A casa dos grandes pensadores
 
 

MICHELE GUIMARÃES BARBOSA

 

Meu troféu é o gesso.

Eu me pergunto às vezes porque será que os homens insistem em jogar futebol, a peladinha de domingo como eles chamam.
Eu estava conversando com um amigo, despretensiosamente, fazendo aquelas perguntas de sempre, como vai?, Esta sumido?
Foi quando ele me narrou a conseqüência da sua última partida de futebol.
A conversa começou assim:
- Oi tudo bem?
- Tudo bem.
- Quanto tempo.
- Nem fala
- E ai, o que tem feito de bom?
- Tenho ficado sentado, deitado ou trabalhando...nada.
- Credo.
- To em recuperação do meu dedo mindinho.
Foi nesse momento que ele começou a narrar a odisséia dele. Foi a narrativa médica mais engraçada que eu já ouvi na vida.

"Depois de inúmeros trabalhos insanos, consegui um fim de semana liberado, fui jogar minha pelada sagrada de domingo, que já não jogava há quase um mês, praia gostosa, tempo maravilhoso, 10 minutos de jogo e eis que o adversário chuta a bola que eu roubei dele, mas junto chuta também meu pé, claro que nisso ele acertou meu dedo mindinho e o tirou do lugar.
Fui no médico e ele tirou raio-x, colocou no lugar, tirou outro raio-x e colocou no lugar novamente, uma vez só para me fazer gritar deve ter sido pouco, acho que ele gostou do meu grito de dor.
Deve ter dado algum tipo de prazer a ele, ou ele devia estar gostando de chamar alguma atenção, tanto que ele precisou de um segundo médico para ajudar, um segurou meu pé, outro segurou meu dedo e um terceiro ficou olhando, e com certeza este terceiro devia estar se mijando de rir por dentro.
Eu, numa maca gelada, sem cerveja, com o corpo já frio, pois demorei para resolver tudo e o calor da dor já fazia efeito, mesmo sem eles tentarem arrancar meu dedo a puxões.
Só sei que na última tentativa, puxaram o dedo com força bruta e seguraram para que ele não fugisse, sabe, pois ele ia aproveitar a deixa e sair correndo do meu pé.
Então, veio o 3º raio-x, ops, quarto... o 2º não tinha ficado bom.
O legal foi dar uma de saci por quase uma hora nesse vai e volta.
Acho que fiz uma boa ginástica de saci, fiquei com coxa de Roberto Carlos numa perna e Gisele Bunchen na outra.
Não acabou aí, acostumado com essas lesões no pé, tranquilamente tratei de descansar o pé semi-imobilizado, pois deslocado não se engessa e mesmo se engessasse, eu tiraria em 2 dias, seria um para realmente dar uma tentativa de cura e outro para suar e me irritar de vez e tirar o gesso.
Mas foi apenas uma tala, tranqüilo, não tirei, tomei os remédios direitinho, não pisei, descansei mais do que provavelmente a porcentagem que possam registrar em pesquisa de pessoas que fiquem engessadas e fiquem paradas, enfim, no penúltimo dia deu uma coceira ABSURDA, que nunca senti em nenhuma das minhas imobilizações.
E por "minhas imobilizações", entenda ao menos 1 por ano, desde 1994, não é exagero, a média deve realmente passar de uma por ano, mas voltando, tirei a tala um dia antes de o "mandado".
Sei do que uma coceira pode causar nesses casos, então tratei de colocar meu pé no chuveiro da minha mãe, que é um chuveiro desses de massagem e fiquei recebendo cargas e cargas de água pesada no pé, não coçando nada e me salvando.
Beleza? Nada.
Fui ver meus dedos e o dedinho estava pra lá de gigante, com a sutil aparência de um osso saindo na base, e a aparência só é derrotada pelo toque para literalmente sentir que o osso está realmente ali, e você acha que isso é tudo? Hahaha.
A bandagem feita pelo idiota do médico não foi feita com assepsia correta, isso me desenvolveu um fungo e bactérias nos dedos que ficaram enfaixados, meus dedos não dobravam e doíam mais do que o deslocado, tadinho, parece que ficaram com ciúmes e fizeram uma greve de dor: "vamos todos sentir mais dor, porque esse nanico chorou muito por pouco..."
Enfim, estou tomando há 2 semanas anti- tudo.
Anti-inflamatório, anti-biótico, anti-estaminico.
E, como desgraça de pobre vem sempre com brinde, para terminar, estou entrando na geração de veículos movidos a energia.
POIS NÃO POSSO TOMAR UMA GOTA DE ÁLCOOL SEQUER."

A essa altura do campeonato eu já estava sentido dor, de tanto rir, com ele me contando isso como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Eu não pude deixar de perguntar por que ele faz isso, foi quando ele me falou que já passou por coisa pior em outra partida de futebol.
Futebol para ele, pois para quem estava do lado de fora e para quem ouve ele contar parece mais uma disputa de luta livre.
Ele incrivelmente me narrou a partida:

"Uma vez quebrei o pé, torci braço e ainda quase quebrei o nariz em uma partida de futebol.
Essa foi uma das vezes que subiu minhas estatísticas de plantões para gesso!!!
Era um campeonato de futebol entre bairros, super-cotado, FUTEBAIRROS.
Tinha reportagem jornalística e tudo, eu jogava de zagueiro, não por opção, até porque sou muito bom jogador em outras posições, mas na época não tinha ninguém para executar uma defesa de time como eu, tinha até o nome de highlander, com razões.
O jogo começou e o time era formado por amigos do mesmo prédio, tinha bolinha, tinha magrelo, tinha uma coleção de figurinhas, parecia filme da Disney e eu não era exceção.
Magriecelinho, com cabelo cumprido e barba rala de adolescente, sente o drama.
Inicia-se o jogo e a pinta dos outros, dos adversários, era igual o filme do pernalonga no basquete, SPACE JAM.
Era hilário, se fosse comparar, podia vir até com uma notícia do tipo "espirro derruba adversário".
Nosso time jogava bem, mesmo com essas figuras cômicas e o time adversário nem tanto, mas já viu o "dono da bola" aceitar perder?
Mal fizemos um gol e parece que mudou o esporte, deixou de ser futebol para se tornar futebol americano, cada disputa de bola com o adversário eu via um jogador do meu time tentar alcançar vôo, ou ao menos um salto em distância, por que com certeza os 2 pés saiam do chão.
Parecíamos milho de pipoca em panela fervendo.
Só sei que mesmo assim, quando eles chegavam para tentar o gol, precisavam passar por mim.
Em uma maldita disputa pela lateral, onde um outro da nossa defesa não conseguiu impedir o adversário de roubar a bola, fez-se aquela cena de todo mundo chuta, mas ninguém acerta a bola, a intenção não era a bola.
Eram 4 chutando pra qualquer lado, como se tentando tirar uma granada do pé.
A zaga tentando chutar pra longe, os atacantes tentando chutar pra dentro da área e a bola, não sei por que, namorando aquele pequeno círculo central da grande área.
Parece que rolou algum sentimento naquele momento entre a grama e a bola.
Eis que eu, muito sapiente e bondoso, para não acertar ninguém com a minha sutil cavalice, me inclinei apoiando minha mão na grama para alcançar um ângulo de chute, sem acertar as pernas de gazelas que voavam para todos os lados.
Chutei como se ela fosse minha própria irmã, que na época eu amava de paixão e com toda a força possível, como se estivesse imaginando arrancar a cabeça do pescoço mesmo.
Enfim, resolvido o problema, bola pra longe sem falta, perigo eliminado.
Eliminado?
Só sei que na minha sutil inclinação para não acertar ninguém, alguém veio pra me acertar e pisou no meu braço, desloquei meu radio e não foi o fm/am, foi o osso mesmo, e doeu.
O juiz, se é que estava presente, continuou o jogo e eu, como bom guerreiro, não permiti substituição.
"Sai, Bruno, tu está machucado... como vai jogar assim?"
- "E eu por acaso uso a mão pra chutar a bola???"
Segui eu, como bom guerreiro numa batalha, em campo até o último suspiro de vida, o adversário crendo ter retirado um zagueiro do time, hahaha rimos deles, mas só até o segundo tempo.
O fato é que o time estava exausto de tanto ter que disputar na porrada contra paredões, já no segundo tempo, depois de alguns minutos de roubo, pois o juiz não vestia o mesmo uniforme, mas tenho quase certeza de que ele era pai de um dos jogadores do outro time porque PQP, vai apitar mal assim a favor do Brasil!!! Por que estamos precisando, né?
Eles roubaram uma bola na área deles e vieram novamente pela lateral.
Passaram por um, 2, 3, 4.
Trem sem freio, a locomotiva tava vindo incessante e sem medo, o cara colou a bola no pé e decidiu só largar quando estivesse dentro do gol, do nosso claro e se conseguisse ainda com o goleiro, para dar algum gostinho
Por que a cara dele também era de capeta, se bem que, o demônio ainda deve ter um pouquinho de beleza perto dele.
Quando eu vi que eu seria o único a pará-lo, lá fui eu, bom lutador, resolver mais uma vez o problema.
Mas também, inocente, não fui para machucar, não sou vingativo, maldita infância, dei um carrinho na direção dele, mas para pará-lo apenas na bola.
Meu carrinho foi com certa distância, demonstrando claramente minha intenção de parar a jogada e de não acertar ninguém, a não ser a bola, que já estava rompendo relações com a minha área, acho que tinham brigado depois que eu isolei ela longe.
Meu carrinho foi legítimo e lindo, travei a bola, pés juntos, o cara, claro, com bastante carinho também, chutou meu pé, meu pé mesmo, deu pra ver o prazer dele em acertar meu pé.
Meu pé virou, só não deu uma volta por que o chão deu barreira e se não estivesse preso era capaz de ir direto no gol, e pior, o juiz ia acabar marcando gol.
Enfim, deu merda, mas acha que foi só isso? Não.
Ele ainda passou a trava da chuteira na minha cara e se não fosse a nareba, me acertava olho, boca, rosto inteiro, acho que ele lamentou.
Lamentou não ter acertado um chute na minha cabeça também.
Enfim, meu pé me tirou do jogo, segurar o braço enquanto jogava ainda dava.
Parecia um mongol segurando o braço no peito e correndo atrás da bola, mas correr mancando ia ficar difícil, me substituíram, faltava pouco, uns 20 minutos, mas foi o suficiente, me tiraram de campo e tomamos 5 gols.

Eu não conseguia mais parar de rir depois disso, não pude me conter e guardar essa historia só para mim e ainda continuo me perguntando, apesar dele ter me convencido de que ele volta a jogar pelo prazer da conquista, se vale a pena ter o gesso como troféu.

Michele Guimarães Barbosa
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  02/07/2008