DIÁLOGO DA HIPOCRISIA
Andando pelas ruas cheias de gente, num corre-corre
infernal, eis que de repente me vejo no meio da multidão e
paro num aglomerado de gente, à espera do ônibus, sem saber
propriamente onde era a fila, numa balbúrdia incontrolável
para pegar condução, uns atravessando a rua, arriscando de
serem atropelados, outros em altos brados anunciando seus
produtos, defendendo o pão de cada dia, outros pedindo esmolas
em nome de Deus, Esse mesmo Deus que os criou e o fez sua
semelhança, tornando uns ricos, outros miseráveis, enquanto
outros, em seu nome, em altos brados anunciavam a vinda de
Seu Filho, prometendo o Céu para os bons e o inferno para os
maus, eles, que em outras épocas cometeram as mais vis das
ações, e agora se dizem arrependidos de seus atos. Na fila
estavam minhas parceiras, Intolerância, Orgulho, Ódio e, por
último, encolhidos, quase não dando para ver, o Amor, a
Caridade e o Perdão, que mesmo como bonzinhos não foram
capazes de salvar o Homem que os defendeu até a morte,vendo-o
morrer de maneira cruel, enquanto elas de braços cruzados,
nada puderam fazer. Na fila estavam outros abstratos que só
identifiquei, a Preguiça , a Inveja e o Cinismo. Para aqueles
que não me conhecem, quero me apresentar. Sou a Hipocrisia,
estou em todas as partes e não ando sozinha. Sempre estou
acompanhada da Intolerância, do Orgulho, do Cinismo e do Ódio.
Sou o camaleão que se disfarça no meio da folhagem de cores
variadas para se proteger dos inimigos, assim como faço, mudo
de cor para me transformar em Bondade, Amor e Caridade.
Divirto-me com a cara dos otários; enfim sou a Eva Pagã, a
Pandora, sou a impetuosidade do desejo, o Pégaso gerado pela
cabeça da Medusa, sou o Narciso, mas sou também o Héfestos.
Meu reinado vem de longos anos desde que o Ser Supremo criou o
Mundo e o homem, que não seguiu suas leis, matando, destruindo
tudo à sua frente, criando a fome e a miséria. Mais tarde,
enviou seu Filho, uma vez que não conseguiu dominar uma das
maiores perfeições de sua criação " O Homem " através de seus
profetas, mas nem Ele, o maior Deles todos, conseguiu o
objetivo pelo qual foi enviado, pois prenderam-no,
espancaram-no e crucificaram-no de maneira mais vil,
trocando-o por um ladrão. Eu sou o espírito do mal, encarno
em todo tipo de gente, mas gosto mesmo é de políticos,
religiosos, Juizes, Desembargadores, Delegados e todos aqueles
que agem em nome da Lei, mas para tirar proveito se
enriquecerem, burlando essa mesma Lei que eles criaram e
defendem. E, mais, sou outros tipos que me divertem.
Eu sou todos eles. Sou o evangélico que engana o incauto
com malabarismo em nome de Jesus, usando truques para fazer as
pessoas desmaiarem, chorarem e gritarem, levando-as ao
delírio. Em nome Dele, uso os obreiros engravatados para
arrecadar o meu quinhão de dez por cento do ganho de cada um,
seja rico ou pobre. Em nome Dele vendo folhetos, bíblias, água
do Rio Jordão, invoco o nome de água santa do batismo, mesmo
que seja água do poço, e como um empresário de ilusões, vendo
esse mesmo Cristo prometendo a salvação. Sou o dirigente
católico que jurou seguir seu Mestre Supremo, ser humilde,
caridoso e justo, no entanto fujo ás regras, dando uma de
santo, preferindo bajular ricos, tratando pobres com desprezo
imiscuindo-me em política, com palavras do púlpito que não
passam de retórica e, orgulhoso do cargo que ocupo na
paróquia, julgo-me juiz supremo dos males que cometo. Sou ele
ou ela, que não sai da igreja bajulando o padre, mas olhando
quem vai bem ou mal vestido, e saio cochichando, falando mal
dessa ou daquela pessoa e critico os erros dos outros, me
julgando acima de tudo como salvo do pecado, esquecendo da
miséria em minha volta. Sou aquele fiel que com a Bíblia
debaixo do braço interpreto da minha maneira e me julgo salvo
dos pecados que cometi no passado e condeno as pessoas à minha
volta dizendo- me salvo. Sou o jornalista da imprensa falada
e escrita que usa de artifícios mesquinhos para crescer o IBOP
bajulando o rico ou usando o pobre como isca abusando da
desgraça alheia. Sou a pessoa ou entidade que diviniza o
revolucionário morto na Bolívia, e que nada legou de bom a
humanidade, que se possa vangloriar e, se tivesse ganho todas
as batalhas, o sangue teria jorrado, como jorra as águas de um
riacho, como fez seu companheiro na ilha de Cuba, que matou
tanto quanto Lênin e Stalin na Rússia e Sadam Hussein no
Iraque. Sou o político, que promete tudo o que pode, e o que
não pode, e quando chego ao poder esqueço de meus eleitores,
poso como um bode de gravata entronado numa cadeira de
balanço, persigo meus adversários, passo três anos sem fazer
nada e, no último ano de mandato, despejo dinheiro para ganhar
as eleições. Sou o governo de uma grande Nação, que usa das
armas poderosas, destruindo vidas em nome da democracia e da
paz. Sou a mãe que quer que o filho seja o que ela não foi
capaz, que ele seja o mais inteligente de toda classe,
forçando-o acima de sua capacidade, acusando professores e
diretores de incapazes. Sou tudo isso e mais: sou a menina
pobre que não aceita sua condição de vida renegando os pais
que a criou com carinho. Sou o feio que quer ser bonito á
força, o negro que renega sua raça, o novo que despreza o
velho, o bonito que se julga superior a todos. Sou aquele que
está no poder e menospreza o mais fraco e se julga superior
aos deuses do Olimpo, e que um dia pode cair desse Olimpo.
Queria ser muito mais, mas não encontro espaço para me
apresentar aos meus inúmeros amigos. Enfim eu sou a
Hipocrisia, que na morte, sou como qualquer outro, vou exalar
mau cheiro onde os abutres terão farto banquete, se não
encontrar uma alma caridosa que possa me enterrar.