A casa dos grandes pensadores
 
 
 
 

MICHELLE SANTOS JEFFMAN

 

 

 

Um trabalhador
 

Um trabalhador cansado do trago, tragado pelo tempo, chega em casa, decidido em dar carinho à sua mulher, em fazer diferente desta vez. No fundo, tem medo de que um dia ela canse, pois sente-se um traste de feio: o rosto magro, envelhecido, cabelo ralo, em parte calvo... além do cheiro de suor que se impregna em seu corpo. Tem repulsa a si mesmo, o que dirá ela...

A mulher, diante do espelho, percebe suas mãos ásperas e calejadas. Logo acima, na altura da face, observa atentamente o desenho dos dentes, estão bem cuidados. Abandona seu reflexo e atravessa a sala de chão batido. Ajoelhada ante o pequeno altar, reza à santinha de sua devoção para que guie seus filhos pelos caminhos da vida, que os conserve no estudo e não tenham um fim triste como o dela, amém.
Seu marido é trabalhador de indústria, tem espírito de máquina com trava enguiçada movida à caipira. O coração é de pedra, foi regelado pela ignorância. Está bem que nunca se intimidou com a labuta, mas, afinal, homem que é homem deve fazer o serviço pesado, deve impor respeito e dar a última palavra... a última bofetada. Todos os dias, ele sai da favela e atravessa a cidade pra ganhar miséria. E de miséria em miséria enche a cara dos seus dias, enche a cara de seus filhos.
A mulher racha as mãos no tanque de tanto esfregar punhos, sentindo a água gélida percorrendo seus pulsos, como que os cortando. A essas horas, pensa, tomara que o marido já não tenha gasto no boteco o dinheiro do pão.
A manchete do jornal anuncia que, em uma semana, os operários da Fábrica serão demitidos em massa ... Então ele poderá afogar-se junto com o último tostão na bebedeira. Depois espancá-la. Isso não! Santinha, devoção!
O trabalhador força a chave com o trejeito costumeiro e abre sorrateiramente a porta.

Michelle Santos Jeffman

Publicação: www.paralerepensar.com.brr 05/06/2006