Os médicos
de hoje
Hipócrates foi o
maior médico da Antigüidade, e um dos maiores em todos os
tempos. Sua atuação marca o fim da medicina mística baseada nas
relações com os espíritos celestes. Hipócrates deu início à
observação de fatos clínicos.
Escreveu vários
livros sobre medicina, porém os mais famosos foram “Aforismos” e
“Juramentos”. O primeiro constitui uma súmula sobre sua
doutrina, que ficou famosa com a frase: “O que o remédio não
cura, o ferro, cura; o que o ferro não cura, o fogo cura; o que
o fogo não cura, é incurável”. *
O “Juramento”,
que resume sua ética, é pronunciado até hoje, com algumas
modificações e adaptações, nem sempre felizes, nas cerimônias de
colação de grau dos médicos ocidentais.
Hipócrates
ensinava que o conhecimento do corpo é impossível sem o
conhecimento do homem como um todo. Ele sabia que o corpo não é
apenas um conjunto de órgãos, mas uma unidade viva que a
natureza de cada um regula e harmoniza. “A doença provém do
desequilíbrio dos humores: sangue, fleuma, bile (amarela e
negra)” - escreveu ele. Todo corpo tem em si os elementos para
se recuperar. É a própria natureza, e só ela cura. O médico deve
limitar-se a segui-la.
Acontece, porém,
que Hipócrates era médico por ideal. Ele tinha a capacidade para
curar porque se preocupava com as pessoas que estavam doentes e,
não com o dinheiro que ganharia.
Hoje, o que se
vê, é o comércio da medicina. Infelizmente, a maioria dos
médicos, já com consultórios montados, esquece daquele juramento
no ato da colação de grau. Alguns médicos são tão sem escrúpulos
que são capazes de deixar um doente morrer na portaria de um
hospital, se ele não tem dinheiro para pagar uma consulta ou
fazer um depósito como garantia de pagamento, em caso de
internação. Todo mundo sabe de casos de morte por omissão
médica, mas ninguém sabe de nenhuma punição por este tipo de
crime.
A maioria dos
médicos de hoje faz da medicina uma rentável profissão, e até o
imposto de renda está incluindo na consulta. Com recibo a
consulta ou cirurgia é mais cara.
As consultas têm
tempo marcado. Quinze minutos por pessoa, se for por plano de
saúde. Um absurdo! Como é possível examinar um corpo em tão
pouco tempo? Uma pessoa doente sente-se confortada só em
conversar com o médico. A recíproca, infelizmente, não é
verdadeira, ele não está ali para bater papo, e sim, para ganhar
dinheiro.
Ainda há bons
médicos, daqueles que cuidaram da avó, da mãe, da neta. Há os
que seguem a doutrina de Hipócrates, pois acreditam na relação
médico-paciente. (Paciente mesmo!). Isso é importantíssimo no
processo de cura, principalmente se a doença provém do
desequilíbrio do homem - como disse o pai da medicina.
O exame clínico
é necessário. Porém, mais necessário que isso é o diálogo
aberto e conciso em que o médico leva o cliente a ficar à
vontade para relatar seus problemas. Resolvendo-se os problemas
o caminho está aberto para a cura.
Ainda bem que
temos médicos que fazem da medicina um ideal, embora cobrem
pelas consultas. Afinal de contas ele pagou para estudar,
precisa cobrar para se sustentar. Mas não custa atender alguém
que não possa pagar. Ele não ficará menos rico por isso. Ou mais
pobre, se o for.
Há os ávidos por
dinheiro. Os mercenários são em larga escala. Gente desse nível
não deveria lidar com valores humanos, deveriam procurar uma
profissão que não ferisse a sensibilidade das pessoas. Não
deveriam fazer do corpo humano uma máquina de ganhar dinheiro.
Nessa escala estão incluídos outros profissionais que atuam na
área humana: dentistas, psicólogos, enfermeiros, sociólogos,
etc.
O marido de uma
amiga recebeu alta do hospital onde se recuperava de um infarto.
À noite, a esposa ligou para o médico que o atendera e lhe
dissera que o marido estava mal, que precisava dele. O médico
respondeu que não poderia ir vê-lo, tinha compromisso. Que ela
lhe desse um remédio para dormir, ele devia estar tenso. No dia
seguinte, ele estava morto. Havia tido um grave enfarto enquanto
dormia sob o efeito do sedativo. Minha amiga telefonou ao
médico, o marido precisava de um atestado de óbito. Se eu
dissesse que ele cobrou CR1. 000,00 pelo atestado alguém
acreditará? Pois é, cobrou, sem nenhuma dor de consciência. Sem
nenhum escrúpulo. Ele deixa um cliente morrer e ainda cobra pela
sua morte! A esposa do falecido não quis dar queixa porque eram
amigos. Amigos?
Parabéns a todos
que se preocupam com a saúde de seus pacientes, e não com o
dinheiro que ganham ou ganharão. Graças a Deus ainda há
profissionais que seguem, verdadeiramente, a doutrina de
Hipócrates, e ganham seu sustento com dignidade.
* O que o
remédio não cura (tratamento médico), o ferro cura (tratamento
cirúrgico). O que o ferro não cura, o fogo cura (cauterização).
O que o fogo não cura é incurável.
Monica de Camargo Coutinho
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- Publicação:
www.paralerepensar.com.br -
04/05/2006