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O sonho
de uma carroça
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O
matuto pega a trilha lamacenta, espreita a vaca mocha passar,
no mesmo horário de sempre: cinco e meia da manhã. É bom sair
logo cedo para não torrar no sol que nasce logo em seguida à
matinê, avassalador. O caboclo vai em busca de água, é um
longo percurso até chegar à fonte. O caminho de barro pincela
poças e relevos, nele o matuto brinca de amarelinha,
equilibrando-se ao pisar nos pontos secos de chão.
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Sempre sonhou em ter
uma carroça, pois o petiço já cambaleava, mal podia com seu
próprio peso. A ida, de baldes vazios, até suportava, mas a
volta..., às vezes colocava-se no lugar do animal e, para
aliviar sua dor, decidia por carregar um balde d’água no
regresso.
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Já tentara construir
duas carroças, de fato as construíra. Porém, como a madeira
disponível apodrecia rapidamente, tudo desmoronava e a água,
buscada a tanto custo, derruía-se toda. Na expressão do petiço
havia mesmo um olhar de desânimo, só faltava verbalizar ao seu
guia: deixe-me parar. Então se assentavam, nesses dias,
voltavam com pouca água e o matuto carregava os baldes.
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A vaca mocha não lhe
pertencia, apenas desfilava todas as manhãs com sua gordura e
pêlo brilhantes. Danado do bicho tinha mais saúde que o
matuto, pêlo mais macio e tratado que seu bigode! Tinha
vontade é de carnear a apetitosa vaca, assim trataria sua
desnutrição e aposentaria o “ginete”... mal sabia o matuto que
ginete é cavalo adestrado.
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É uma
cinzenta manhã, homem e animal saem, o matuto se entretém com
as poças mais à frente. O cavalo, por não conter o peso,
tropeça e cai, espatifando-se na lama. O caboclo sente um
aperto no peito, vira-se, corre até o animal e se debruça
sobre seu corpo à procura de alguma pulsação.
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Cinco e meia. A
vaca. Vem rebolando a passos pesados. De repente pára
estarrecida, deitando-se junto aos dois, num ímpeto começa a
cheirar o petiço e lamber suas feridas.
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Vem descendo do
horizonte, rompante, o proprietário da mocha, é transportado
por uma carroça trabalhada e maciça. A vaca, num ato humilde,
submete-se ao seu enlaço, mugindo pelos coitados que ali
deixaria.
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O fazendeiro desce,
põe a mão sobre o ombro do matuto e o tranqüiliza:
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— O socorro está a
caminho, há de salvar seu cavalo.
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Fita demoradamente a
vaquinha, logo após a carroça.. e anuncia:
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— São suas, faça bom
proveito!
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E o matuto, não
contendo a emoção, desata num choro contido.
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Conta a lenda que
foi a vaca quem curou o petiço.
Michelle Santos Jeffman
Publicação:
www.paralerepensar.com.brr
28/06/2006

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