- Ato Reflexo
Não sei não, mas tem horas que eu prefiro não ser tão rápida
nas minhas respostas imediatas, tão menos nos atos reflexos.
Eu sei que ainda não condicionei meus atos reflexos, além
disso, também ainda não fiz o reforçamento e por isso foi
instintivo, ou seja, agi como um animal, um cão não adestrado,
um ser não pensante e só reagente, no popular, só um imbecil
faz o que eu fiz.
Estava eu com um porta-retratos de vidro na mão, daqueles
grandes, pesados e decorados quando, de repente, ele resolveu
atender à lei da gravidade e se jogar no chão.
Nesse momento eu estava sujeita a duas leis universais e a uma
teoria bastante coerente: a lei da gravidade, a lei de Murphy
e a teoria do Caos.
Por incrível que pareça, a gravidade é a força mais fraca da
Natureza, entre as quatro forças conhecidas.
Se os objetos for em muito "leves", a gente nem sente a
atração que um faz sobre o outro, embora ela exista. Mas,
quando um deles (ou ambos) tem muita matéria, a força já pode
ser percebida.
É o caso do peso dos objetos, que é a força que a Terra (um
corpo celestial pesado ao extremo) faz sobre eles.
Embora fosse só um porta-retratos em queda livre, o infausto
caiu com um peso que parecia um elefante gordo e suicida.
Já a segunda lei é clássica e é de uma clareza impecável: "Se
alguma coisa pode dar errado, dará. E mais, dará errado da
pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano
possível".
Ela também diz que o gato sempre cai em pé, que o pão sempre
cai com o lado da manteiga para baixo no carpete e não adianta
amarrar o pão com manteiga nas costas do gato e o jogar no
carpete.
Provavelmente o gato comerá o pão antes de cair em pé, ou
seja, é inevitável.
Já a teoria do caos é simples: "Os fenômenos ditos "caóticos"
são aqueles onde não há previsibilidade".
Se eu soubesse que ia cair, não deixava cair, óbvio.
São frações de segundos que você não pensa, reflexo é reflexo,
mas em que você conhece todo sistema estelar, todo o universo,
não há tempo e espaço nesse momento, você vai à lua e volta
mais rápido que o som, que a luz ou o tele-transporte.
Dói, mas dói demais, aquela dor aguda que você começa a pular
igual um louco; fala mal de si mesma; fala todos os palavrões
que você conhece e todos os que você inventa na hora até se
convencer que vai continuar doendo assim mesmo.
Não sei qual foi o processo mental que desencadeou a tragédia,
não sei se foi medo de ele se quebrar e me cortar, ou
simplesmente de não querer quebrá-lo, mas aconteceu.
A foto que estava nele tem no meu computador, adoro essa foto,
mas se danificasse eu podia imprimir de novo, quantas vezes eu
quisesse e esse foi o primeiro erro.
Burra, fui muito burra mesmo admito e eu sei que vocês estão
pensando isso e tem razão.
Eu de uma forma ingênua achei que era zagueira e coloquei o pé
para não deixar cair e quebrar o malfadado porta-retratos, só
lembrava o meu amigo que se quebra todo para jogar uma partida
de futebol.
Consegui, meu intuito deu certo, o miserável não quebrou, só
lascou, mas o desgraçado caiu de quina no meu dedo, na verdade
no dedão, uma pancada localizada, só para doer mais.Podia cair
de lado, de cabeça para baixo, mas não, o disgramado caiu de
quina.
Eu sei que já disse, mas completando o raciocínio, o infeliz
era de vidro e eu acho que foi isso que me fez colocar o pé na
frente, raciocínio excelente, certo?
Errado.
Eu quebrei meu dedo, o desinfeliz do porta-retratos não
quebrou, mas meu dedo sim.
Além de quebrar o meu dedo ele ainda cortou meu dedo, pior, o
maldito ainda conseguiu bater exatamente na minha articulação,
entre o osso distal e o medial, ou seja, na ponta do dedão do
pé, bem onde fica a cutícula da unha, que já dói quando
arrancam um bife e hoje eu sei, dói bem mais quando se quebra.
Na hora achei que era só um corte e a pancada.
Estou acostumada a dar topada, sou o que chamam de estabanada,
mas topada dói e passa, isso ia passar também, estanquei o rio
de sangue que saia do pé, fui trabalhar de sandálias, claro,
sapato fechado não dava, mas fui na melhor das intenções.
No meio da manhã, nem tinha chegado o meio do dia, ele começou
a latejar, a me incomodar, a doer mesmo.
Não agüentei, procurei uma clínica, onde fiz um RX e descobri
que tinha que ficar com o pé para o alto sem pisar por dois
dias.
Esses médicos acham que todos têm direito a um atestado médico
que diz que você não precisa trabalhar; doce ilusão a dele,
mas tentei obedecer 50% do que ele falou.
Vim para casa, sentei no computador, coloquei o pé para cima e
descobri que eu tenho três opções:
a primeira é de colocar o pé para baixo e ele latejar; a
segunda é de pisar e sentir uma dor aguda e a terceira é
colocá-lo para cima e ele ficar dormente, o que não é tão mau
nesse caso, já que eu paro pelo menos de sentir dor, o
problema é quando tenho que levantar de repente, fica um
formigueiro só em baixo de mim.
Bem confortável isso, mas dá para revezar, porém nada agrada.
Vocês devem estar pensando: "Nossa, devia ter um valor
sentimental enorme esse porta-retratos !"
Agora vou falar, com todas as letras: o FDP custou R$ 1,99 no
chinês da Uruguaiana, te juro que a vontade que tenho é de
jogá-lo contra a parede e quebrar em mil pedaços, não quero
nem mais vê-lo na minha frente, toda vez que o vejo lembro
como fui burra.
Nunca mais coloco meu pé onde não foi chamado.
Michele Guimarães Barbosa
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