A casa dos grandes pensadores
 
 
 

MONICA DE CAMARGO COUTINHO

 

 

 

        PATINHA

 

O que mais queria neste mundo era ter um cachorro. Papai não queria dar. Dizia que cachorro enche a casa de pulgas e morde tudo que encontra pela frente, pode até dar doença. Mesmo assim, queria ter um. Criança sem cachorro não tem graça. Criança sem cachorro não é uma criança feliz.

Papai não era insensível. Percebendo que faltava um cachorro na minha vida resolveu comprar um. Não era de raça porque não tinha dinheiro para isso. Nem era preciso. Eu queria um cachorro, mesmo que fosse vira-lata.

Ele não chegou limpinho. Porém, muito feliz. Seus olhinhos pretos buliçosos estavam sorridentes. Talvez aquilo significasse que ele estivesse esperando comida. Como sabia que ele chegaria pela hora do almoço, dei-lhe a que havia deixado, sobrar de propósito,  no meu prato. Papai já havia me falado que nada de dar comida pra cachorro. Que ele só comeria as sobras.

Quando acabou de comer levei-o para o tanque. Corno esperneou o pobrezinho! Pelo jeito, jamais havia tomado banho. Aquele caldo preto que saía de seu corpo imundo fazia meu estômago enjoar. Ainda mais quando ele, sem um pingo de paciência, sacudia-se todo, jogando aquele caldo preto no meu rosto.

Aquele ritual teria de ser repetido todos as semanas. Papai sempre dizia que cachorro que vive dentro de casa tem de ser limpo e sem pulgas.

Com o tempo, passei a fazer aquilo com satisfação. Já nem me importava que ele se sacudisse e me molhasse toda. O caldo preto não existia mais. O banho passou a ser questão de mera formalidade. 

O meu cachorrinho preto, de pêlos brilhantes, era a alegria da casa. Para minha satisfação eu era a alegria dele também. Todas as tardes, quando chegava do colégio ouvia seus gritinhos estridentes, quando eu subia as escadas de casa. Ele pulava em mim, me lambia, fingia que estava me mordendo. Patinha era lindo. Apesar do nome feminino ele era macho. As patinhas eram voltadas para fora. Então percebi que esse nome era a cara dele.

Patinha, como todo cachorro que se preze, também fazia artes. Quebrava as coisas, mordia os sapatos dos meus irmãos, e se escondia debaixo da minha cama, com medo de apanhar. Não me importava muito com suas artes, mas papai ficava furioso. Se não o protegesse ele bateria nele. A única coisa que Patinha fazia e não me deixava nem um pouquinho satisfeita era quando mordia os fundos de minhas calcinhas. Se a calcinha era nova, eu até chorava, mas nunca tive coragem de bater nele.

- Bem-feito! dizia minha mãe - Já cansei de falar pra lavar as calcinhas na hora do banho e pendurar no varal...

Patinha tinha bom coração. Ficava triste após seu mal-feito, e ficava me lambendo e esfregando seu focinho no meu colo, como se estivesse pedindo desculpas. Outra arte que fazia de vez em quando era dar uma fugidinha para encontrar seus amigos caninos, ou então arrumar uma namorada. Era o único momento em que lhe dava umas palmadinhas. Tinha um medo louco de que ele fosse muito longe e não voltasse mais.

Naquele domingo alguém havia esquecido o portão aberto. Quando cheguei da igreja, não tive dúvida. Patinha havia fugido. Cachorro também gosta de passear, de ver movimento, encontrar outros cachorros para se cheirarem, e até mesmo fazer xixi ao pé da árvore.

Após verificar que ele não estava em casa, saímos, papai, minha irmã caçula e eu, a procurá-lo pelas ruas vizinhas e lotes vagos. Papai tinha um laço na mão para prendê-lo. Um laço que não me dava nenhuma esperança.

- Não adianta procurar mais. Vamos embora – disse papai, depois de algum tempo.

- Papai, só mais um pouquinho! Vamos procurar mais um pouquinho, papai!

- Cachorro sabe o caminho de casa. Se quiser, ele volta - disse pegando-me pela mão.

- Mas papai...

- Vamos embora, Monica, já disse!

Eu não podia acreditar, e sentia até uma certa revolta. Como um cachorro que eu amava tanto, que fiz tudo para ele ser feliz lá em casa teve a coragem de me abandonar, sem pelo menos, um abano de rabo? 

Tirei minha roupa domingueira e me sentei na varanda, sem nem ter tomado meu café. Com quem iria dividir meu pedaço de bolo? Papai ficava passando pra lá e pra cá, olhando pra minha cara, como se estivesse querendo ler na minha alma. Não dizia nada. Sabia que não tinha palavras para me consolar. Eu ali sozinha, sem ter com quem dividir minha dor...

Continuei sentada até que minha irmã chegou, e foi unir suas lágrimas às minhas.

- Você vai ficar sentada aqui o dia todo?

- Enquanto Patinha não chegar, não vou comer.

- E se ele não chegar?

- Ele vai chegar.

Três horas mais tarde, ouvi um barulho. Meu coração bateu de alegria. Levantei-me de um salto. Fui ao portão. Vi seus olhinhos negros e buliçosos. Graças a Deus era o Patinha do meu coração. Com que alegria fui ao seu encontro!...

Esquecendo que havia prometido a mim mesma lhe dar uma surra para que não mais fugisse, ajoelhei-me, afaguei sua cabecinha e o beijei. Naquele momento, percebi que seus olhinhos negros estavam vidrados. E seu corpo, todo retorcido. Havia sido atropelado.

Não tive coragem de carregá-lo. Patinha subiu as escadas com muito custo, arrastou-se pela varanda afora e foi deitar-se debaixo da mesa onde eu fazia meus deveres escolares, lugar onde costumava estar quando queria ficar pertinho de mim.

Tomei aquele gesto dele como uma forma de pedir desculpas pela travessura que lhe custou a vida. Também, para me dizer adeus. Seus olhinhos vidrados piscaram duas vezes. Estavam se despedindo de mim, para sempre. Abracei-me a ele, chorando muito.

- Patinha, por que fez isso comigo, por quê? Éramos tão felizes!... Não vou agüentar viver sem você. Vou chorar a minha vida inteira, por você.

Ele já não me ouvia nem podia sentir minhas lágrimas. Pobre Patinha, como pôde ser tão ingênuo? Ir para a rua sozinho...

Percebi papai perto de mim. Aposto que desejava chorar também. Só estava sem coragem. Creio que adultos não choram por causa de cachorros. Devem ter vergonha de mostrar fraqueza.

Afaguei-lhe a cabecinha inerte e fechei seus olhinhos vidrados. Papai deu uma fungada comprida e disse:

- Monica, vamos tirá-lo daqui.

Fiquei apavorada ao ouvir aquilo.

- Não, papai! Por favor, não!

- Ele não pode ficar aqui, filha!

- Só até amanhã, papai.

- Não, filhinha, não se esqueça de que ele está morto.

- Papai, por favor! Pelo amor de Deus que o senhor tanto ama!

- Sinto muito, filha!

Mamãe, de longe, observava a cena. Não quis olhar o Patinha morto. Ivanir estava chorando comigo, sentindo a mesma dor, nosso Patinha estava morto de verdade.

- Vamos, filha, largue-o!

- Papai, vou me despedir dele, primeiro. Vou carregar ele um pouquinho, quer carregar também, Ivanir?

Ela disse que sim. Papai balançou a cabeça, negativamente, já sem conseguir reprimir as lágrimas, pois suas duas filhas caçulas estavam sofrendo muito. Era muito sentimental também, apesar de durão com a gente.

- Só um pouquinho, papai. Ele não está machucado por fora, e está quentinho ainda, olha, coloca a mão nele.

- Está bem, só um pouquinho.

Passei meu rosto em seu focinho frio. Beijei sua cabecinha brilhante e limpa, havia tomado banho no sábado. Morreu limpinho.

- Monica, agora basta! Temos de levá-lo embora.

Só mais um pouquinho. Carrega ele, Ivanir! - disse à minha irmã.

Corri ao meu quarto, e peguei a caixa de papelão em que ele dormia. Coloquei-o dentro, e fomos para a rua.

- Papai, vamos enterrar ele nesse lote florido. Ele adorava brincar aqui. Ficava correndo atrás das borboletas...

Patinha não morreu, para mim. Era um cachorro especial, diferente. Depois do Patinha, sempre tive cachorros. E nos olhos de cada um deles eu sinto o olhar do meu Patinha. Quando algum cachorro adoece ou morre, eu choro como se ele fosse alguém da minha família. Choro como se estivesse chorando pelo meu primeiro e grande amigo Patinha.

 

(Essa história foi escrita por mim, aos 13 anos, e corrigido pela escritora adulta Monica, que ainda sente saudades do Patinha).


Monica de Camargo Coutinho
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 10/03/2006