A casa dos grandes pensadores
 
 
 
  MARLENE PASSOS

 

 

 

A alma de Tacutsi.
 
Dois jovens guerreiros Sioux sobem a montanha para tentar caçar pois havia escassez de alimento na aldeia.
Sem demora um urso se aproxima, olhar de fera faminta, os índios apontam flechas e lança. O Sioux mais velho tenta distrair e ao mesmo tempo enfrentar o urso, olhar de fera pra fera.
O urso sente a lança perto do coração mas mesmo assim reage dando um golpe fatal em Terosic.
O índio caí e o urso foge, Karenoc grita ao ver o irmão sem vida.
Nesse instante a lua desce e traz uma linda mulher trajando vestes de pele de urso branco, e nos longos cabelos tranças com penas de águia.
_ Não tema, trago a ressurreição para seu irmão.
_ Você é Tacutsi, a deusa da vida? _ pergunta Karenoc assustado.
_ Sim, vim salvar seu irmão porque a aldeia precisa de sua força espiritual, e você por ser mais jovem tem muito a aprender.
Nesse instante Tacutsi canta uma suave canção como se a natureza toda fizesse um coral.
Ajoelha-se perto de Terosic e massageia o coração, depois a fonte, inspira e expira nas narinas do índio para devolver-lhe a vida.
Numa respiração profunda ele abre os belos olhos negros e se encanta com a deusa fazendo aquele ritual.
_ O urso... _ ele diz_
_ Não se preocupe, ele fugiu. _ Diz o irmão.
_ O urso não resistiu ao ferimento, o corpo está próximo desse local, pode levá-lo para alimentar sua aldeia.
A força espiritual do urso elevou-se a outras esferas para purificar-se e fortalecer os instintos.
Agora vão.
Os irmãos amarram o urso em cipós e vão puxando.
A aldeia faz um ritual de dança e canto para agradecer o alimento.
O tempo passa e numa certa noite Terosic, que em ritual de guerra era chamado de lobo selvagem, se afasta dos integrantes e segue o caminho da montanha.
Chega ao local onde fora salvo.
O olhar  se perde entre o claro da lua e em pensamento chama a alma da mãe  criadora que usou sua mágica para dar vida às plantas, árvores, lagos, montanhas e a sua própria essência.
Aquele guerreiro estava sofrendo por amor.
A lua desce e surgi Tacutsi o fazendo sorrir.
_Pensei que não a veria mais!
_ Meu guerreiro, sinto o que diz seu coração, não pode alimentar esse sentimento.
_ Por que o amor precisa ser tão cruel? Se era para sofrer por que me salvou?
_ O amor pela aldeia precisa ser maior que o amor individual, eles necessitam de sua energia espiritual.
_ Penso em sua luz todo instante, seu instinto é imune ao amo?
_ Não, amo profundamente tudo que toco, tudo que manifesta vida, mas não posso amá-lo como companheira.
_ Por quê?
Devo minha vida a ti!
_ Não guerreiro, sua ressurreição foi necessária, a natureza segue seu curso.
_ Então faça que esse amor se transforme e não me deixe sofrer tanto.
_ Meu guerreiro, quando enfrenta-se o silêncio da própria solidão é que se conhece verdadeiramente e sente a necessidade do controle vital.
Não há como fugir das lições e efeitos da vida.
_ A dor do amor é única. Não sente nada por mim?
_ Devolvi sua vida por amor, mas meu corpo não pode amá-lo, possuo outra natureza fluídica.
Meu corpo não contem a sensibilidade da entrega carnal.
Minha alma pode amá-lo, mas nunca haverá contato entre nós como existe com os amantes.
_ Estou condenado a solidão...
Lobo selvagem abaixa-se e num gesto de carinho Tacutsi afaga seus cabelos.
_ Não sofra guerreiro, a luz do amor sempre se renova e em breve salvará uma bela índia das águas turvas do rio.
Esse sim será um amor de pura sedução vinculado ao amor divino.
A felicidade é uma conquista, mas também tem hora pra acontecer.
Agora volte a aldeia, estão sentindo sua falta.
Lobo selvagem retorna com a sensação que realmente tudo se renova a cada estágio.
E assim a luz seduz lendas e crenças...
 
Marlene Passos
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 19/05/2009