
FREDINHO
Não
estou achando graça nenhuma no que acontece por aqui. Aonde foi
meu amigão que não voltou até hoje? Sempre que ele viaja pra
fazenda ele me leva!.. A última vez em que o vi foi no dia 15 de
agosto. Mais de um mês. O que será que aconteceu com ele? Sei que
andava doente, mas nesses dois anos de doença ele ficou internado
no hospital duas vezes e voltou. Agora...
Naquele domingo, dia 15, eu estava deitado na cama, agarradinho ao
corpo dele, para aquecê-lo, pois senti que estava um pouco frio.
Era noite, umas 18 horas. De repente, seu corpo começou a
balançar, e de sua boca, saía uma coisa que nunca vi sair. Ele
trincou os dentes e ficou se debatendo com mais força. Tomei tanto
susto que dei um pulo da cama e fui até onde a esposa dele estava
assistindo à televisão. Tentei chamá-la para o quarto, indo e
voltando, porém ela não entendeu meu gesto de desespero. Subi na
cama de novo, e fiquei olhando ele de um jeito que nunca vi, mas
nada podia fazer. De repente, ele fez mais barulho com a boca,
então a esposa entendeu que algo grave acontecia. Correu para o
quarto e ao ver a cena começou a chorar e a gritar, ela é meio
descontrolada, como passa susto na gente!
- Benzinho, benzinho! Ai, meu Deus do céu, o que faço?
Pegou na cabeça dele, levantou-a e enfiou o dedo dentro de sua
boca. Na mesma hora fez uma cara de dor. E pra te tirar o dedo?
- Meu Deus, cadê o telefone sem fio, ai, meu Deus do céu! O que
faço?
Eu só olhava aquela gritaria e lágrimas escorrendo, angustiado. Se
eu soubesse telefonar...
Gritando, ela conseguiu arrancar o dedo de dentro da boca dele,
virou-o de lado, correu, pegou o interfone e pediu ao porteiro
para chamar o SAMU. Desorientada, andava pra lá e pra cá, sem
saber o que fazer. Estávamos sozinhos. Depois de quase arrancar os
cabelos começou a telefonar. Telefona pra um, telefona pra outro,
não encontra ninguém. Chamando tanto a Deus Ele lhe deu uma
luzinha e ela ligou pra neta mais velha, que mora aqui perto.
Parece que ela veio voando, pois chegou ofegante, preocupada e
correu ao quarto do vozinho dela, depois de abraçar a Monica.
- Olha, Camila, está tendo outra!
- Jesus! Você já chamou o SAMU? Perguntou agoniada.
- Já, mas você sabe, como é, né?
- Calma, para de chorar, Monica, vamos levar ele pro hospital.
- Assim, tendo convulsão?
- Claro, aqui é que ele não pode ficar.
- Ai, meu Deus, como vou dirigir nesse estado?
- Eu dirijo, vamos.
- Peraí, vou trocar a roupa dele, tá toda molhada de xixi.
Naquele exato momento, parecendo saber o que acontecia, o filho
mais novo chegou da sua viagem, subiu as escadas correndo, e mesmo
trêmulo, logo tomou providência.
- Camila, segura as pernas, que eu seguro o tronco.
O que acontecia com meu carinhoso dono, meu Deus? Para onde ia?
Abriram a porta da sala, entraram no elevador, e ele nunca mais
voltou. Parece que fiquei sem chão. Quase um mês sem vê-lo. Desde
que ele saiu daquele quarto não entrei lá mais. Nada ali me
interessava. Quem dormia ali me abandonou. Fiquei órfão. Perdi a
fome, emagreci, perdi até a alegria de viver. Com ele a vida era
boa. Brincava comigo, me dava da sua comida, nem se importava de
eu ficar sentado perto dele quando jantava. Se bobeasse eu dava
umas lambidas na comida dele, e ele nem ligava. A chata da mulher
dele é que ficava implicando, principalmente, quando ele colocava
o prato no chão para eu lamber ou comer o resto.
- Cachorro não come em prato. Cachorro não come em prato, já falei...
Ele falava um palavrão com ela, eu corria pra debaixo da mesa pra
rir dela.
Rememorando, depois daquele dia em que ele saiu de casa e não
voltou, fiquei perguntando aos meus botões, se eu fiz algo que ele
não gostou, então foi embora, fugiu de mim. Os humanos não têm
muita paciência com animais. Mas dele, até que não posso reclamar.
Nunca me bateu, nem maltratou. Pelo contrário, tratava-me tão bem,
que sinto ter perdido um pai. Eu gostava dele pra valer. Ele
gostava tanto de mim que até me deu nome de gente. Zequinha.
Depois que ele sumiu, só ouço Fredinho, Fredinho! Foi o nome que a
Monica me deu quando cheguei aqui. Nome de jogador do time dela.
Talvez seja melhor assim, para não me lembrar dele e ficar
chorando e amuado pelos cantos. Quando a saudade aperta eu me
grudo nela. Tão perto que outro dia ela pisou na minha pata. Dei
um latido de dor, ela ainda me xingou: Que droga! Precisa ficar
debaixo de mim? Depois se arrepende e me carrega, eu fico todo
dengoso. Quando ela me coloca no chão, eu manco e olho se ela
percebe, pra ter mais dó ainda e ficar com dor no coração. Ela
tenta compensar com seu carinho a saudade que sinto do amigão.
Deixa eu fazer coisas que antes não deixava. Pensa que isso me
alegra. Pelo contrário, adoeci. Perdi o apetite, fiquei magro,
pele e osso. Preocupada com meu estado ela me levou ao
veterinário. Chegando lá ela disse que eu devia estar com algo
atravessado na goela, por isso não comia. Ele examinou minha
gargoela e nada encontrou, o motivo era outro, então. Pegou um
termômetro e enfiou no meu rabo, sem dó nem piedade. Queria ver se
fosse um bem grande no dele!... Filho da puta! – como dizia meu
amigão quando estava com raiva.
Pelo meu chiado disse que eu estava com traqueobronquite e
receitou um remédio podre de ruim. Duas vezes por dia. Mordo quem
abre minha boca para enfiar aquele troço horroroso. Não resta
dúvida que parei de chiar e raspar a gargoela, mas a falta de
apetite continua. Bolas! Se ele não tivesse sumido nada disso
estaria acontecendo.
De vez em quando subo as escadas. Quando olho aquela porta... Por
onde ele saiu e nunca mais voltou, sinto uma tristeza!.. Tanta que
nunca mais entrei lá. Tudo ali me faz lembrar dele. Outro dia a
porta estava totalmente aberta. Eu vi uma bolinha de gude que
gostava de colocar na boca, e ele ficava rindo e tentava tomá-la
de mim. A mulher dele adorava me ver com aquela bolinha na boca.
Ria até! Não sei que graça ela achava naquilo. Eu gostava de ficar
passando a língua naquela coisa macia, macia. Ficava com ela na
boca até me cansar. Depois deixava cair, e ela rolava pra debaixo
da cama dele.
Bem, já que ele sumiu o jeito foi me apegar a ela, pois na
verdade, sou dela. Ele me comprou, ainda bebezinho e deu a ela,
porém me apeguei muito a ele desde que adoeceu. Agora fico atrás
dela que nem sombra. Até no chuveiro eu corro atrás dela. Ela é
muito boazinha comigo. Nunca mais me deixou dormir no banheiro da
cobertura, onde tenho duas casinhas, posso escolher. Fico dentro
de casa o dia inteiro. Isso até que achei bom. Antes eu tinha hora
para entrar e sair da casa. Cumpria direitinho meu ritual diário.
Com toda minha tristeza e falta de apetite ganhei status dentro
dessa casa, como disse. Fico onde quero, durmo onde quero, urino
onde quero, e quero só onde não posso. Nas cortinas, nos
tapetes... Por que sou tão abjeto com quem é tão boa comigo? Não
faço por mal. Se pudesse faria xixi na privada, mas não fizeram
privada pra cachorro... Isso é sinal de que posso mijar em
qualquer lugar. Quando ela me vê cheirando alguma ponta de cortina
ou sofá, corre atrás de mim, e dou no pé. Sabe? Ela foi e é tão
boazinha comigo, que já gosto dela como gostava do outro. Ela me
deixa dormir na cama dela, por cima da colcha. Eu grudo meu corpo
no dela, e fico quentinho. Enquanto o sono não vem, fico lambendo
minhas patas. Ela morre de antipatia disso e fica me cutucando o
tempo todo. Eu lambo, lambo, até não poder mais. Quando demoro
muito ela finge que me dá uns coques no coco. Então, paro. Pra que
ser mau com quem me trata tão bem?
Mas... Tenho medo de uma coisa. E, se um dia, ela também passar
por aquela porta e não voltar mais?