- Meu troféu é o gesso.
Eu me pergunto às vezes porque será que os homens insistem em
jogar futebol, a peladinha de domingo como eles chamam.
Eu estava conversando com um amigo, despretensiosamente,
fazendo aquelas perguntas de sempre, como vai?, Esta sumido?
Foi quando ele me narrou a conseqüência da sua última partida
de futebol.
A conversa começou assim:
- Oi tudo bem?
- Tudo bem.
- Quanto tempo.
- Nem fala
- E ai, o que tem feito de bom?
- Tenho ficado sentado, deitado ou trabalhando...nada.
- Credo.
- To em recuperação do meu dedo mindinho.
Foi nesse momento que ele começou a narrar a odisséia dele.
Foi a narrativa médica mais engraçada que eu já ouvi na vida.
"Depois de inúmeros trabalhos insanos, consegui um fim de
semana liberado, fui jogar minha pelada sagrada de domingo,
que já não jogava há quase um mês, praia gostosa, tempo
maravilhoso, 10 minutos de jogo e eis que o adversário chuta a
bola que eu roubei dele, mas junto chuta também meu pé, claro
que nisso ele acertou meu dedo mindinho e o tirou do lugar.
Fui no médico e ele tirou raio-x, colocou no lugar, tirou
outro raio-x e colocou no lugar novamente, uma vez só para me
fazer gritar deve ter sido pouco, acho que ele gostou do meu
grito de dor.
Deve ter dado algum tipo de prazer a ele, ou ele devia estar
gostando de chamar alguma atenção, tanto que ele precisou de
um segundo médico para ajudar, um segurou meu pé, outro
segurou meu dedo e um terceiro ficou olhando, e com certeza
este terceiro devia estar se mijando de rir por dentro.
Eu, numa maca gelada, sem cerveja, com o corpo já frio, pois
demorei para resolver tudo e o calor da dor já fazia efeito,
mesmo sem eles tentarem arrancar meu dedo a puxões.
Só sei que na última tentativa, puxaram o dedo com força bruta
e seguraram para que ele não fugisse, sabe, pois ele ia
aproveitar a deixa e sair correndo do meu pé.
Então, veio o 3º raio-x, ops, quarto... o 2º não tinha ficado
bom.
O legal foi dar uma de saci por quase uma hora nesse vai e
volta.
Acho que fiz uma boa ginástica de saci, fiquei com coxa de
Roberto Carlos numa perna e Gisele Bunchen na outra.
Não acabou aí, acostumado com essas lesões no pé,
tranquilamente tratei de descansar o pé semi-imobilizado, pois
deslocado não se engessa e mesmo se engessasse, eu tiraria em
2 dias, seria um para realmente dar uma tentativa de cura e
outro para suar e me irritar de vez e tirar o gesso.
Mas foi apenas uma tala, tranqüilo, não tirei, tomei os
remédios direitinho, não pisei, descansei mais do que
provavelmente a porcentagem que possam registrar em pesquisa
de pessoas que fiquem engessadas e fiquem paradas, enfim, no
penúltimo dia deu uma coceira ABSURDA, que nunca senti em
nenhuma das minhas imobilizações.
E por "minhas imobilizações", entenda ao menos 1 por ano,
desde 1994, não é exagero, a média deve realmente passar de
uma por ano, mas voltando, tirei a tala um dia antes de o
"mandado".
Sei do que uma coceira pode causar nesses casos, então tratei
de colocar meu pé no chuveiro da minha mãe, que é um chuveiro
desses de massagem e fiquei recebendo cargas e cargas de água
pesada no pé, não coçando nada e me salvando.
Beleza? Nada.
Fui ver meus dedos e o dedinho estava pra lá de gigante, com a
sutil aparência de um osso saindo na base, e a aparência só é
derrotada pelo toque para literalmente sentir que o osso está
realmente ali, e você acha que isso é tudo? Hahaha.
A bandagem feita pelo idiota do médico não foi feita com
assepsia correta, isso me desenvolveu um fungo e bactérias nos
dedos que ficaram enfaixados, meus dedos não dobravam e doíam
mais do que o deslocado, tadinho, parece que ficaram com
ciúmes e fizeram uma greve de dor: "vamos todos sentir mais
dor, porque esse nanico chorou muito por pouco..."
Enfim, estou tomando há 2 semanas anti- tudo.
Anti-inflamatório, anti-biótico, anti-estaminico.
E, como desgraça de pobre vem sempre com brinde, para
terminar, estou entrando na geração de veículos movidos a
energia.
POIS NÃO POSSO TOMAR UMA GOTA DE ÁLCOOL SEQUER."
A essa altura do campeonato eu já estava sentido dor, de tanto
rir, com ele me contando isso como se fosse a coisa mais
normal do mundo.
Eu não pude deixar de perguntar por que ele faz isso, foi
quando ele me falou que já passou por coisa pior em outra
partida de futebol.
Futebol para ele, pois para quem estava do lado de fora e para
quem ouve ele contar parece mais uma disputa de luta livre.
Ele incrivelmente me narrou a partida:
"Uma vez quebrei o pé, torci braço e ainda quase quebrei o
nariz em uma partida de futebol.
Essa foi uma das vezes que subiu minhas estatísticas de
plantões para gesso!!!
Era um campeonato de futebol entre bairros, super-cotado,
FUTEBAIRROS.
Tinha reportagem jornalística e tudo, eu jogava de zagueiro,
não por opção, até porque sou muito bom jogador em outras
posições, mas na época não tinha ninguém para executar uma
defesa de time como eu, tinha até o nome de highlander, com
razões.
O jogo começou e o time era formado por amigos do mesmo
prédio, tinha bolinha, tinha magrelo, tinha uma coleção de
figurinhas, parecia filme da Disney e eu não era exceção.
Magriecelinho, com cabelo cumprido e barba rala de
adolescente, sente o drama.
Inicia-se o jogo e a pinta dos outros, dos adversários, era
igual o filme do pernalonga no basquete, SPACE JAM.
Era hilário, se fosse comparar, podia vir até com uma notícia
do tipo "espirro derruba adversário".
Nosso time jogava bem, mesmo com essas figuras cômicas e o
time adversário nem tanto, mas já viu o "dono da bola" aceitar
perder?
Mal fizemos um gol e parece que mudou o esporte, deixou de ser
futebol para se tornar futebol americano, cada disputa de bola
com o adversário eu via um jogador do meu time tentar alcançar
vôo, ou ao menos um salto em distância, por que com certeza os
2 pés saiam do chão.
Parecíamos milho de pipoca em panela fervendo.
Só sei que mesmo assim, quando eles chegavam para tentar o
gol, precisavam passar por mim.
Em uma maldita disputa pela lateral, onde um outro da nossa
defesa não conseguiu impedir o adversário de roubar a bola,
fez-se aquela cena de todo mundo chuta, mas ninguém acerta a
bola, a intenção não era a bola.
Eram 4 chutando pra qualquer lado, como se tentando tirar uma
granada do pé.
A zaga tentando chutar pra longe, os atacantes tentando chutar
pra dentro da área e a bola, não sei por que, namorando aquele
pequeno círculo central da grande área.
Parece que rolou algum sentimento naquele momento entre a
grama e a bola.
Eis que eu, muito sapiente e bondoso, para não acertar ninguém
com a minha sutil cavalice, me inclinei apoiando minha mão na
grama para alcançar um ângulo de chute, sem acertar as pernas
de gazelas que voavam para todos os lados.
Chutei como se ela fosse minha própria irmã, que na época eu
amava de paixão e com toda a força possível, como se estivesse
imaginando arrancar a cabeça do pescoço mesmo.
Enfim, resolvido o problema, bola pra longe sem falta, perigo
eliminado.
Eliminado?
Só sei que na minha sutil inclinação para não acertar ninguém,
alguém veio pra me acertar e pisou no meu braço, desloquei meu
radio e não foi o fm/am, foi o osso mesmo, e doeu.
O juiz, se é que estava presente, continuou o jogo e eu, como
bom guerreiro, não permiti substituição.
"Sai, Bruno, tu está machucado... como vai jogar assim?"
- "E eu por acaso uso a mão pra chutar a bola???"
Segui eu, como bom guerreiro numa batalha, em campo até o
último suspiro de vida, o adversário crendo ter retirado um
zagueiro do time, hahaha rimos deles, mas só até o segundo
tempo.
O fato é que o time estava exausto de tanto ter que disputar
na porrada contra paredões, já no segundo tempo, depois de
alguns minutos de roubo, pois o juiz não vestia o mesmo
uniforme, mas tenho quase certeza de que ele era pai de um dos
jogadores do outro time porque PQP, vai apitar mal assim a
favor do Brasil!!! Por que estamos precisando, né?
Eles roubaram uma bola na área deles e vieram novamente pela
lateral.
Passaram por um, 2, 3, 4.
Trem sem freio, a locomotiva tava vindo incessante e sem medo,
o cara colou a bola no pé e decidiu só largar quando estivesse
dentro do gol, do nosso claro e se conseguisse ainda com o
goleiro, para dar algum gostinho
Por que a cara dele também era de capeta, se bem que, o
demônio ainda deve ter um pouquinho de beleza perto dele.
Quando eu vi que eu seria o único a pará-lo, lá fui eu, bom
lutador, resolver mais uma vez o problema.
Mas também, inocente, não fui para machucar, não sou
vingativo, maldita infância, dei um carrinho na direção dele,
mas para pará-lo apenas na bola.
Meu carrinho foi com certa distância, demonstrando claramente
minha intenção de parar a jogada e de não acertar ninguém, a
não ser a bola, que já estava rompendo relações com a minha
área, acho que tinham brigado depois que eu isolei ela longe.
Meu carrinho foi legítimo e lindo, travei a bola, pés juntos,
o cara, claro, com bastante carinho também, chutou meu pé, meu
pé mesmo, deu pra ver o prazer dele em acertar meu pé.
Meu pé virou, só não deu uma volta por que o chão deu barreira
e se não estivesse preso era capaz de ir direto no gol, e
pior, o juiz ia acabar marcando gol.
Enfim, deu merda, mas acha que foi só isso? Não.
Ele ainda passou a trava da chuteira na minha cara e se não
fosse a nareba, me acertava olho, boca, rosto inteiro, acho
que ele lamentou.
Lamentou não ter acertado um chute na minha cabeça também.
Enfim, meu pé me tirou do jogo, segurar o braço enquanto
jogava ainda dava.
Parecia um mongol segurando o braço no peito e correndo atrás
da bola, mas correr mancando ia ficar difícil, me
substituíram, faltava pouco, uns 20 minutos, mas foi o
suficiente, me tiraram de campo e tomamos 5 gols.
Eu não conseguia mais parar de rir depois disso, não pude me
conter e guardar essa historia só para mim e ainda continuo me
perguntando, apesar dele ter me convencido de que ele volta a
jogar pelo prazer da conquista, se vale a pena ter o gesso
como troféu.
Michele Guimarães Barbosa
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