PanificAdão
A
cidade era pequena, chamava-se Panificanópolis,
a imponência do nome delatava a principal
atividade econômica dos habitantes. Adão era
padeiro experiente, viera para Panifica, como
carinhosamente era chamada, com seus pais, um
dos primeiros casais de imigrantes a fundar o
local. Adão criara-se entre fermentos e
farinhas, sentia-se constituído pela massa fofa
do pão, seu combustível para a labuta era o
perfume de padaria logo à matinê. Movia-se em
sintonia com a máquina de criar massas, de moer
trigo, máquina de criar sonhos...
Mas o primeiro homem designado a
produzir pães pagara um preço muito alto pela
sua PanificAdão. No início da empreitada, fizera
um pacto com o Cobrador de Impostos do vilarejo,
sr. Dionísio, que lhe prometera jamais bater à
porta com carnês ou bloquetos de impostos sob a
condição de Adão nunca se atrever a fabricar
qualquer tipo de massa com recheio de goiaba. O
padeiro não devia jamais cair na tentação de
queijos, ricotas, pastéis ou folheados
repletados por fruto de goiabeira. Então, sr.
Dionísio fazia visitas à padaria com o intento
de inspecioná-la e de rememorar o cumprimento do
trato. Mas, com o passar do tempo, foi falhando
suas idas, pois ia adquirindo confiança em
Adão.
Dionísio sabia que Tia Dalva, famosa
confeiteira, andava cercando a ruela com sua
cesta que exalava um aroma de goiaba tal... a
ponto de deixá-lo impregnado nos bancos da praça
e luminárias, podendo ser, inclusive, inalado
pelas janelas da panificadora.
Tia Dalva vestia um avental repleto de
goiabas rosadas, pintadas e bordadas a mão,
salientes ao toque. Dalva era a fruta madura em
pessoa que encantava as redondezas, que saía de
casa como se caísse suavemente da goiabeira e
fosse borboleteando pelas esquinas. Alva como
seu nome, existia densamente, tal como uma polpa
aromática, branca e rósea, que se embecava e se
embebia dessa existência para ser oferecida em
compota.
Eva era operadora de caixa da
Panificadora e esposa fiel de Adão, mulher que
pensava nos lucros e sonhava em adquirir maior
número de bens para sua rica empresa. Procurava
sempre inovar os doces, salgados, experimentar
outros sabores e delícias que pudessem
conquistar a clientela.
A confeiteira Dalva, ao visitar a
padaria, oferecia os quitutes dos quais era
constituída, pondo-os diante do vidro do caixa.
Eva achegava o nariz à fresta de passar e
receber dinheiro e, a cada aproximação, mais
ficava hipnotizada. Sempre conseguia recusar,
pois à sua memória vinham as palavras do
Cobrador: "Nunca comam nem ofereçam dessa fruta
nesta empresa, caso contrário cobrarei todos os
impostos em vigor, o que lhes trará não só
problemas em sanar as dívidas, mas se estenderá
a toda Panificanópolis".
Foi numa manhã ensolarada que Tia Dalva
saiu de casa decidida em seduzir a ambiciosa Eva
com pastéis recém-saídos do forno, cada qual
mais incrementado de goiabada que o outro. Ao
entrar no recinto, o sol ofuscou seus olhos,
então piscou insistentemente para recobrar a
visão. Fixou-se nos olhos de Eva e, como num
ritual, apoiou novamente a cesta em cima do
balcão, em frente ao vidro que a separava da
máquina de dinheiro, seu principal alvo. Eva
sentia-se atraída pelo cheiro que fluía e que,
de repente, tomava conta de sua aura, sua
razão... enquanto a mão de Dalva oferecia
docilmente a goiaba proibida. Num ímpeto, a
esposa do padeiro lasca o doce e o morde com
veemência, saboreando, mastigando, adormecendo
e, finalmente, caindo em sono profundo. Nesse
ínterim, é que Dalva pulou o vidro, invadindo a
caixa registradora, espalhando doce de goiaba
quente sobre as violetas, a foto do casal, o
chaveiro de pelúcia e a marmita ainda quentinha,
levando consigo todo o dinheiro arrecadado no
mês.
Adão estava fora, tinha ido visitar
Dionísio no Bairro Celeste a fim de prestar
contas sobre as frutas compradas na última leva,
afinal já não era preciso que Santo Homem se
deslocasse até o centro de Panifica para
fiscalizar coisa dessas. Pobre velho, merecia
consideração...
A cidade acordou tomada
de goiaba pela terra, pelo mar, pelo ar. Os
habitantes adoeciam mais a cada hora em função
dos enjôos. O mal fora atribuído ao gênero
feminino para todo o sempre. Em Panifica, não se
constroem mais padarias, nem se alimentam mais
sonhos. O pacto feito no passado por dois homens
ganhou prestígio, dando à sedução feminina o
estigma do pecado.