, Voltaire,
Virginia Woolf, Papini, . Em sua poesia há um constante
travo de pessimismo e muito de ternura por um mundo que,
parece, lhe é adverso.
Suas
Obras: A Rua
dos Cataventos (1940), Canções
(1945), Sapato Florido (1947), poemas em prosa; Espelho Mágico (1948), O
Aprendiz de Feiticeiro (1950). Em 1962 reuniram-se
suas obras em um único volume, sob o título Poesias.
Outras obras: Pé de
Pilão (1968), Apontamentos
de História Sobrenatural (1976), Nova
Antologia Poética (1982), Batalhão
das Letras (1984
"Amar:
Fechei os olhos para não te ver e a minha boca para não
dizer... E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que
não enxuguei, e da minha boca fechada nasceram sussurros
e palavras mudas que te dediquei....O amor é quando a
gente mora um no outro." - MÁRIO QUINTANA
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"Olho
em redor do bar em que escrevo estas linhas.
Aquele homem ali no balcão, caninha após caninha,
nem desconfia que se acha conosco desde o início
das eras. Pensa que está somente afogando problemas
dele, João Silva... Ele está é bebendo a milenar
inquietação do mundo!"
A
RUA DOS CATAVENTOS
Escrevo
diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!... E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!
Não
sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons... acerta... desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...
Jogos
da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...
Vago,
solúvel no ar, fico sonhando...
E
me transmuto... iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando!
XII
Para Erico Verissimo
O
dia abriu seu pára-sol bordado
De nuvens e de verde ramaria.
E estava até um fumo, que subia,
Mi-nu-ci-o-sa-men-te desenhado.
Depois
surgiu, no céu azul arqueado,
A Lua - a Lua! - em pleno meio-dia.
Na rua, um menininho que seguia
Parou, ficou a olhá-la admirado...
Pus
meus sapatos na janela alta,
Sobre o rebordo... Céu é que lhes falta
Pra suportarem a existência rude!
E
eles sonham, imóveis, deslumbrados,
Que são dois velhos barcos, encalhados
Sobre a margem tranqüila de um açude...
Índice
BILHETE
Se
tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...
Índice
CANÇÃO
DE BARCO E DE OLVIDO
Para Augusto Meyer
Não
quero a negra desnuda.
Não quero o baú do morto.
Eu quero o mapa das nuvens
E um barco bem vagaroso.
Ai
esquinas esquecidas...
Ai lampiões de fins de linha...
Quem me abana das antigas
Janelas de guilhotina?
Que
eu vou passando e passando,
Como em busca de outros ares...
Sempre de barco passando,
Cantando os meus quintanares...
No
mesmo instante olvidando
Tudo o de que te lembrares.
Índice
OBSESSÃO
DO MAR OCEANO
Vou
andando feliz pelas ruas sem nome...
Que vento bom sopra do Mar Oceano!
Meu amor eu nem sei como se chama,
Nem sei se é muito longe o Mar Oceano...
Mas há vasos cobertos de conchinhas
Sobre as mesas... e moças na janelas
Com brincos e pulseiras de coral...
Búzios calçando portas... caravelas
Sonhando imóveis sobre velhos pianos...
Nisto,
Na vitrina do bric o teu sorriso, Antínous,
E eu me lembrei do pobre imperador Adriano,
De su'alma perdida e vaga na neblina...
Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano!
Se eu morresse amanhã, só deixaria, só,
Uma caixa de música
Uma bússola
Um mapa figurado
Uns poemas cheios de beleza única
De estarem inconclusos...
Mas como sopra o vento nestas ruas de outono!
E eu nem sei, eu nem sei como te chamas...
Mas nos encontramos sobre o Mar Oceano,
Quando eu também já não tiver mais nome.
Índice
DA
OBSERVAÇÃO
Não
te irrites, por mais que te fizerem...
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio...
Espelho
Mágico
Índice
DOS
MUNDOS
Deus
criou este mundo. O homem, todavia,
Entrou a desconfiar, cogitabundo...
Decerto não gostou lá muito do que via...
E foi logo inventando o outro mundo.
Espelho
Mágico
Índice
DAS
UTOPIAS
Se
as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!
Espelho
Mágico
Índice
DOS
MILAGRES
O
milagre não é dar vida ao corpo extinto,
Ou luz ao cego, ou eloqüência ao mudo...
Nem mudar água pura em vinho tinto...
Milagre é acreditarem nisso tudo!
Espelho
Mágico
Índice
DO
AMOROSO ESQUECIMENTO
Eu,
agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?
Espelho
Mágico
Índice
- CANÇÃO
DE OUTONO*
-
-
- O
outono toca realejo
- No
pátio da minha vida.
- Velha
canção, sempre a mesma,
- Sob
a vidraça descida...
- Tristeza?
Encanto? Desejo?
- Como
é possível sabê-lo?
- Um
gozo incerto e dorido
- de
carícia a contrapelo...
- Partir,
ó alma, que dizes?
- Colhe
as horas, em suma...
- mas
os caminhos do Outono
- Vão
dar em parte alguma!
Índice
DA
DISCRIÇÃO
Não
te abras com teu amigo
Que ele um outro amigo tem.
E o amigo do teu amigo
Possui amigos também...
Espelho
Mágico
Índice
O
AUTO-RETRATO
No
retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...
às
vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...
e,
desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança,
no
final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!
Apontamentos
de História Sobrenatural
Índice
O
MAPA
Olho
o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...
(É
nem que fosse o meu corpo!)
Sinto
uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...
Há
tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)
Quando
eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
Que
faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
E
talvez de meu repouso...
Apontamentos
de História Sobrenatural
Índice
O
MORTO
Eu
estava dormindo e me acordaram
E me encontrei, assim, num mundo estranho e louco...
E quando eu começava a compreendê-lo
Um pouco,
Já eram horas de dormir de novo!
Apontamentos
de História Sobrenatural
Índice
OS
DEGRAUS
Não
desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...
Baú
de Espantos
Índice
OS
ARROIOS
Os
arroios são rios guris...
Vão pulando e cantando dentre as pedras.
Fazem borbulhas d'água no caminho: bonito!
Dão vau aos burricos,
às belas morenas,
curiosos das pernas das belas morenas.
E às vezes vão tão devagar
que conhecem o cheiro e a cor das flores
que se debruçam sobre eles nos matos que atravessam
e onde parece quererem sestear.
Às vezes uma asa branca roça-os, súbita emoção
como a nossa se recebêssemos o miraculoso encontrão
de um Anjo...
Mas nem nós nem os rios sabemos nada disso.
Os rios tresandam óleo e alcatrão
e refletem, em vez de estrelas,
os letreiros das firmas que transportam utilidades.
Que pena me dão os arroios,
os inocentes arroios...
Baú
de Espantos
Índice
OS
POEMAS
Os
poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
Esconderijos
do Tempo
Índice
A
CANÇÃO DA VIDA
A
vida é louca
a vida é uma sarabanda
é um corrupio...
A vida múltipla dá-se as mãos como um bando
de raparigas em flor
e está cantando
em torno a ti:
Como eu sou bela
amor!
Entra em mim, como em uma tela
de Renoir
enquanto é primavera,
enquanto o mundo
não poluir
o azul do ar!
Não vás ficar
não vás ficar
aí...
como um salso chorando
na beira do rio...
(Como a vida é bela! como a vida é louca!)
Esconderijos
do Tempo
Índice
POEMINHA
SENTIMENTAL
O
meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.
Preparativos
de Viagem
Índice
SEMPRE
QUE CHOVE
Sempre
que chove
Tudo faz tanto tempo...
E qualquer poema que acaso eu escreva
Vem sempre datado de 1779!
Preparativos
de Viagem
Índice
EU
ESCREVI UM POEMA TRISTE
Eu
escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!
A
Cor do Invisível
Índice
AH!
OS RELÓGIOS
Amigos,
não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios...
Porque
o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida - a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.
Inteira,
sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.
E
os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém - ao voltar a si da vida -
acaso lhes indaga que horas são...
A
Cor do Invisível
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INSCRIÇÃO
PARA UM PORTÃO
DE CEMITÉRIO
Na
mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce - uma estrela,
Quando se morre - uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
"Ponham-me a cruz no princípio...
E a luz da estrela no fim!"
A
Cor do Invisível
Índice
O
PIOR
O
pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com
isso.
Caderno
H
Índice
EXAME
DE CONSCIÊNCIA
Se
eu amo o meu semelhante? Sim. Mas onde encontrar o meu
semelhante?
Caderno
H
Índice
A
GRANDE SURPRESA
Mas
que susto não irão levar essas velhas carolas se Deus
existe mesmo...
Caderno
H
Índice
EVOLUÇÃO
O
que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele
tenha sido nosso passado: é este pressentimento de que
ele venha a ser nosso futuro.
Caderno
H
Índice
SESTA
ANTIGA
A ruazinha lagarteando ao sol,
O coreto de música deserto
Aumenta ainda mais o silêncio.
Nem um cachorro.
Este poeminha
É só o que acontece no mundo...
Índice
RITMO
Na porta
a varredeira varre o cisco
varre o cisco
varre o cisco
Na pia
a menininha escova os dentes
escova os dentes
escova os dentes
No arroio
a lavadeira bate roupa
bate roupa
bate roupa
até que enfim
se desenrola
toda a corda
e o mundo gira imóvel como um pião!
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