Um trabalhador cansado do trago, tragado pelo tempo,
chega em casa, decidido em dar carinho à sua mulher,
em fazer diferente desta vez. No fundo, tem medo de
que um dia ela canse, pois sente-se um traste de
feio: o rosto magro, envelhecido, cabelo ralo, em
parte calvo... além do cheiro de suor que se
impregna em seu corpo. Tem repulsa a si mesmo, o que
dirá ela...
A mulher, diante do espelho,
percebe suas mãos ásperas e calejadas. Logo acima,
na altura da face, observa atentamente o desenho dos
dentes, estão bem cuidados. Abandona seu reflexo e
atravessa a sala de chão batido. Ajoelhada ante o
pequeno altar, reza à santinha de sua devoção para
que guie seus filhos pelos caminhos da vida, que os
conserve no estudo e não tenham um fim triste como o
dela, amém.
Seu marido é trabalhador de
indústria, tem espírito de máquina com trava
enguiçada movida à caipira. O coração é de pedra,
foi regelado pela ignorância. Está bem que nunca se
intimidou com a labuta, mas, afinal, homem que é
homem deve fazer o serviço pesado, deve impor
respeito e dar a última palavra... a última
bofetada. Todos os dias, ele sai da favela e
atravessa a cidade pra ganhar miséria. E de miséria
em miséria enche a cara dos seus dias, enche a cara
de seus filhos.
A mulher racha as mãos no
tanque de tanto esfregar punhos, sentindo a água
gélida percorrendo seus pulsos, como que os
cortando. A essas horas, pensa, tomara que o marido
já não tenha gasto no boteco o dinheiro do pão.
A manchete do jornal anuncia
que, em uma semana, os operários da Fábrica serão
demitidos em massa ... Então ele poderá afogar-se
junto com o último tostão na bebedeira. Depois
espancá-la. Isso não! Santinha, devoção!