A casa dos grandes pensadores
 
 
 

MONICA DE CAMARGO COUTINHO

 

 

 

Querida filha,
 
 Agradeço a Deus todos os dias por você ter escolhido meu útero para morar enquanto crescia e se desenvolvia. Nove meses depois, cansada de lá, você resolveu sair e pensou: Basta! Quero conhecer a mulher que escolhi para ser minha mãe, para cuidar de mim, para me dar carinho, para caminhar comigo guiando meus passos para o bem.
Nós não escolhemos os filhos que desejamos ter. Os filhos nos escolhem. Foi uma honra e grande alegria te ver crescer, dar o primeiro passinho, as primeiras palavras. Se Deus deixou que você me escolhesse para cuidar de você aqui na Terra, eu tinha de cumprir minha missão: Te amar, ensinar e fazer crescer para a vida. Fiz o que pude pra te ver feliz. Às vezes, querendo me realizar, joguei nas suas costas algo que não tive oportunidade de fazer. Alguns pais fazem isso, mas não o fiz conscientemente. Como não consegui realizar meus sonhos acreditava que você gostaria de vivê-los. Um erro. Na época você não gostava nem de balé nem de vôlei, mas hoje, adulta, deve pensar: Puxa! Fui dançarina, participei de festivais. Fui jogadora de vôlei, joguei até contra o melhor clube da capital e matei o time fazendo nove pontos seguidos, no saque. Aquele foi um momento de glória para mim. Na arquibancada do Minas Tênis Clube eu aplaudia você, com os olhos marejados. Será que você gostou de ser aplaudida pelo público, ou não?
Hoje, pensando nos meus erros passados, vejo que você conduz bem sua filha, não a obrigando a fazer nada, além da natação, que ela aprecia. A única coisa que a ouvi dizer é que gosta de tênis, e quer aprender. Quando a pessoa gosta e pede é porque se desenvolverá bem naquilo.
Queria muito estar aí com você no dia do seu aniversário. Queria comemorar com uma abraço bem apertado aquela pessoinha que entrou no meu útero para ser gerada por mim, pois queria ser minha filha. No princípio fiquei assustada, depois pensei: Devo ser boa mãe, já é a quarta pessoa que vem morar dentro de mim, pois quer que eu seja sua mãe também.
Que alegria quando você nasceu! Eu babei quando sugou meu leite pela primeira vez, pois fazia uns quatro anos que ele estava improdutivo. Seu pai babava, seus irmãos babavam, tinham uma irmã. E aquela menininha cresceu e também foi escolhida para ser mãe. A Juju escolheu você. E sei que você retorna a ela todo o carinho que ela teve ao escolher você como mãe dela. Não é divino saber disso? Que são os filhos que nos escolhem para cuidarmos deles aqui na Terra? Portanto, saiba, é uma grande mentira quando os filhos brigam com os pais e dizem: Não pedi pra nascer! Não pediram mesmo, entraram sem pedir! Entre milhares de espermatozóides brigando para vencer a corrida tipo Fórmula Um, aquele filho a venceu. Como tem coragem de dizer que não pediu pra nascer?
E nós os aceitamos com todo amor do coração de mãe. Muitas vezes não sabemos criá-los, ou acontece de os criarmos bem, e vir alguém e jogar cinza nos olhos deles e os desviar do bom caminho. Ser mãe é uma tarefa árdua para uma ou para muitas. Tantas coisas fogem aos nosso padrão de criação!.. Mas você não fugiu. Cometeu erros como cometi. Somos humanos. Mas a maior importância de ser humano é saber se doar, amar e se perdoar por erros cometidos, pois se ela não consegue se perdoar, como perdoará os outros?
Deus lhe abençoe e dê muitos anos de vida para ver a Juju casar e conhecer os filhos que a escolherão para ser mãe deles.
Beijos, beijos, beijos.

Monica de Camargo Coutinho

Publicação: www.paralerepensar.com.br - 03/07/2009