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Encontros ou
desencontros
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Há tempos a
morte vem economizando o mísero dinheirinho que
encontra no chão, perto das cantinas do cemitério
onde mora. É que ela anda com uma vontade esquisita
de rever a vida. Quer mudar de hábitos, mas não sabe
como fazer.
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Num estranho
dia soube que a vida faria um espetáculo num teatro
perto de seu cemitério. O ingresso era caro, muuuito
caro! Mesmo assim, resolveu pagar para rever a vida
que um dia viveu. Um belo esforço para quem não
gosta de diversão nem companhia. Gosta mesmo é de
ficar quieta no seu túmulo sem fazer nada, apenas
pensando quem será o próximo vizinho ou vizinha.
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Seu maior
desafio foi juntar, mês a mês, forças e economias
para sair do subsolo e conhecer a famosa peça. Ver a
vida não é para qualquer um, e a morte sabia disso.
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Enfim, chegara
o grande dia.
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A morte chegou
cedo ao teatro.
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Comprou
ingresso, pipoca, refrigerante.
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Conseguiu
sentar na primeira fileira, sem obstáculos na sua
frente. Ficaria bem perto da vida.
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Estava
nervosa.
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Começou a
sentir que deveria ter ficado um pouco mais atrás.
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Queria ver a
vida, mas também não precisava ter exagerado. Na
primeira fila!...
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Não precisava
ser tão perto! Poderia ficar com inveja...
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De qualquer
forma sentou com seu vestido preto naquela poltrona
rasgada e gasta.
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Espera.
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A pipoca
acabou.
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Mais espera.
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A morte foi
ficando impaciente...
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Quarenta
minutos... Nada.
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Uma hora...
Nada.
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Puta com a
vida, ela se levantou.
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- Que vida de
merda! Custo a sair de casa, gasto toda minha
energia, minhas economias, e tudo em vão?! Essa
merda de vida não dá as caras! Será que morreu?
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Por pura
IMPACIÊNCIA, a morte levantou e foi embora. Estava a
uma fileira de se encontrar e reconhecer a vida.
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Um minuto após
sua saída, as luzes se acenderam, as cortinas
abriram e o espetáculo da vida começou.
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Era a vida
linda e colorida, interpretando um monólogo,
causando rebuliço e risada em todos que pagaram para
vê-la.
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A morte por
não saber esperar, voltou mais preta e mortal para
sua aconchegante caverna sepulcral.
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Não foi dessa
vez que ela coexistiu com a vida.
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- Monica de Camargo Coutinho
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- Publicação:
www.paralerepensar.com.br - 14/04/2010

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