A casa dos grandes pensadores
 
 

MONICA DE CAMARGO COUTINHO

 

 

 

 

FREDINHO

 Não estou achando graça nenhuma no que acontece por aqui. Aonde foi meu amigão que não voltou até hoje? Sempre que ele viaja pra fazenda ele me leva!.. A última vez em que o vi foi no dia 15 de agosto.  Mais de um mês. O que será que aconteceu com ele? Sei que andava doente, mas nesses dois anos de doença ele ficou internado no hospital duas vezes e voltou. Agora...

Naquele domingo, dia 15, eu estava deitado na cama, agarradinho ao corpo dele, para aquecê-lo, pois senti que estava um pouco frio. Era noite, umas 18 horas. De repente, seu corpo começou a balançar, e de sua boca, saía uma coisa que nunca vi sair. Ele trincou os dentes e ficou se debatendo com mais força. Tomei tanto susto que dei um pulo da cama e fui até onde a esposa dele estava assistindo à televisão. Tentei chamá-la para o quarto, indo e voltando, porém ela não entendeu meu gesto de desespero. Subi na cama de novo, e fiquei olhando ele de um jeito que nunca vi, mas nada podia fazer. De repente, ele fez mais barulho com a boca, então a esposa entendeu que algo grave acontecia. Correu para o quarto e ao ver a cena começou a chorar e a gritar, ela é meio descontrolada, como passa susto na gente!

- Benzinho, benzinho! Ai, meu Deus do céu, o que faço?

Pegou na cabeça dele, levantou-a e enfiou o dedo dentro de sua boca. Na mesma hora fez uma cara de dor. E pra te tirar o dedo?

- Meu Deus, cadê o telefone sem fio, ai, meu Deus do céu! O que faço?

Eu só olhava aquela gritaria e lágrimas escorrendo, angustiado. Se eu soubesse telefonar...

Gritando, ela conseguiu arrancar o dedo de dentro da boca dele, virou-o de lado, correu, pegou o interfone e pediu ao porteiro para chamar o SAMU. Desorientada, andava pra lá e pra cá, sem saber o que fazer. Estávamos sozinhos. Depois de quase arrancar os cabelos começou a telefonar. Telefona pra um, telefona pra outro, não encontra ninguém. Chamando tanto a Deus Ele lhe deu uma luzinha e ela ligou pra neta mais velha, que mora aqui perto. Parece que ela veio voando, pois chegou ofegante, preocupada e correu ao quarto do vozinho dela, depois de abraçar a Monica.

- Olha, Camila, está tendo outra!

- Jesus! Você já chamou o SAMU? Perguntou agoniada.

- Já, mas você sabe, como é, né?

- Calma, para de chorar, Monica, vamos levar ele pro hospital.

- Assim, tendo convulsão?

- Claro, aqui é que ele não pode ficar.

- Ai, meu Deus, como vou dirigir nesse estado?

- Eu dirijo, vamos.

- Peraí, vou trocar a roupa dele, tá toda molhada de xixi.

Naquele exato momento, parecendo saber o que acontecia, o filho mais novo chegou da sua viagem, subiu as escadas correndo, e mesmo trêmulo, logo tomou providência.

- Camila, segura as pernas, que eu seguro o tronco.

O que acontecia com meu carinhoso dono, meu Deus? Para onde ia?

Abriram a porta da sala, entraram no elevador, e ele nunca mais voltou. Parece que fiquei sem chão. Quase um mês sem vê-lo. Desde que ele saiu daquele quarto não entrei lá mais. Nada ali me interessava. Quem dormia ali me abandonou. Fiquei órfão. Perdi a fome, emagreci, perdi até a alegria de viver. Com ele a vida era boa. Brincava comigo, me dava da sua comida, nem se importava de eu ficar sentado perto dele quando jantava. Se bobeasse eu dava umas lambidas na comida dele, e ele nem ligava. A chata da mulher dele é que ficava implicando, principalmente, quando ele colocava o prato no chão para eu lamber ou comer o resto.

- Cachorro não come em prato. Cachorro não come em prato, já falei...

Ele falava um palavrão com ela, eu corria pra debaixo da mesa pra rir dela.

Rememorando, depois daquele dia em que ele saiu de casa e não voltou, fiquei perguntando aos meus botões, se eu fiz algo que ele não gostou, então foi embora, fugiu de mim. Os humanos não têm muita paciência com animais. Mas dele, até que não posso reclamar. Nunca me bateu, nem maltratou. Pelo contrário, tratava-me tão bem, que sinto ter perdido um pai. Eu gostava dele pra valer. Ele gostava tanto de mim que até me deu nome de gente. Zequinha. Depois que ele sumiu, só ouço Fredinho, Fredinho! Foi o nome que a Monica me deu quando cheguei aqui. Nome de jogador do time dela. Talvez seja melhor assim, para não me lembrar dele e ficar chorando e amuado pelos cantos. Quando a saudade aperta eu me grudo nela. Tão perto que outro dia ela pisou na minha pata. Dei um latido de dor, ela ainda me xingou: Que droga! Precisa ficar debaixo de mim? Depois se arrepende e me carrega, eu fico todo dengoso. Quando ela me coloca no chão, eu manco e olho se ela percebe, pra ter mais dó ainda e ficar com dor no coração. Ela tenta compensar com seu carinho a saudade que sinto do amigão. Deixa eu fazer coisas que antes não deixava. Pensa que isso me alegra. Pelo contrário, adoeci. Perdi o apetite, fiquei magro, pele e osso. Preocupada com meu estado ela me levou ao veterinário. Chegando lá ela disse que eu devia estar com algo atravessado na goela, por isso não comia. Ele examinou minha gargoela e nada encontrou, o motivo era outro, então. Pegou um termômetro e enfiou no meu rabo, sem dó nem piedade. Queria ver se fosse um bem grande no dele!... Filho da puta! – como dizia meu amigão quando estava com raiva.

Pelo meu chiado disse que eu estava com traqueobronquite e receitou um remédio podre de ruim. Duas vezes por dia. Mordo quem abre minha boca para enfiar aquele troço horroroso. Não resta dúvida que parei de chiar e raspar a gargoela, mas a falta de apetite continua. Bolas! Se ele não tivesse sumido nada disso estaria acontecendo.

De vez em quando subo as escadas. Quando olho aquela porta... Por onde ele saiu e nunca mais voltou, sinto uma tristeza!.. Tanta que nunca mais entrei lá. Tudo ali me faz lembrar dele. Outro dia a porta estava totalmente aberta. Eu vi uma bolinha de gude que gostava de colocar na boca, e ele ficava rindo e tentava tomá-la de mim. A mulher dele adorava me ver com aquela bolinha na boca. Ria até! Não sei que graça ela achava naquilo. Eu gostava de ficar passando a língua naquela coisa macia, macia. Ficava com ela na boca até me cansar. Depois deixava cair, e ela rolava pra debaixo da cama dele.

Bem, já que ele sumiu o jeito foi me apegar a ela, pois na verdade, sou dela. Ele me comprou, ainda bebezinho e deu a ela, porém me apeguei muito a ele desde que adoeceu. Agora fico atrás dela que nem sombra. Até no chuveiro eu corro atrás dela. Ela é muito boazinha comigo. Nunca mais me deixou dormir no banheiro da cobertura, onde tenho duas casinhas, posso escolher. Fico dentro de casa o dia inteiro. Isso até que achei bom. Antes eu tinha hora para entrar e sair da casa. Cumpria direitinho meu ritual diário.

Com toda minha tristeza e falta de apetite ganhei status dentro dessa casa, como disse. Fico onde quero, durmo onde quero, urino onde quero, e quero só onde não posso. Nas cortinas, nos tapetes... Por que sou tão abjeto com quem é tão boa comigo? Não faço por mal. Se pudesse faria xixi na privada, mas não fizeram privada pra cachorro... Isso é sinal de que posso mijar em qualquer lugar. Quando ela me vê cheirando alguma ponta de cortina ou sofá, corre atrás de mim, e dou no pé. Sabe? Ela foi e é tão boazinha comigo, que já gosto dela como gostava do outro. Ela me deixa dormir na cama dela, por cima da colcha. Eu grudo meu corpo no dela, e fico quentinho. Enquanto o sono não vem, fico lambendo minhas patas. Ela morre de antipatia disso e fica me cutucando o tempo todo. Eu lambo, lambo, até não poder mais. Quando demoro muito ela finge que me dá uns coques no coco. Então, paro. Pra que ser mau com quem me trata tão bem?

Mas... Tenho medo de uma coisa. E, se um dia, ela também passar por aquela porta e não voltar mais?

 
Monica de Camargo Coutinho
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 21/09/2009