A casa dos grandes pensadores
 

MONICA DE CAMARGO COUTINHO

 

 

Fredinho II
 
Ontem fez dois meses que meu amigo sumiu. A minha doença piorou, não consigo deixar que me empurrem goela abaixo, aquele remédio horroroso que me manterá vivo até o fim dos meus dias. É ruim demais. Tento abocanhar quem me segura para enfiar aquela seringa na minha boca, só consegui enfiar um pedacinho do dente na minha dona, que nunca mais invocou comigo. Passou a incumbência dela pro motorista, muito desajeitado, mais joga remédio no meu pescoço, do que goela abaixo. Sem contar nos remédios pra bronquite e vitaminas. Viver desse jeito não dá, sabe? Uma vida incerta, tenho um medo danado de sofrer. Fico grudado nela, que nem sombra, não a largo pra nada. Sinto que perto dela estou longe de um grande perigo chamado morte. Eu não quero morrer... Mas será que vale a pena viver sofrendo? Para piorar minha situação arrumei uma coceira sem fim. Ela me levou ao veterinário na semana passada. Ele me examinou e disse: Pulgas!
- Pulgas, onde ele pegou isso?
- Ele precisa tomar banho com remédio anti-pulga. Vai dar?
- Sim, claro. Deixo Fredinho aí e venho buscar depois.
Ai, Deus! Detesto quando fico perto daquela cachorrada latindo na minha orelha. Espirram água por todo lado. Sei que é o lugar onde todos nós tomamos banho, cada um dentro de uma banheira, de acordo com o tamanho. Mas... É horrível! Tomar banho é horrível, só é bom depois que estou limpinho e cheiroso.
Pois bem, percebi que minha dona estava preocupada com minhas coceiras e já falava que eu teria câncer de pele, motivo pela qual minha namorada foi sacrificada. E se acontecer comigo? Sei que ela está sofrendo com meu sofrimento, já a vi chorando por minha causa, mas meu final será o sacrifício mesmo, estou conformado. Não mais quero vê-la chorando pelos cantos, por minha causa.
Hoje, pela manhã, ouvi-a dizendo à Mári:
- Mári, estou com medo de que o Fredinho fique com câncer de pele... Essa coceira... A Nikita começou assim. Como sofria a pobrezinha com tanta ferida pelo corpo.
Até que foi levada ao veterinário, foram feitos exames e se constatou que ela estava mesmo com a terrível doença. O veterinário lhe disse;
- Olha, você já fez todo tratamento que podia fazer. Agora não tem mais jeito. Se o câncer passar pra medula dela será uma dor insuportável.
- E aí?
- O jeito é sacrificá-la.
Ela começou a chorar, eu estava junto, fui fazer companhia pra minha namorada.
- Ela sofrerá?
- Não, a gente dá uma anestesia antes da letal.
Ela não disse mais nada. Deixou a Nikita sobre a mesa e foi pagar pelo sacrifício. Nem sei como conseguiu chegar a casa, pois seus olhos pareciam chover. Mas chegamos, sãos e salvos.
Pois é, gente, hoje ela foi olhar por que eu me coçava tanto e descobriu meu corpo cheio de feridas. Correu pra Mári e perguntou:
- Você viu isso quando deu banho nele pela última vez?
- Não, não estava assim, de jeito nenhum.
Como minha dona já falara em me sacrificar durante essa semana, não titubeou.
- Não vou deixá-lo sofrer como Nikita sofreu. Basta o que ele sofre com essa doença.
Ela tomava seu café da manhã e eu me enrosquei nos pés dela. Ela se levantou, chamou o motorista e lhe disse:
- Você vai levá-lo, Wellington!
- Eu?
- É. Você.
- E se eu chorar?
- Pode chorar, eu já estou chorando.
Ele me chamou, com a voz embargada de emoção:
- Fredinho, vem!
Não esperei chamar duas vezes. Quem sabe, no caminho, ele mudasse de idéia e me jogasse na rua para alguém tomar conta de mim? Pensando bem, seria melhor que não fizesse isso. Eu morreria de qualquer maneira, então... Fui resignado para o cadafalso.
Tudo foi rápido, pois ela já tinha ligado pra lá falando sobre mim. Levaram-me para o sacrifício, ele pagou e saiu. Estou esperando a minha vez. Aqui tem fila pra morrer. Ainda bem que dão uma anestesia antes da injeção letal. Ai, vai o último cachorro, não quero nem olhar. Mas olhei. Ele não sofreu mesmo.
Chegou minha vez... Uma picadinha. Ai!
Pronto, apaguei. Graças a Deus... Também sou criatura de Deus, viu, gente? Agora, sim. Não sofrerei mais. Encontrarei com a Nikita e... Quem sabe, meu amigão? Será que ele foi pra lá e não deixaram eu saber? Saberei daqui a pouco e lhes digo. Peraí, estão me tirando desse mundo. Daqui a pouco chegarei lá. É só me livrar desse corpo... Um momento........................................................
 Pronto. Que lugar é esse? Que lindo! Olha lá quem vem se encontrar comigo! A Nikita! Ela está curada! Não tem nada! Que bom! Se eu soubesse disso há mais tempo... Já teria vindo. Meu Deus, quem vejo agora?! Meu amigão! Ele vem correndo e me pega no colo. Ele também está bom, não tem nada. Está bonito, forte, saudável, como todos aqui. Que bom, meu Deus! Ih, mas não estou gostando nada do que vejo na Terra. Ela está chorando... Ah, não! Assim, não vale! Ei, sei que vão me ouvir! Vê se não arrumem mais cachorros, hein? Damos um bocado de trabalho, viu? O que vocês passaram aí não foi brincadeira. E agradeço a todos que cuidaram de mim: Você, amigão, minha ex-dona, a Mári, Wellington, e Wallace que me dava remédio como se fosse um veterinário. Ele é bom nisso. Os cãezinhos gostariam de ser clientes dele.
Bem, pessoal, é isso, adeus! Estou feliz e sem dores. Não chorem por mim, por favor!
 
Monica de Camargo Coutinho
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 28/10/2009