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- BODAS DE PRATA
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- Naquele dia acordei mais animada.
Até mesmo feliz. Vinte e cinco anos de casada!.. Mesmo para quem
havia sofrido a vida inteira, aquela pontinha de felicidade foi
muito significativa e imprescindível para mim.
Com aquela ponta de felicidade encharcando meu coração tive até
vontade de fazer uma surpresa para o Juca, meu marido. Faria um
jantarzinho simples e convidaria os vizinhos para comemorarmos
uma data, que se não foi de muito amor, foi de vida em comum.
Sentei-me à beira do fogão de lenha, e me pus a pensar no que
faria para o jantar. Fiquei um bom tempo pensando, pensando, e
como nenhuma idéia me ocorria, levantei-me. "Vou corrê as casa e
convidá o pessoar. Quando vortá escolho o que fazê."
A alegria foi geral. Fazia tempo que ninguém comemorava nada
naquela pequena roça, fim de mundo, cuja existência só Deus
sabia.
Voltei para casa cantarolando, e no caminho passei na venda do
seu Ernesto, para comprar alguns ingredientes para o jantar.
- A sinhora tá feliz hoje, D. Rosinha, o que foi? Por que tá
comprano essas coisa? Pra que tudo isso?
- Ara, seu Ernesto, vai tê festa lá em casa. Vinte e cinco anos
de casada. O sinhô e D. Santinha tão convidado.
- Mas o Juca num gosta de festa!...
- Ah, hoje ele vai gostá, o sinhô vai vê. E é surpresa. Num
quero qui ele fica sabeno.
- Pode ficá sussegada.
Feliz da vida por estar fazendo minha primeira festa, coloquei
tudo na panela. Depois de cozido era só temperar, quase na hora
de o Juca chegar, colocar à mesa e fazer aquela surpresa! "Como
esse guloso vai gostá dessa festa! Jamais teve uma!.."
Seis horas da tarde. Tudo no ponto. Corri ao galpão onde havia
uma mesa bastante remendada, na qual Juca trabalhava fazendo
suas redes pra vender aos pescadores. Varri, limpei, espanei. Um
brinco, tinha certeza que ele gostaria!
Usando toalha nova, emprestada por uma comadre, estendi-a sobre
a mesa. Colhi flores do nosso jardinzinho, coloquei-as num vaso
de barro e enfeitei a mesa. O Juca, sempre de cara fechada pra
todo mundo, ficaria feliz, pelo menos, naquele dia.
Preparei os pratos, garfos e copos, tudo muito tosco. Peguei
aquele garrafão de vinho tinto que havia ganhado numa rifa.
Estava guardado, justamente, para aquele dia importante: nossas
bodas de prata.
Fui tomar banho. Queria esperar meus convidados, arrumadinha.
Coloquei meu melhor vestido de chita estampada, calcei minha
sandália nova, e me emplastei com o perfume que o Juca fez, de
casca de lima, e me deu no último Natal. Queria que ele sentisse
como eu havia gostado do cheiro que me deu.
Os convidados não tardaram a chegar, trazendo com eles, além de
alegria, muitos presentes: ovos, galinhas, frutas e flores. Um
mais ousado levou um porquinho. Gente pobre, de coração rico.
- D. Rosinha, a comida tá tão cherosa qui meu estango tá
começano a roncá - disse um dos convidados.
- O meu tamém. E esse Juca qui num chega! Será qui vai demorá,
D. Rosinha? Tô morreno de fome.
É, o Juca. Todo mundo havia chegado, menos ele, o homenageado
principal. Por onde andaria? Ele nunca se atrasava!.. Logo hoje?
O tempo foi passando. Nada de o Juca chegar, e como o pessoal
estava ficando impaciente resolvi servir o jantar que pude fazer
para lhes agradar: pele de porco cozida no feijão, um ensopado
de mandioca com carne seca, arroz branco com cheiro verde, e
banana frita com manteiga e canela, de sobremesa.
Demorando o mais que pude, para dar tempo de o Juca chegar,
coloquei as panelas na mesa, com certa apreensão. "Ô, Juca, por
que num chega, home de Deus!"
O pessoal que ali estava não queria se incomodar com a ausência
do Juca. Estavam todos com fome. Haviam guardado a barriga para
a festa e queriam mais é comer.
Com o coração pesado comecei a encher os copos de vinho. E
derramei um pouco em meu vestido novo, quando alguém gritou:
- D. Rosinha! Óia quem tá chegano! Que alívio!
- É o Juca. Graças a Deus! Fica à vontade, gente. Vô arrumá uma
roupa pra ele e vorto já, já - disse, emocionada.
Juca, mal-humorado como sempre, deu um jeito de entrar sem
cumprimentar ninguém. Fiquei preocupada com o comportamento dele
diante dos meus amigos.
- Diabo, muié, qui gentaiada é essa aí na minha casa?
- Nossa casa, né, Juca! Construímo ela junto.
- E dinhero? Quem deu duro pra ganhá?
Não quis discutir com ele. Havia enfiado na minha cabeça que
seria feliz naquele dia, e o seria. Estava disposta a tudo para
reviver um dia que me lembrava a felicidade que tivera há vinte
e cinco anos.
- Deixa de nervo, home! Me dá um abraço. Ocê num alembra qui dia
é hoje?
- Craro! Por acaso acha qui sou argum burro?
- Intão qui dia é? perguntei passando o braço em volta de sua
cintura roliça.
- Deixa de sê besta, muié! Hoje é sábado. E daí?
- Juca, hoje é um sábado diferente.
- Diferente? Num tô intendendo. Diferente coisa nenhuma.
- É nosso sábado, Juca. Nóis...
- Nosso, nada. Pode sê desses besta aí qui tão encheno a pança
às minhas custa. Sábado meu eu te garanto qui num é.
Ó, Deus! Como convencer aquele homem destemperado e sem
sentimentos de qualquer espécie?
- Juca, Bodas de Prata, home de Deus! Hoje é nosso dia e resorvi
comemorá. Achei qui ocê ia ficá sastifeito.
Juca, casca grossa e coração empedernido pela cachaça, respondeu
laconicamente:
- Num gosto de festa, muito menos de surpresa, cê tá careca de
sabê.
- Juca, mas é só hoje, home de Deus! Vamo comemorá nossas boda
com nossos amigo. Eles viero aqui pra isso. Trouxero até
presente!
- Nossos amigo, não! Cê sabe muito bem qui num tenho amigo. São
seus amigo! Tudo uns abutre. Tão de ôio nocê. Pensa qui num
arreparei? Disse com a voz embolada.
Juca encheu um copo de pinga, bebeu de um só gole, e deu uma
cuspida no chão. Fiquei desolada. Já estava bêbado, como sempre.
Com os olhos marejados de lágrimas, implorei:
- Juca, pelo amor de Deus! Vamo pro garpão. Só um pouquinho.
Eles querem cantá parabéns pra nóis. A D. Joana até fez daquele
bolo de mandioca qui ocê tanto gosta!
- Num vou não. Vai ocê qui gosta de bagunça. Tô muito cansado e
vô durmi um pouco. Quando esses besta fô imbora ocê me acorda
pra cumê. Fim de papo e vê si num mi amola, tá? Ah, e faz um
prato bem cheio pra mim, qui tô morreno de fome!
O sonho de ser feliz, pelo menos no dia de nossas bodas acabara
de ruir. Eu estava triste, muito triste. Uma tristeza tão
grande, que nem cabia no meu coração.
Sentei ao lado da cama e chorei enquanto tive lágrimas para
derramar. Não levantei mais. Não tive cara para enfrentar a
curiosidade dos poucos amigos que haviam ido nos homenagear,
mesmo sabendo do mau-humor do Juca.
Peguei um travesseiro, ajeitei-me aos pés da cama, e bebi o copo
de vinho que havia levado para o Juca. Fiquei remoendo minha
tristeza até o sono me derrubar. Acordei com o cantar dos galos.
Levantei-me sobressaltada e corri ao galpão. Naquele momento,
senti meu coração partir-se de vez. A comida estava intacta nos
pratos. Os copos, cheios de vinho. Todo mundo havia ido embora,
sem comer.
Deus! Jamais me sentira tão infeliz em toda minha vida!
Enfurecida, peguei as panelas e pratos e joguei para o alto.
Peguei uma faca. Enquanto os cachorros se esganiçavam pela
comida, o sangue escorria fresco, pela minha jugular.
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Monica de Camargo Coutinho
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- Publicação:
www.paralerepensar.com.br - 19/12/2005
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