A casa dos grandes pensadores
 
 
 

MONICA DE CAMARGO COUTINHO

 

 

 

Florzinha
     
 Meu tio chegou em minha casa e me perguntou se eu ainda queria outro cachorro, pois o meu tinha morrido. Disse que sim e perguntei por quê. Ele respondeu que havia lido no jornal que alguém queria vender um cachorrinho. Se eu gostaria de ganhá-lo de presente. Eu disse que sim, mas fiquei preocupada porque mamãe detesta cachorro dentro de casa.
Entramos no carro e ele foi dirigindo, dirigindo. Passamos por umas ruas que nunca vira. Depois, ele chegou numa rua de subida muito forte. E foi subindo, subindo. Fiquei com medo de que o carro voltasse. Meu coração bateu forte. Parecia um tambor. Mas o carro subiu.
Ele parou em frente a um prédio branco, com a pintura desbotada. Entramos. Subimos cinco lances de escada. Ufa! Aí, chegamos em frente ao apartamento do cachorro, quero dizer, do dono dele.
Meu tio tocou a campainha. Atendeu um rapaz de óculos, desses que parecem fundo de garrafa. O cabelo era todo espetadinho. Ele perguntou se havíamos ido ver o cachorro e respondemos que sim. Ele mandou que entrássemos e ficássemos à vontade.
A casa era fedorenta. Tinha fedor de cachorro que não toma banho nem uma vez por ano. E o sofá também estava todo sujo de pêlos. Meu tio sentou, eu não. Perguntou por que eu não queria sentar; respondi que desejava ficar em pé. Bem que eu queria descansar minhas pernas, mas fiquei com medo de que aqueles pêlos ficassem grudados na minha roupa nova. Roupa de domingo, de ir à Missa.
O rapaz de cabelo espetado voltou com um bichinho nas mãos. Era um cachorrinho muito fino e pequeno. Parecia uma salsicha. Pedi para carregá-lo. O cachorro tinha uns olhos esquisitos, estufados, parecendo que iam saltar da cara.
Meu tio perguntou se eu havia gostado. Respondi que sim. Ele falou que ia comprá-lo para mim, que era meu presente de aniversário. O rapaz ficou feliz de estar vendendo o cachorrinho, e eu pensei como ele podia ser tão indócil com aquele cachorro tão feinho. Tão feio, que até pensei que não ia gostar dele.
O rapaz, depois de receber o dinheiro, avisou-nos que o cachorrinho já tinha tomado banho, e que não precisava dar banho mais de uma vez por semana. Explicou que o certo mesmo é dar banho apenas duas vezes por ano. E era aquilo que fazia, mas que quando ia vender, dava banho antes. Então estava explicado por que aquele apartamento era tão fedido. Só que eu ia dar banho no meu, toda semana. Se a casa ficasse fedendo a mamãe não ia gostar.
Fomos embora. Titio perguntou que nome eu ia dar a ela. Só então percebi que era uma cachorrinha. Disse que não havia pensado em nenhum nome ainda, mas que ia escolher um bem legal.
Quando chegamos eu disse a ele que já havia escolhido. Perguntou qual era, e eu disse que ela ia se chamar Flor de Lis. Ele respondeu que aquilo não era nome de cachorro, que mais parecia nome de mulher.
- E Florzinha? perguntei. Que tal? Acha bonito?
- Antes Florzinha do que Flor de Lis - ele respondeu, depois de soltar a fumaça de seu cigarro, pelo nariz.
A mamãe olhou com uma cara muito esquisita quando nos viu entrando com a Florzinha. Ficou só falando que eu sabia que ela não gostava de cachorro dentro de casa, e que ia sobrar pra ela, que eu não ia limpar o xixi nem o cocô. E que Florzinha morderia tudo que visse pela frente. Eu disse que não deixaria, que teria todo o cuidado com ela.
- Só quero ver - falou de cara fechada.
Mas a Florzinha era muito arteira, não tomava jeito. E o meu tio, que gostava muito dela, sempre que ia a minha casa pegava a Florzinha no colo, e ficava com ela, pela casa toda. Ela ficava tão feliz, coitadinha!
Um belo dia, o tio apareceu para assistir a um jogo com meu pai. Pegou uma caixa de cerveja e encheu a geladeira. Estava passando um jogo do Cruzeiro. Quando o Cruzeiro fazia um gol ele pulava e soltava a Florzinha, do colo. Num daqueles gols a Florzinha sumiu. Ele já havia bebido tanta cerveja, que nem deu falta dela. De repente, a mamãe aparece feito doida, bufando de raiva, perguntando qual havia sido o nosso trato, de não deixar a Florzinha passear dentro de casa. Ela estava tão furiosa, que nem conseguia falar direito. Morrendo de medo, perguntei o que a Florzinha fizera. Ela, muito nervosa, respondeu que aquela peste havia mordido os bicos da colcha de crochê, uma colcha branca, lembrança da vovó. E ficou falando para meu tio, que era culpa dele, que ele não tinha nada que me dar aquela peste de cachorro, que só dava amolação. E foi falando...Falando. Meu tio, só suspirando. E a mamãe pra lá e pra cá, só olhando meu tio. Coitado! Teve uma hora que não agüentou mais. Levantou depressa, pegou a Florzinha e saiu com ela. Perguntei aonde ia com ela, ele nem respondeu.
- Tio! gritei. Tio! Aonde vai com a Florzinha? 
Ele continuou mudo. Entrou dentro do carro e ligou o motor.
- Tio! Me espera! Espera, tio! Também quero ir.
Saiu cantando os pneus. Nem deu bola pra mim. Nem viu que eu estava chorando.
Entrei dentro de casa, muito triste. Chorando muito. Mamãe perguntou o que era.
- A Florzinha! respondi fungando.
- O que tem ela?
- Titio levou ela embora.
Ela não falou nada, mas percebi que mesmo a Florzinha tendo comido um pedaço da sua colcha, ela gostava dela, pois estava chorando também, e não queria que eu ficasse sem cachorro outra vez. Fiquei com pena dela e disse:
- Não chore, mamãe, o titio vai voltar.
- Mas você está chorando...
- Sim, estou, porque eu queria que a Florzinha crescesse comigo. E agora o tio levou ela embora.
- Ele vai voltar com ela, você vai ver. Não chore, por favor!
Mamãe saiu de perto de mim, e eu achei bom, porque queria ficar chorando sozinha. Eu gostava de ficar aparando minhas lágrimas com as mãos. Depois eu passava essas lágrimas no meu coração. Oferecia as lágrimas para a Florzinha.
Quando minhas lágrimas acabaram, voltei para a calçada e fiquei lá um tempão. Estava pensando que talvez o tio só queria passar um susto na mamãe e em mim, e que logo, logo, ele ia aparecer com ela.
Depois de um tempo, Mamãe me chamou para dentro e eu me levantei, com os olhos bem longe, lá na rua da esquina. Como meu tio não aparecia, entrei.
Assim que entrei, alguém tocou a campainha. Meu coração quase saiu pela boca.
" É ele, pensei. E trouxe a Florzinha de volta."
Corri ao seu encontro. Não havia nada em suas mãos. Meu Deus! Onde estaria ela?
- Titio, onde está a Florzinha?
Ele não respondeu.
- Titio, para onde o senhor levou a Florzinha?
Ele não queria responder de jeito nenhum. Mas fiquei insistindo até que resolveu falar:
- A Florzinha agora está com Deus - ele disse.
- Por que com Deus? perguntei, nervosa.
- Com Deus, ora!
Ele passou a mão na testa cheia de suor e a enxugou na camisa.
- Titio, como a Florzinha pode estar com Deus? O senhor deu ela para algum padre, levou para alguma igreja, o que fez com ela?
- Ela não estava enchendo a paciência de sua mãe? Agora não vai encher mais, porque joguei ela dentro do rio, e ela agora está no céu, e ninguém mais vai brigar com ela.
 
Monica de Camargo Coutinho
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 10/10/2007