A casa dos grandes pensadores
 
 
 
 

MICHELLE SANTOS JEFFMAN

 

 

 

PanificAdão

A cidade era pequena, chamava-se Panificanópolis, a imponência do nome delatava a principal atividade econômica dos habitantes. Adão era padeiro experiente, viera para Panifica, como carinhosamente era chamada, com seus pais, um dos primeiros casais de imigrantes a fundar o local. Adão criara-se entre fermentos e farinhas, sentia-se constituído pela massa fofa do pão, seu combustível para a labuta era o perfume de padaria logo à matinê. Movia-se em sintonia com a máquina de criar massas, de moer trigo, máquina de criar sonhos...

        Mas o primeiro homem designado a produzir pães pagara um preço muito alto pela sua PanificAdão. No início da empreitada, fizera um pacto com o Cobrador de Impostos do vilarejo, sr. Dionísio, que lhe prometera jamais bater à porta com carnês ou bloquetos de impostos sob a condição de Adão nunca se atrever a fabricar qualquer tipo de massa com recheio de goiaba. O padeiro não devia jamais cair na tentação de queijos, ricotas, pastéis ou folheados repletados por fruto de goiabeira. Então, sr. Dionísio fazia visitas à padaria com o intento de inspecioná-la e de rememorar o cumprimento do trato. Mas, com o passar do tempo, foi falhando suas idas, pois ia adquirindo  confiança em Adão.

        Dionísio sabia que Tia Dalva, famosa confeiteira, andava cercando a ruela com sua cesta que exalava um aroma de goiaba tal... a ponto de deixá-lo impregnado nos bancos da praça e luminárias, podendo ser, inclusive, inalado pelas janelas da panificadora.

        Tia Dalva vestia um avental repleto de goiabas rosadas, pintadas e bordadas a mão, salientes ao toque. Dalva era a fruta madura em pessoa que encantava as redondezas, que saía de casa como se caísse suavemente da goiabeira e fosse borboleteando pelas esquinas. Alva como seu nome, existia densamente, tal como uma polpa aromática, branca e rósea, que se embecava e se embebia dessa existência para ser oferecida em compota.

        Eva era operadora de caixa da Panificadora e esposa fiel de Adão, mulher que pensava nos lucros e sonhava em adquirir maior número de bens para sua rica empresa. Procurava sempre inovar os doces, salgados, experimentar outros sabores e delícias que pudessem conquistar a clientela.

        A confeiteira Dalva, ao visitar a padaria, oferecia os quitutes dos quais era constituída, pondo-os diante do vidro do caixa. Eva achegava o nariz à fresta de passar e receber dinheiro e, a cada aproximação, mais ficava hipnotizada. Sempre conseguia recusar, pois à sua memória vinham as palavras do Cobrador: "Nunca comam nem ofereçam dessa fruta nesta empresa, caso contrário cobrarei todos os impostos em vigor, o que lhes trará não só problemas em sanar as dívidas, mas se estenderá a toda Panificanópolis".

        Foi numa manhã ensolarada que Tia Dalva saiu de casa decidida em seduzir a ambiciosa Eva com pastéis recém-saídos do forno, cada qual mais incrementado de goiabada que o outro. Ao entrar no recinto, o sol ofuscou seus olhos, então piscou insistentemente para recobrar a visão. Fixou-se nos olhos de Eva e, como num ritual, apoiou novamente a cesta em cima do balcão, em frente ao vidro que a separava da máquina de dinheiro, seu principal alvo. Eva sentia-se atraída pelo cheiro que fluía e que, de repente, tomava conta de sua aura, sua razão... enquanto a mão de Dalva oferecia docilmente a goiaba proibida. Num ímpeto, a esposa do padeiro lasca o doce e o morde com veemência, saboreando, mastigando, adormecendo e, finalmente, caindo em sono profundo. Nesse ínterim, é que Dalva pulou o vidro, invadindo a caixa registradora, espalhando doce de goiaba quente sobre as violetas, a foto do casal, o chaveiro de pelúcia e a marmita ainda quentinha, levando consigo todo o dinheiro arrecadado no mês.

        Adão estava fora, tinha ido visitar Dionísio no Bairro Celeste a fim de prestar contas sobre as frutas compradas na última leva, afinal já não era preciso que Santo Homem se deslocasse até o centro de Panifica para fiscalizar coisa dessas. Pobre velho, merecia consideração...

        A cidade acordou tomada de goiaba pela terra, pelo mar, pelo ar. Os habitantes adoeciam mais a cada hora em função dos enjôos. O mal fora atribuído ao gênero feminino para todo o sempre. Em Panifica, não se constroem mais padarias, nem se alimentam mais sonhos. O pacto feito no passado por dois homens ganhou prestígio, dando à sedução feminina o estigma do pecado.

Michelle Santos Jeffman

Publicação: www.paralerepensar.com.brr 13/06/2006