A casa dos grandes pensadores
 

MONICA DE CAMARGO COUTINHO

 

 

Crianças dependentes, adultos dependentes...
    
     Quando os filhos nascem, alguns pais ficam ansiosos para programar o futuro deles, de querer conduzi-los para que possam se realizar através de seus passos, pois muitos projetam neles aquilo que não conseguiram ser. Grande erro. Há pais que respeitam a opinião dos filhos, sem interferência na vida particular deles. E se não se realizam através dos filhos, pelo menos, não se frustram quando eles não são bem sucedidos, já que não havia nenhuma expectativa em relação aos sonhos que não conseguiram realizar.
    Infelizmente estou na primeira posição. Realizei-me no plano materno. Aproveitei a infância dos meus filhos o máximo que pude. Até mesmo com certa dose de egoísmo, embora inconsciente. Mas não havia como ser diferente, pois o que faz a mãe que convive com seus filhos 24 horas por dia? Cuida deles o tempo todo, paparica-os, vive 24 horas para/por eles, na esperança de fazer deles super-homens.Tudo que vivi com eles ou por eles foi muito bom para mim, mas lhes tirei a oportunidade de se virarem sozinhos, de serem independentes.
    Fui mãe coruja. Ensinei a meus filhos coisas que ainda não tinham condição de assimilar. Marcus, aos quatro anos de idade, foi a um programa cultural na extinta TV Belo Horizonte, responder sobre os brasileiros famosos, os bandeirantes, os índios e as capitais do Brasil. Sabia tudo, eu ficava muito orgulhosa.
    Eu pensava que seria assim a vida toda. Mas não foi. Em determinada fase de sua vida pareceu estar desanimado até de estudar. Todos eles. E eu, que amarrei o cadarço de seus tênis até os 10 anos, hoje penso como custou caro curtir tanto a infância deles. Eu, que dava banho neles e escolhia a roupa que vestiriam, fico triste. Triste, porque na época em que devia formar o espírito deles para a luta, para a vida, formei-os para a mordomia, para a boa vida apenas. Eu não trabalhava fora, fazer o quê? Eu era a babá de luxo deles, e como tal, agi.
Incrível! Como não percebi que através daquele excesso de zelo eu os prejudicava?
    Eu estudava com meus filhos. Lia a lição em voz alta, fazia-os prestar atenção e depois lhes "tomava os pontos". Meu marido me dizia que só faltava eu fazer as provas para eles.
    Cometi um erro muito grande, pois eu os acostumei mal. Quando percebi que estava errada, parei, mas já era tarde. Eles não sabiam estudar sozinhos e tiveram até dificuldades na escola.
    Hoje, dois destes filhos já têm duas crianças, cada. Espero que não cometam o mesmo erro que cometi.

 

Publicado pela revista "Cláudia" depois do lançamento do livro que continha esse relato.
 
Monica de Camargo Coutinho
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 10/04/2006