A casa dos grandes pensadores
 
 

MICHELE GUIMARÃES BARBOSA

 

Ato Reflexo

Não sei não, mas tem horas que eu prefiro não ser tão rápida nas minhas respostas imediatas, tão menos nos atos reflexos.
Eu sei que ainda não condicionei meus atos reflexos, além disso, também ainda não fiz o reforçamento e por isso foi instintivo, ou seja, agi como um animal, um cão não adestrado, um ser não pensante e só reagente, no popular, só um imbecil faz o que eu fiz.
Estava eu com um porta-retratos de vidro na mão, daqueles grandes, pesados e decorados quando, de repente, ele resolveu atender à lei da gravidade e se jogar no chão.
Nesse momento eu estava sujeita a duas leis universais e a uma teoria bastante coerente: a lei da gravidade, a lei de Murphy e a teoria do Caos.
Por incrível que pareça, a gravidade é a força mais fraca da Natureza, entre as quatro forças conhecidas.
Se os objetos for em muito "leves", a gente nem sente a atração que um faz sobre o outro, embora ela exista. Mas, quando um deles (ou ambos) tem muita matéria, a força já pode ser percebida.
É o caso do peso dos objetos, que é a força que a Terra (um corpo celestial pesado ao extremo) faz sobre eles.
Embora fosse só um porta-retratos em queda livre, o infausto caiu com um peso que parecia um elefante gordo e suicida.
Já a segunda lei é clássica e é de uma clareza impecável: "Se alguma coisa pode dar errado, dará. E mais, dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível".
Ela também diz que o gato sempre cai em pé, que o pão sempre cai com o lado da manteiga para baixo no carpete e não adianta amarrar o pão com manteiga nas costas do gato e o jogar no carpete.
Provavelmente o gato comerá o pão antes de cair em pé, ou seja, é inevitável.
Já a teoria do caos é simples: "Os fenômenos ditos "caóticos" são aqueles onde não há previsibilidade".
Se eu soubesse que ia cair, não deixava cair, óbvio.
São frações de segundos que você não pensa, reflexo é reflexo, mas em que você conhece todo sistema estelar, todo o universo, não há tempo e espaço nesse momento, você vai à lua e volta mais rápido que o som, que a luz ou o tele-transporte.
Dói, mas dói demais, aquela dor aguda que você começa a pular igual um louco; fala mal de si mesma; fala todos os palavrões que você conhece e todos os que você inventa na hora até se convencer que vai continuar doendo assim mesmo.
Não sei qual foi o processo mental que desencadeou a tragédia, não sei se foi medo de ele se quebrar e me cortar, ou simplesmente de não querer quebrá-lo, mas aconteceu.
A foto que estava nele tem no meu computador, adoro essa foto, mas se danificasse eu podia imprimir de novo, quantas vezes eu quisesse e esse foi o primeiro erro.
Burra, fui muito burra mesmo admito e eu sei que vocês estão pensando isso e tem razão.
Eu de uma forma ingênua achei que era zagueira e coloquei o pé para não deixar cair e quebrar o malfadado porta-retratos, só lembrava o meu amigo que se quebra todo para jogar uma partida de futebol.
Consegui, meu intuito deu certo, o miserável não quebrou, só lascou, mas o desgraçado caiu de quina no meu dedo, na verdade no dedão, uma pancada localizada, só para doer mais.Podia cair de lado, de cabeça para baixo, mas não, o disgramado caiu de quina.
Eu sei que já disse, mas completando o raciocínio, o infeliz era de vidro e eu acho que foi isso que me fez colocar o pé na frente, raciocínio excelente, certo?
Errado.
Eu quebrei meu dedo, o desinfeliz do porta-retratos não quebrou, mas meu dedo sim.
Além de quebrar o meu dedo ele ainda cortou meu dedo, pior, o maldito ainda conseguiu bater exatamente na minha articulação, entre o osso distal e o medial, ou seja, na ponta do dedão do pé, bem onde fica a cutícula da unha, que já dói quando arrancam um bife e hoje eu sei, dói bem mais quando se quebra.
Na hora achei que era só um corte e a pancada.
Estou acostumada a dar topada, sou o que chamam de estabanada, mas topada dói e passa, isso ia passar também, estanquei o rio de sangue que saia do pé, fui trabalhar de sandálias, claro, sapato fechado não dava, mas fui na melhor das intenções.
No meio da manhã, nem tinha chegado o meio do dia, ele começou a latejar, a me incomodar, a doer mesmo.
Não agüentei, procurei uma clínica, onde fiz um RX e descobri que tinha que ficar com o pé para o alto sem pisar por dois dias.
Esses médicos acham que todos têm direito a um atestado médico que diz que você não precisa trabalhar; doce ilusão a dele, mas tentei obedecer 50% do que ele falou.
Vim para casa, sentei no computador, coloquei o pé para cima e descobri que eu tenho três opções:
a primeira é de colocar o pé para baixo e ele latejar; a segunda é de pisar e sentir uma dor aguda e a terceira é colocá-lo para cima e ele ficar dormente, o que não é tão mau nesse caso, já que eu paro pelo menos de sentir dor, o problema é quando tenho que levantar de repente, fica um formigueiro só em baixo de mim.
Bem confortável isso, mas dá para revezar, porém nada agrada.
Vocês devem estar pensando: "Nossa, devia ter um valor sentimental enorme esse porta-retratos !"
Agora vou falar, com todas as letras: o FDP custou R$ 1,99 no chinês da Uruguaiana, te juro que a vontade que tenho é de jogá-lo contra a parede e quebrar em mil pedaços, não quero nem mais vê-lo na minha frente, toda vez que o vejo lembro como fui burra.
Nunca mais coloco meu pé onde não foi chamado.

Michele Guimarães Barbosa
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  04/09/2008