A casa dos grandes pensadores
 
 
 
 

MICHELLE SANTOS JEFFMAN

 

 

 

O sonho de uma carroça
 
O matuto pega a trilha lamacenta, espreita a vaca mocha passar, no mesmo horário de sempre: cinco e meia da manhã. É bom sair logo cedo para não torrar no sol que nasce logo em seguida à matinê, avassalador. O caboclo vai em busca de água, é um longo percurso até chegar à fonte. O caminho de barro pincela poças e relevos, nele o matuto brinca de amarelinha, equilibrando-se ao pisar nos pontos secos de chão.
        Sempre sonhou em ter uma carroça, pois o petiço já cambaleava, mal podia com seu próprio peso. A ida, de baldes vazios, até suportava, mas a volta..., às vezes colocava-se no lugar do animal e, para aliviar sua dor, decidia por carregar um balde d’água no regresso.
        Já tentara construir duas carroças, de fato as construíra. Porém, como a madeira disponível apodrecia rapidamente, tudo desmoronava e a água, buscada a tanto custo, derruía-se toda. Na expressão do petiço havia mesmo um olhar de desânimo, só faltava verbalizar ao seu guia: deixe-me parar. Então se assentavam, nesses dias, voltavam com pouca água e o matuto carregava os baldes.
        A vaca mocha não lhe pertencia, apenas desfilava todas as manhãs com sua gordura e pêlo brilhantes. Danado do bicho tinha mais saúde que o matuto, pêlo mais macio e tratado que seu bigode! Tinha vontade é de carnear a apetitosa vaca, assim trataria sua desnutrição e aposentaria o “ginete”... mal sabia o matuto que ginete é cavalo adestrado.      
É uma cinzenta manhã, homem e animal saem, o matuto se entretém com as poças mais à frente. O cavalo, por não conter o peso, tropeça e cai, espatifando-se na lama. O caboclo sente um aperto no peito, vira-se, corre até o animal e se debruça sobre seu corpo à procura de alguma pulsação.
        Cinco e meia. A vaca. Vem rebolando a passos pesados. De repente pára estarrecida, deitando-se junto aos dois, num ímpeto começa a cheirar o petiço e lamber suas feridas.
        Vem descendo do horizonte, rompante, o proprietário da mocha, é transportado por uma carroça trabalhada e maciça. A vaca, num ato humilde, submete-se ao seu enlaço, mugindo pelos coitados que ali deixaria.
        O fazendeiro desce, põe a mão sobre o ombro do matuto e o tranqüiliza:
        — O socorro está a  caminho, há de salvar seu cavalo.
        Fita demoradamente a vaquinha, logo após a carroça.. e anuncia:
        — São suas, faça bom proveito!
        E o matuto, não contendo a emoção, desata num choro contido.
        Conta a lenda que foi a vaca quem curou o petiço.

Michelle Santos Jeffman

Publicação: www.paralerepensar.com.brr 28/06/2006