A casa dos grandes pensadores
 

MONICA DE CAMARGO COUTINHO

 

 

Os médicos de hoje

 

Hipócrates foi o maior médico da Antigüidade, e um dos maiores em todos os tempos. Sua atuação marca o fim da medicina mística baseada nas relações com os espíritos celestes. Hipócrates deu início à observação de fatos clínicos.

Escreveu vários livros sobre medicina, porém os mais famosos foram “Aforismos” e “Juramentos”. O primeiro constitui uma súmula sobre sua doutrina, que ficou famosa com a frase: “O que o remédio não cura, o ferro, cura; o que o ferro não cura, o fogo cura; o que o fogo não cura, é incurável”. *

O “Juramento”, que resume sua ética, é pronunciado até hoje, com algumas modificações e adaptações, nem sempre felizes, nas cerimônias de colação de grau dos médicos ocidentais.

Hipócrates ensinava que o conhecimento do corpo é impossível sem o conhecimento do homem como um todo.  Ele sabia que o corpo não é apenas um conjunto de órgãos, mas uma unidade viva que a natureza de cada um regula e harmoniza. “A doença provém do desequilíbrio dos humores: sangue, fleuma, bile (amarela e negra)” - escreveu ele. Todo corpo tem em si os elementos para se recuperar. É a própria natureza, e só ela cura. O médico deve limitar-se a segui-la.

Acontece, porém, que Hipócrates era médico por ideal. Ele tinha a capacidade para curar porque se preocupava com as pessoas que estavam doentes e, não com o dinheiro que ganharia.

Hoje, o que se vê, é o comércio da medicina. Infelizmente, a maioria dos médicos, já com consultórios montados, esquece daquele juramento no ato da colação de grau. Alguns médicos são tão sem escrúpulos que são capazes de deixar um doente morrer na portaria de um hospital, se ele não tem dinheiro para pagar uma consulta ou fazer um depósito como garantia de pagamento, em caso de internação. Todo mundo sabe de casos de morte por omissão médica, mas ninguém sabe de nenhuma punição por este tipo de crime.

A maioria dos médicos de hoje faz da medicina uma rentável profissão, e até o imposto de renda está incluindo na consulta. Com recibo a consulta ou cirurgia é mais cara.

As consultas têm tempo marcado. Quinze minutos por pessoa, se for por plano de saúde. Um absurdo! Como é possível examinar um corpo em tão pouco tempo? Uma pessoa doente sente-se confortada só em conversar com o médico. A recíproca, infelizmente, não é verdadeira, ele não está ali para bater papo, e sim, para ganhar dinheiro.

Ainda há bons médicos, daqueles que cuidaram da avó, da mãe, da neta. Há os que seguem a doutrina de Hipócrates, pois acreditam na relação médico-paciente. (Paciente mesmo!). Isso é importantíssimo no processo de cura, principalmente se a doença provém do desequilíbrio do homem - como disse o pai da medicina.

O exame clínico é necessário.  Porém, mais necessário que isso é o diálogo aberto e conciso em que o médico leva o cliente a ficar à vontade para relatar seus problemas.  Resolvendo-se os problemas o caminho está aberto para a cura.

Ainda bem que temos médicos que fazem da medicina um ideal, embora cobrem pelas consultas. Afinal de contas ele pagou para estudar, precisa cobrar para se sustentar. Mas não custa atender alguém que não possa pagar. Ele não ficará menos rico por isso. Ou mais pobre, se o for.

Há os ávidos por dinheiro.  Os mercenários são em larga escala. Gente desse nível não deveria lidar com valores humanos, deveriam procurar uma profissão que não ferisse a sensibilidade das pessoas. Não deveriam fazer do corpo humano uma máquina de ganhar dinheiro. Nessa escala estão incluídos outros profissionais que atuam na área humana: dentistas, psicólogos, enfermeiros, sociólogos, etc.

O marido de uma amiga recebeu alta do hospital onde se recuperava de um infarto. À noite, a esposa ligou para o médico que o atendera e lhe dissera que o marido estava mal, que precisava dele. O médico respondeu que não poderia ir vê-lo, tinha compromisso. Que ela lhe desse um remédio para dormir, ele devia estar tenso. No dia seguinte, ele estava morto. Havia tido um grave enfarto enquanto dormia sob o efeito do sedativo. Minha amiga telefonou ao médico, o marido precisava de um atestado de óbito. Se eu dissesse que ele cobrou CR1. 000,00 pelo atestado alguém acreditará? Pois é, cobrou, sem nenhuma dor de consciência. Sem nenhum escrúpulo. Ele deixa um cliente morrer e ainda cobra pela sua morte! A esposa do falecido não quis dar queixa porque eram amigos. Amigos?

Parabéns a todos que se preocupam com a saúde de seus pacientes, e não com o dinheiro que ganham ou ganharão. Graças a Deus ainda há profissionais que seguem, verdadeiramente, a doutrina de Hipócrates, e ganham seu sustento com dignidade.

 

* O que o remédio não cura (tratamento médico), o ferro cura (tratamento cirúrgico). O que o ferro não cura, o fogo cura (cauterização). O que o fogo não cura é incurável.


Monica de Camargo Coutinho
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 04/05/2006