A casa dos grandes pensadores
 

MONICA DE CAMARGO COUTINHO

 

 

 

A infância do menino dos olhos azuis do Alto São Francisco

                                                             Monica de Camargo Coutinho

Infância

José Geraldo Coutinho nasceu em Cunhas de Iguatama, município de Minas Gerais, em 28 de setembro de 1938. No dia do seu nascimento a pequena cidade de Cunhas ficou enfumaçada com o espocar de foguetes em homenagem ao primeiro varão da família. Zilma e Vilma nasceram primeiro e o pai queria muito um filho.

- Agora sim, terei meu Leônidas.

- O quê? Perguntou a mãe, abobada.

- Leônidas! Meu filho terá esse nome e será um grande jogador de futebol.

- Não, senhor! Eu prometi a Deus que se viesse um menino, seria chamado José Geraldo. E não será jogador nenhum. Será o que ele quiser, e tenho certeza de que será um grande homem, pois nasceu para brilhar, eu sinto.

E durante anos, no dia 28 de setembro, ele recebia cartas de sua irmã mais velha rememorando o feito.  Exponho, daqui a pouco, a última que ela escreveu, pois depois que seu filho mais velho atendeu ao chamado de Deus, Zilma perdeu o gosto de escrever, até de viver.

 

Aquele menino cresceu mimado pelo pai coruja e educado pela severa mãe D. Olímpia, carinhosamente chamada de Limpinha pelos parentes e amigos.

Ninguém o chamava de José Geraldo. Era Geraldinho pra cá, Geraldinho pra lá. Como toda criança fazia suas artes e era duramente castigado pela mãe. Aos seis anos já tinha obrigações leves. Levar os patinhos pra nadar na lagoa, fechar as porteiras, buscar verduras na horta, ajudar a tirar os fiapos das espigas de milho verde pra fazer mingau.

Certo dia, aborrecido, vingou-se dos patinhos que levaria para a lagoa. Para ficar livre daquele serviço inglório, fez seis buracos e enterrou cada patinho, vivo. Depois do ato de vingança explícita correu pra dentro de casa, com uma felicidade imprópria para sua idade. Sua mãe, que já lhe dera uma surra estranhou aquele comportamento.

- Geraldinho, o que tá fazendo aqui? Não é hora de levar os patinhos pra nadar?

- Já levei, mãe.

- Já?

- Já.

- Num deu tempo, não.

- Deu sim. Eu fui correndo.

- E onde estão os patinhos.

- No lugar deles, uai!

Desconfiada, pegou-o pelo braço e disse:

- Quero ver eles agora.

Antes de irem ela pegou o chicote. Sabia que precisaria dele, aquele menino não tinha jeito.

- Mãe, quero fazer xixi.

- Nada disso.

Desorientado seguiu a mãe até o local onde ficavam os patinhos, depois que voltavam da lagoa.

- Geraldinho, cadê eles?

- Num sei, mãe, tão por aí.

- Por aí, onde?

Depois de muito procurar D. Limpinha pegou-o pela orelha e disse:

- Cê vai me mostrar, agora, onde colocou os patinhos. Ou quer apanhar mais?

- Não, mãe, eu mostro!

- Onde estão?

- Ali.

- Ali, onde?

- Debaixo da terra.

- Ocê matou eles?

- Não, uai!

- O que fez, então?

- Enterrei eles vivos.

- Vivos? - E lá foi uma correiada na bunda dele.

- Aiiiiiiiiiiiiiiiii! Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

- Enterrou vivo?

- Enterrei.- Mais uma chicotada.

- Pra quê?

- Pra ver a terra mexer...

- Ah, é, seu diabo do inferno! Vamos pro quarto de apanhar.

- Mãe, não, pelo amor de Deus!

- Ocê teve amor a Deus quando sufocou os patinhos? - Mais uma chicotada.

- Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Pelo amor de Deus, para!

O pai, de longe, observava o sofrimento do seu querido filho, do seu Leônidas, que nunca seria um craque.

- Entra, entra!

Fonso entrou no meio.

- Limpinha, não acha que já bateu demais? Eu vi pela janela.

- Essa peste tem de apanhar é muito. Só faz besteira. Uma atrás da outra. Anda, entra pro quarto.

O olhar súplice do filho não impediu que a mãe o empurrasse e começasse a bater. Batia na bunda, nas pernas e braços.

- Ai, ai, ai, ai, aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

Os gritos do menino mordiam o coração do pai. E naquele dia ele apanhou muito, pois Limpinha fazia muita fé naquela criação de patos para ganhar dinheiro.

Quando o menino já estava exausto ela saiu do quarto deixando-o deitado no chão, soluçando sua dor e suas mágoas. “Ela me paga! Vou vingar essa surra, ela vai ver. Pensa que sou cachorro? Nem o Futrica apanha assim.”

Vencido pela dor e cansaço, adormeceu soluçando.

Na hora do almoço a Mariinha, que trabalhava lá, fazia tempo, foi levar almoço para ele.

- Num quero comer.

- Ocê percisa tomá banho pra ir pra escola.

- Num vô pra escola, não. Olha como tô todo marcado.

- Ih, Nossa Senhora Aparecida! Sua mãe num vai achá bão, não.

- Ocê diz pra ela qui morri.

- Minino, deixa de falá bestera.

- Vou fingi de morto. Fecha a porta e tranca por fora. Fala pra ela que fui pra escola.

- Ocê num jeito, não, né? Parece qui gosta de apanhá.

A mãe, sempre muito ocupada, não percebeu a trapaça. Na hora de chegar da escola ele pulou a janela, deu a volta, subiu as escadas, de mansinho, entrou no quarto, vestiu uma calça comprida, e passou, todo choroso, perto da mãe.

- Num cumprimenta, não?

- Bença!

- Aprendeu muito hoje?

- Aprendi que adulto num deve bater em criança. É covardia.

Ela arregalou os olhos. Estaria a professora tirando a autoridade materna?

- Ocê disse que apanhou?!

- Disse.

- E contou por quê?

- Contei e ela me colocou de castigo. Disse que sou fofoqueiro.

- Bem feito!

- Por que a senhora não faz isso também? Só me castiga?

- Por que ninguém te aguenta!

- Então por que meu pai me queria tanto?

- Porque todo homem acha que só menino é que é filho de verdade.

Enquanto ela se abaixou para enfiar a agulha no que remendava ele colocou língua pra ela.

- Mãe, me conta!

- O quê?

- A senhora não gosta de menino? Não sou seu filho? Só do pai?

Os olhos dela marejaram.

- Não é isso, Geraldinho. Você é muito atentado. Precisa de apanhar pra ficar bom.

- Um dia fujo dessa casa.

- O quê? Tá querendo apanhar de novo?

- Não, mãe. Ainda tô com a bunda ardendo. Vou entrá no riacho pra refrescar ela.

- E não demora, hein?

- Tá boooom!

Daquele dia em diante, passou a vestir três calças para diminuir os vestígios dos vergões do chicote.

 

Geraldinho tinha um irmão que nasceu um ano e meio depois dele. O Aziz, ou Zizinho, como era chamado. Era o queridinho da mãe, só porque dizia que seria padre. E como futuro padre, todas as estrepolias que aprontava eram debitadas no corpo do Geraldinho.

- Futuro padre não faz arte, né, mãe?

- É, meu filho! Não faz. Seria tão bom se Geraldinho seguisse seu exemplo.

Zizinho rolava de rir quando o irmão apanhava por causa de suas peraltices. A mãe não acreditava em quem não gostava de padre, mesmo que falasse a verdade.

Certo dia, uma das tias do Geraldinho foi passar uma semana na casa do irmão Fonso. Tinha horror de ver as surras que o pobrezinho levava apenas porque tinha uma vida de criança normal. Seu crime maior era não desejar ser padre como Zizinho. Vendo o sofrimento do menino, depois de uma semana, quando voltaria para casa, pediu ao irmão para deixar o menino passar uma semana com ela.

- Não fico sem ele, não, Nhanhá.

- Uma semana, só, Fonso.

- Deixa, pai, eu tou de férias.

- Sei não, ocê é muito arteiro.

- Prometo que fico quietinho, né, tia?

- É, você é muito bonzinho.

Limpinha ouvia, calada, aquele papo maluco. Deixar o menino solto, pois sim!

- Vai deixar, Fonso? Perguntou ela.

- Ele vai dar trabalho.

- Dou, não, mãe, prometo.

Fonso coçou a cabeça, olhava pra um, pro outro. Era seu modo de tomar decisões.

- Ah, pai, deixa, a tia tá com pressa.

- Sei, não. Lá tem muito escorpião. Se ele for mordido, lugar sem recurso....

- Eu tomo conta dele, Fonso, confia em mim!

- Está bem, mas vê lá, hein, Geraldinho, se não vai dar trabalho pra sua tia.

- Prometo, pai, prometo, disse ele correndo pro quarto pra arrumar suas roupas.

Ele olhou sua mãe com desafio, cara de vencedor. E ela pensava: Ah, que vontade de te dar uma surra! Pediu só porque estava perto dela e sabia que não apanharia.

Depois de quase uma hora Fonso mandou o caseiro arrumar a charrete e foram até a estrada esperar o ônibus passar.

Dentro da jardineira, com uma alegria fora do normal, ele sentou perto da janela, depois de perguntar:

- Posso, tia? Nunca viajei nesse negócio, só vou a cidade de charrete.

- Pode, filho, pode, disse alisando os cabelos dele.

Assim que chegaram ele foi entrando pela casa e perguntou:

- Vou dormir sozinho, tia?

- Vai, por quê?

- Lá em casa durmo com meu irmão. Ele ronca e peida a noite inteira. Quase não durmo.

Rindo, ela disse:

- Aqui você vai ter um quarto só pra você. Você vai dormir no meu quarto de costura, vem ver.

- Olha, que cama bonita!

- Toda sua.

- Posso deitar?

- Não, você está sujo de poeira, precisa tomar um banho.

- Agora?

- É, agora, depois vamos tomar café.

- Tem bolo?

- Você gosta?

- Adoro.

- Então vai tomar banho que num minutinho o bolo fica pronto.

 

Ele gostou de ficar ali. Queria ficar para sempre. Ali ele fazia de tudo e não apanhava. Por que sua mãe gostava tanto de bater nele? Será que tinha apanhado da sua mãe e queria se vingar nele?

No dia seguinte, acordou cedo. A tia já coara o café e arrumara a mesa.

- Tia, preciso ganhar dinheiro. O que posso vender daqui?

- Daqui de casa?

- É.

- Ah, não. Daqui nada. Você vendia alguma coisa da sua casa?

- Vendia.

- O quê?

- Quando era pequeno meu tio mandava  vender até quiabo seco.

Ela deu uma risada, com sua voz gutural por causa do hábito de fumar.

- E vendia?

- Não, eu chegava em casa chorando, todo mundo ria de mim, eu só tinha quatro anos. Aí meu tio, o Tonho, sabe? Ele me dava umas moedinhas.

- Você quer dinheiro pra quê?

- Pra comprar uma bicicleta. Sou maluco com uma. A mãe não deixa o pai me dar.

- Então você pode ir à padaria pedir para entregar pão nas casas, ir na banca de jornal, etc. Fazer pequenos serviços.

Ele não pensou duas vezes. Saiu, e como se fosse levado pelo vento chegou à padaria e perguntou ao dono se ele não precisava de um entregador de pão.

O dono olhou para ele e perguntou:

- Você não é muito pequeno pra trabalhar?

- Tou acostumado. Dou um duro danado na fazenda do meu pai.

- Ah, seu pai é fazendeiro e você quer entregar pão?

- Tou de férias, na casa da minha tia. Quero dinheiro pra comprá uma bicicleta, meu pai num dá.

- E entregando pão você dá conta de comprar uma?

- Vou fazê muita coisa. Vou entregá jornal, cortar grama, o que for preciso.

O homem o olhou de cima a baixo, e condoído lhe mostrou as casas onde deveria entregar os pães.

- E esteja aqui antes da sete, hein?

- Começo hoje?

- Pode começar.

Quando acabou de entregar os pães correu para a banca de jornal. O mesmo diálogo.

- Depressa, viu?

Na hora do almoço ele estava moído, cansado de tanto correr. Foi pra casa da tia, sentou na calçada e contou o dinheiro. Sua tia o chamou:

- Ganhou muito, Dinho?

Tristonho, respondeu:

- Desse jeito não compro nem bicicleta velha.

Condoída, disse:

- Hoje é o primeiro dia. Depois você vende mais.

- Sei, não... Povo pão-duro.

- Vai lavar as mãos para almoçar.

- Tou com fome, não, tia.

- Precisa comer, Geraldinho. Se chegar magro em casa, seu pai não deixa você vir mais aqui.

Ele entrou amuado. Comeu pouco, olhando as moedas que colocou num pires.

Depois do almoço sentou no sofá, ouviu um pouco de rádio até que foi dominado pelo sono.

No meio da semana as moedas tinham aumentado razoavelmente, mas nunca realizaria seu sonho. Quando esse pensamento assolava sua mente ele deixava escapulir umas lágrimas. Seu pai era rico, por que não lhe dava uma bicicleta? A mãe não deixava, senão ele não trabalharia.

Dois dias antes de voltar para casa, a tia dele foi pegar lenha para acender o fogo. Geraldinho, pensando em ganhar umas moedas quis ajudar.

- Deixa, filho, isso é muito pesado!

- Tem moeda?

Ela riu e disse:

- Está bem, tem moeda, vai buscar lenha.

Ele correu pra trás da casa. De repente a tia ouviu um grito acompanhado de um choro convulsivo. Assustada, correu ao local e viu o sobrinho rolando no chão, de dor.

- O que foi, Geraldinho? Machucou?

- Ai, ai, ai, ai, ai, ai!

- Meu Deus, me fala o que você tem?

Ele chorava e chorava. De repente, ela viu. O terror do Fonso atacara o menino. Escorpião. Ele fora picado. E agora? Naquela cidade sem recurso, como dizia o irmão.                - Deus do céu, me ajude!

Ela pegou o sobrinho nos braços, levou-o pra dentro de casa e o deitou no sofá. Ele continuava gritando, gritando, ela se enlouquecia, sem saber o que fazer. De repente, olhou para o armário e viu uma garrafa de vinho doce, que ganhou da comadre Manoela, no último natal. Abriu-a depressa, espalhou um pouco no local da picada, e esperou que o menino se acalmasse. Como isso não ocorreu, desatinada, ela encheu um copo e fez com ele bebesse. Ele dormiu a tarde inteira.

Depois que ele adormeceu Nhanhá ficou tranquila, e Fonso não perdeu seu Leônidas porque sua hora não era chegada.

No outro dia, ele olhou para o armário onde estava a garrafa de vinho, e com os olhinhos azuis buliçosos, perguntou:

- Tia, posso buscá mais lenha?

- Não senhor, basta o susto que você me deu ontem.

Dois dias mais tarde, ele estava de volta à sua incansável tormenta. De dentro da jardineira foi acenando pra tia até que ela desaparecesse sob a poeira avermelhada que subia do chão batido.

 

 

      Certa dia, quando Lalado tinha 12 anos, e Zizinho, 11, a mãe levantou mais cedo para tomar café, pois precisava sair. Quando entrou na sala viu um vulto saindo do quarto da empregada. Ah, já sabia quem era. De chicote em punho entrou no quarto dos meninos, pois Zizinho pediu para dormir com ele. Limpinha Descobriu o diabinho, puxou-o da cama e começou a lhe bater.

- Mãe, o que foi? Eu sonhava que pedalava uma bicicleta.

- Eu sei que bicicleta o senhor pedalava, viu, safado!

Zizinho, debaixo das colchas, ria baixinho. Ainda bem que tinha quem apanhasse por ele. Podia deitar e bordar, futuro padre não peca.

Quando a mãe saiu do quarto, secando o rosto com o dorso da mão, ele disse:

- Filho da puta, você me paga! Isso não vai ficar barato, não, viu?

- Mãe, o Lalado me chamou de....

- Para, para, para... Eu te uma moeda.

 

Durante alguns dias ele maquinou uma vingança.

Zizinho, o futuro padreco, tinha todos os direitos, inclusive, de tomar banho na bacia antes dele. Lalado só tomava depois que o irmão demorava o tempo que gostava, até que a água esfriasse. Era assim que demonstrava o “amor” que tinha pelo irmão que o pai adorava: fazendo maldades com ele. Inveja?

Numa quinta-feira, à tarde, Zizinho foi a cidade com a irmã mais velha e demorava muito. Lalado, todo choroso, acercou-se da mãe e pediu, humildemente:

- Mãe, posso tomar banho agora?

- Ficou doido? Não sabe que é nosso padrezinho que toma banho em água limpa?

- Tou com sono, mãe, ele tá demorando muito.

Ela ficou calada, polvilhando o coração dele de esperança.

- Posso, mãe? Tou com muito sono.

Ela coçou a cabeça e respondeu irritada.

- Pode, chato! E vê se não demora e não imunda a água.

Ele, feliz da vida, começou a tirar a camisa.

- Peraí. Vai lavar esses pés imundos, primeiro.

Zizinho nunca lavava o pé. A revolta maltratava aquele coração! Por que ele nunca lavava os pés antes de entrar? Mas fez o que ela mandou.

Entrou na bacia, a água, quentinha.

- Que delícia! Até que enfim, um banho limpo!

Como o irmão fazia, demorou o mais que pôde, e assim que se preparou para sair sentiu dor na barriga. Alô, idéia! Chegou a hora da vingança!

De cócoras dentro da bacia fez um enorme cocô, e deixou lá dentro, de presente para o padrezinho ficar cheiroso.

Enquanto ele vestia o pijama o padreco entrou apressado dentro do quarto de banho. Quando viu que o irmão já se lavara gritou:

- Mãe, ó mãe!

Ela entrou no quarto correndo.

- O que foi, Zizinho?

- Viu que o queridinho do papai tomou banho na minha frente?

Quase com medo do futuro padre, ela respondeu:

- Eu deixei, filhinho, ele estava com muito sono, e você demorou muito.

- Deixou, né? Tudo bem, eu tomo banho na água suja, disse com fingida humildade.

De longe, Lalado pensava: Você é melhor do que eu? Fico sujo de você todos os dias, por que não pode ficar de mim, um dia, que valerá por todos?

Despido, Zizinho entrou dentro da bacia e ficou passando a mão procurando o sabonete que sempre deixava dentro da bacia para que amolecesse. Como a luz da lamparina estava fraca, ele não viu o “sabonete” que pegou, e mesmo mais derretido que o normal, passou-o no corpo e no rosto. Lalado deu uma sonora gargalhada e sumiu na escuridão. Correu pra casa dos caseiros.

- Mãe, ó, mãe! Vem cá, manhê! Ai, merda, bosta, cu, saco!

- Que isso, filhinho? Quem vai ser padre, não fala palavrão, ouvi coisas horrorosas. Foi você mesmo ou foi seu irmão?

- Mãe, tou todo sujo de bosta! O Lalado cagou dentro da bacia! Eu quero outra água, agora!

- O que disse? – E chegou perto dele. Que mau cheiro! Teria ele cagado a podridão que vivia dentro dele? Pensou a mãe.

- Aquele diabo me paga, vou atrás dele.

     - Manhê! Vou ficar aqui fedido

     - Vai tomar banho na bica. É hoje que acabo com a raça do seu irmão.

Zizinho se limpou na toalha, jogou-a dentro da bacia e foi pra bica gelada, e Limpinha foi caçar o monstro.

Voltou cansada.

- Bateu muito nele, mãe?

- Nem achei aquele safado. Deve ter ido pra rua dormir na casa de algum tio, depois de contar mentiras.

- Ah, mãe, eu queria ver ele apanhar. É tão bom ver ele esperneando...

- Amanhã você vê. Ele vai apanhar o dobro.

Depois que Lalado relatou o acontecido ao Benvindo e Mariinha, caseiros da fazenda, condoídos, deixaram que ele dormisse lá na cama com o filho caçula Dedeus, com a condição de que ninguém ali não sabia de nada.

No dia seguinte, depois de tomar café na casa dos caseiros, parecendo pisar em ovos, entrou dentro de casa, foi ao quarto, pegou seu uniforme, correu pra casa dos caseiros, trocou-se lá e foi pra escola. 

A mãe estava intrigada com o sumiço do menino. Quando Mariinha entrou pra fazer o café encontrou a D. Limpinha sentada no tamborete que ficava perto do fogão a lenha.

- Ai, que susto! Por que levantou cedo assim? Tou atrasada? - perguntou Mariinha.

- Não. O Geraldinho sumiu desde ontem. Você não viu ele, não?

- Sumiu? Como assim, sumiu? - E coçou a cabeça, fingindo não saber de nada.

D. Olímpia contou a ela o que o peralta fizera.

- Ah, então é isso! - disse pensativa.

- Isso o quê? Sabe de alguma coisa?

- Não, é que... É que... Ele fez arte, né?

- Como sabe?

- Num sei, tou preguntano.

- Fez sim. Cagou na bacia onde o Zizinho tomava banho. Ficou todo sujo de merda. Sabe o que é ter o corpo sujo de merda? Eu preciso acabar com a raça daquele verme!

- Limpinha, ocê bate munto nele!

- E num é pra bater, não? Isso é coisa que se faiz?

- Num é, mais...

- Mais o quê?

- Ocê protege munto o Zizinho. Faz o Lalado ficá com raiva dele.

- Num tenho culpa se Lalado num quer ser padre.

- Isso é motivo pra bater tanto nele? Às veiz qué casá com uma menina bonita, tê fios...

- Casar... Isso é lá idade pra casar?

- Nem pra sê padre... Ocê acha qui o Zizinho já é padre... Qui é santo. Só o outro peca.

- Ele vai ser padre, ocê vai ver!

- Tomara! Assim, assisto missa aqui, né?

- Esse café sai ou não?

- A lenha tá meio verde, o fogo demora a pegar, cê sabe disso.

 

Lalado sabia que não adiantava fugir da mãe. O castigo seria dobrado quando ela o encontrasse, então, da escola foi direto pra casa enfrentar o chicote. Ao chegar, antes que a mãe o visse, correu ao quarto e vestiu três calças, assim, a surra seria menos dolorosa.

Quando saiu do quarto viu a mãe com o chicote na mão.

- Bença, mãe - disse, humildemente.

- Cê pensa que me engana?

- Mãe, eu pedi bença.

- Deus não abençoa meninos perversos como ocê.

- A senhora não é Deus.

- O que disse? Repete se for capaz.

- Mãe, eu pedi bença foi pra senhora, não foi pro Deus. Ele sabe que num sou ruim.

- Eu sei quem você é, Deus também sabe, e você irá pro inferno quando morrer.

Ele tentava encompridar aquele papo para adiar seu sofrimento.

- O que é inferno, mãe?

- Num sabe? Num aprendeu nada no catecismo?

- Esse negócio de inferno, não, mentiu.

- Eu vou te ensinar o que é um pouco do inferno, vem cá.

Pegou-o pelo braço e lhe deu uma chicotada na perna direita.

- Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

Outra.

- Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

- Para de gritar! – Outra lambada.

- Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii? Por que tá batendo nas pernas? Sempre bateu na bunda!

- Acha que sou boba? Vi você vestindo as calças (curtas).

Mais lambadas.

- Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

Bateu, bateu, bateu, até o pai chegar e tirá-lo das garras dela.

- Ocê quer matar o menino de tanto couro, Limpinha?

- Defende! Defende! Por isso ele fica cada dia pior.

O menino chorava abraçado às pernas do pai.

- Pai, quero ir embora dessa casa, a mãe não gosta de mim, só gosta do padreco fingido.

Ela levantou o chicote para atingi-lo, o pai segurou-o no ar.

- Perto de mim você não bate no meu Leônidas, no meu futuro fazendeiro, né, Lalado?

- Não, pai, a mãe nunca deixou eu jogar futebol com meus colegas. E num quero ser fazendeiro, não. Quero ir embora estudar.

- Quando terminar o primário ocê vai pro internato em Formiga fazer o ginasial, depois volta pra casa, tá muito bom de estudo. Vai saber mais do que nóis.

O menino olhou, ressabiado, para o pai. Como se dissesse: Vou estudar muito mais, quero ser doutor. Quero ganhar dinheiro, ficar rico. Quero ganhar o mundo, vocês verão.

Aquele ano era interminável, nada se fazia naquela cidade pacata, ainda bem que junho estava chegando e o povo gostava de fazer festas juninas. Até sua mãe fazia. Pular fogueira, comer batata doce assada, pé-de-moleque, canjica, quentão, milho verde, paçoca... Paçoca? Idéia pulando dentro da cabeça.

Ouvira o comentário da mãe que pedira à Marrinha para limpar o pilão, pois ambas socariam o amendoim no dia seguinte.

Naquele dia acompanhou os passos da caseira até quando a viu tirar a poeira do pilão e o lavou. Já elaborara um plano, mas precisava de algo mais para sua vingança. À noite encontrou a solução, e foi dormir. Às cinco horas da manhã sua barriga começou a doer. Era o laxante fazendo efeito. Levantou-se da cama, e de pijama correu ao local onde estava o pilão. Ajeitou-se como pôde para ficar sentado sem se esborrachar no chão, e esvaziou seu intestino. Com o pedaço de pano que levara limpou o botão e voltou correndo para seu quarto. Era só aguardar a cara da mãe. Sonolento, ainda dormiu um pouquinho, mas acordou com o barulho que faziam na cozinha. Esperou que as duas descessem para o porão. Com o coração aos pulos entrou no quarto que ficava acima daquele espaço, deitou no chão e espiou pelas frestas de madeira. Elas conversavam alegremente. Ele abafava um riso de felicidade. A senhora vai ver o que é passar raiva - pensou ele.

Quando a mãe olhou se o pilão estava mesmo limpo deu um grito de horror!

- Mariinhaaaaaaaaaaaaaaaaaa!

- O que foi, D. Olímpia!

- Ocê não disse que limpou o pilão, que até lavou?

- Lavei mesmo! Pru modi quê?

- Olha lá dentro!

- Cobra?

- Não, olha!

- D. Limpinha, num brinca comigo não.

- Eu sou lá mulher de brincadeira? Olha, anda!

Temerosa, a caseira se aproximou do pilão e teve a mesma reação da mãe do Lalado.

- Credo em cruzes! Quem fez essa borreira aí? E tá fresco, viu? É de hoje!

Lalado ria até ficar com dor de barriga. Rolava no chão. Foi seu melhor dia de glória naquela casa.

- Já sei quem fez isso. Vou lá no quarto dele.

Ao ouvir aquilo correu feito um louco para o quarto. Até chegar lá a mãe teria de subir vários degraus da tosca escada que dava acesso ao antigo casarão, herdado dos pais do Fonso, pai do menino que queria um filho jogador, bom de bola. Leônidas.

Ao entrar no quarto ficou surpresa. Ele estava todo coberto, roncava feito um porquinho gordo. Por via das dúvidas arrancou as cobertas dele.

- Ai, que isso? O que foi? Tou com sono, não é hora da aula ainda.

- O que andou aprontando?

- Aprontando? Que dia?

- Hoje, agora.

- Eu tava dormindo, mãe, a senhora viu. Cadê o Zizinho?

- Tá dormindo no outro quarto. Disse que ocê ronca munto.

- Eu também tava dormindo. Tava até roncando, né? O que foi agora? Veio me bater por quê? O que meu irmão malvado fez dessa vez?

- Ele não fez nada, quem apronta é você.

- O que aprontei agora? Eu tava dormindo, a senhora viu quando entrou aqui.

- Bom, já que te acordei, levanta. Tá quase na hora de ir pra escola.

- Tá bom...

Ele se trocou, lavou o rosto, tomou seu café e desceu as escadas, meio grilado. A mãe e Mariinha estavam inconsoláveis, sentadas num velho banco de madeira, perto do pilão. Ele se despediu delas, e de costas, ouviu a mãe dizer:

      - Ah, se eu pego o diabo que cagou no meu pilão!

 

      O fim do ano terminou. Depois de muita bagunça nas férias ele e o irmão Zizinho foram matriculados no Colégio Antônio Vieira, em Formiga onde José Geraldo Coutinho fez o ginasial e o Tiro de Guerra. Findo esse voltou para a fazenda ficando lá por uns tempos. Mas seu sonho era continuar os estudos, algo que o pai não aprovava, queria que o ele fosse fazendeiro, já que não virou Leônidas. Apesar de participar de jogos de futebol no colégio, e fazer parte da equipe, não era sua intenção ser jogador. Queria mesmo ganhar o mundo, e sabia que esse mundo estava bem distante da enfadonha fazenda onde o mundo parecia morno. O pai bateu pé e disse que ele não iria, que precisava de mais braços para aumentar o capital. Porém, ele não queria trabalho braçal, queria mergulhar de cabeça em algo que lhe desse futuro.

- Ocê pode até ir. Mas não conte com meu dinheiro pra nada.

- Eu me viro, pai.

- Sem dinheiro?

- Arrumo serviço assim que chegar em Belo Horizonte.

- É fácil assim? Espera sentado.

- Não me desanime, pai, eu quero estudar mais, quero ter meu próprio negócio.

- Não conte comigo pra nada, ouviu bem? Pode até passar fome. Esqueça que existo.

- Nem com sua bênção posso contar?

- Vou pensar.

Ele olhou para a mãe, que o chamou ao quarto dela.

- Geraldinho, eu confio em você. Por mim pode ir, eu te abençoo.

- E dinheiro pra ir, mãe? Eu não tenho.

- Olha, tenho umas economias aqui, eu te dou, mas vê se não gasta à toa.

Ele olhou, maravilhado, aquele dinheiro todo, nunca vira tanto em toda sua vida.

- Prometo, mãe, que te darei tudo de volta. A senhora vai se orgulhar de mim.

A mãe durona que lhe batia na infância estava do seu lado, apoiando-o, dando-lhe a força que precisava. Aquilo o animou bastante.

- Vou amanhã, mãe. Vou sair hoje pra me despedir dos parentes e amigos. Compro passagem pra Formiga, e de lá, pra Belo Horizonte.

- Em Formiga, você fica na casa do Rubens. Ele vai te acolher, por um dia.

- Pode deixar.

E assim foi feito. Zilma, sua irmã mais velha, que sempre lhe escrevia por ocasião do seu aniversário, antecipando a saudade e a dor que sua ausência provocaria, escreveu a primeira carta, depois que ele foi embora, com o seguinte título:

 

Dia inesquecível!

 

      28 de setembro, lembro-me bem.

 

Fechada no quarto, com tia Blandina e Vó Lica mamãe gemia com as dores do parto.

Assentado no terreiro da cozinha do paiolzão, onde era nossa casa, papai segurava a face esquerda enquanto fumava seu grosso cigarro de palha. Na minha inocência olhava tudo sem entender nada. De repente, Vó Lica abre a porta do quarto e grita:

- Fonso, é homem, é homem!

Papai tirou o chapéu de palha da cabeça, jogou-o no chão, deu um grito de alegria e saiu correndo.

Ao invés de ir ver se mamãe estava bem foi direto para a venda do Bitu e comprou quantas caixas de foguetes pôde carregar.

Ao chegar reuniu os empregados e soltaram tantos foguetes que o terreiro da cozinha ficou branco de fumaça.

Estava vingado. Vingado da decepção que eu e Vilma tínhamos lhe causado.

Desde que mamãe me esperava papai sonhava com um menino. Veio a Zilma, eu, nome que mamãe escolheu para mim. Na segunda gestação papai dizia:

- Agora tem de ser um menino.

Que decepção, outra mulher, a Vilma.

Creio que papai havia perdido as esperanças de ter um varão, por isso estava tão triste, fumando no paiol, tendo a certeza de que seria outra menina.

Depois do foguetório papai entrou no quarto. Você estava enrolado nuns paninhos tão lindos! Papai te pegou e apertou junto ao coração e chorou, chorou até soluçar.

- Vai se chamar Leônidas, pra ser bom de bola.

- Não, senhor - retrucou mamãe - É José Geraldo! Promessa que fiz.

Como papai estava muito agradecido a Deus por ter-lhe dado um menino aceitou sem discutir.

Assim você cresceu: magrinho, sardento, olhos azuis cor do céu, lindo!

Sempre espirituoso, trabalhador, desde pequenino. Aos quatro anos já vendia quiabo duro, brincadeira que o vovô fazia com os netos, mas você, na sua inocência, ia de porta em porta, oferecendo-os, e voltava chorando porque ninguém os comprava.

Vô Tônico ria de escorrer lágrimas, e para te consolar te dava uma moeda e comprava os quiabos duros.

Aos seis anos já guiava boi. Com o dinheirinho que ganhava comprava de tudo: leitoa, galinha, até um cachorro, que você batizou de Futrica. Você dizia que ia ficar muito rico.

O tempo foi passando e logo que apareceram os primeiros fios de barba você montou no cavalo dos sonhos e voou para a capital em busca de um novo ideal.

Ralou muito, passou até fome, pois papai, com raiva de ter perdido o filho tão ansiado, o orgulho dele, não quis te ajudar, para que você voltasse. Mas você não desanimou e venceu.

Ao lado de uma esposa leal e afetuosa formou uma linda família. Hoje você pode se gabar, é uma pessoa realizada, graças aos seus esforços e tenacidade.

Com um coração do tamanho de um bonde você adotou como filhos os irmãos e sobrinhos que não conseguiram o seu feito. Não cansamos de render a você as nossas homenagens e peço a Deus, todos os dias, que te faça mais venturoso ainda, e que cuide de sua saúde, pois você nos é muito querido e especial mesmo!

Hoje, no dia do seu aniversário te desejo tudo de melhor que Deus reservou aos bons, aqui na Terra.

Sua irmã mais velha, sua Dindinha,

Zilma.

 

Monica de Camargo Coutinho
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 30/07/2010