A casa dos grandes pensadores
 

MONICA DE CAMARGO COUTINHO

 

 

 

 
Encontros ou desencontros
 
 
Há tempos a morte vem economizando o mísero dinheirinho que encontra no chão, perto das cantinas do cemitério onde mora. É que ela anda com uma vontade esquisita de rever a vida. Quer mudar de hábitos, mas não sabe como fazer.
Num estranho dia soube que a vida faria um espetáculo num teatro perto de seu cemitério. O ingresso era caro, muuuito caro! Mesmo assim, resolveu pagar para rever a  vida que um dia viveu. Um belo esforço para quem não gosta de diversão nem companhia. Gosta mesmo é de ficar quieta no seu túmulo sem fazer nada, apenas pensando quem será o próximo vizinho ou vizinha.
Seu maior desafio foi juntar, mês a mês, forças e economias para sair do subsolo e conhecer a famosa peça. Ver a vida não é para qualquer um, e a morte sabia disso.
Enfim, chegara o grande dia.
A morte chegou cedo ao teatro.
Comprou ingresso, pipoca, refrigerante.
Conseguiu sentar na primeira fileira, sem obstáculos na sua frente. Ficaria bem perto da vida.
Estava nervosa.
Começou a sentir que deveria ter ficado um pouco mais atrás.
Queria ver a vida, mas também não precisava ter exagerado. Na primeira fila!...
Não precisava ser tão perto! Poderia ficar com inveja...
De qualquer forma sentou com seu vestido preto naquela poltrona rasgada e gasta.
Espera.
A pipoca acabou.
Mais espera.
A morte foi ficando impaciente...
Quarenta minutos... Nada.
Uma hora... Nada.
Puta com a vida, ela se levantou.
- Que vida de merda! Custo a sair de casa, gasto toda minha energia, minhas economias, e tudo em vão?! Essa merda de vida não dá as caras! Será que morreu?
Por pura IMPACIÊNCIA, a morte levantou e foi embora. Estava a uma fileira de se encontrar e reconhecer a vida.
Um minuto após sua saída, as luzes se acenderam, as cortinas abriram e o espetáculo da vida começou.
Era a vida linda e colorida, interpretando um monólogo, causando rebuliço e risada em todos que pagaram para vê-la.
A morte por não saber esperar, voltou mais preta e mortal para sua aconchegante caverna sepulcral.
Não foi dessa vez que ela coexistiu com a vida.
 
Monica de Camargo Coutinho
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 14/04/2010