O
que mais queria neste mundo era ter um cachorro. Papai não
queria dar. Dizia que cachorro enche a casa de pulgas e morde
tudo que encontra pela frente, pode até dar doença. Mesmo assim,
queria ter um. Criança sem cachorro não tem graça. Criança sem
cachorro não é uma criança feliz.
Papai não era insensível. Percebendo que faltava um cachorro na
minha vida resolveu comprar um. Não era de raça porque não tinha
dinheiro para isso. Nem era preciso. Eu queria um cachorro,
mesmo que fosse vira-lata.
Ele
não chegou limpinho. Porém, muito feliz. Seus olhinhos pretos
buliçosos estavam sorridentes. Talvez aquilo significasse que
ele estivesse esperando comida. Como sabia que ele chegaria pela
hora do almoço, dei-lhe a que havia deixado, sobrar de
propósito, no meu prato. Papai já havia me falado que nada de
dar comida pra cachorro. Que ele só comeria as sobras.
Quando acabou de comer levei-o para o tanque. Corno esperneou o
pobrezinho! Pelo jeito, jamais havia tomado banho. Aquele caldo
preto que saía de seu corpo imundo fazia meu estômago enjoar.
Ainda mais quando ele, sem um pingo de paciência, sacudia-se
todo, jogando aquele caldo preto no meu rosto.
Aquele ritual teria de ser repetido todos as semanas. Papai
sempre dizia que cachorro que vive dentro de casa tem de ser
limpo e sem pulgas.
Com
o tempo, passei a fazer aquilo com satisfação. Já nem me
importava que ele se sacudisse e me molhasse toda. O caldo preto
não existia mais. O banho passou a ser questão de mera
formalidade.
O
meu cachorrinho preto, de pêlos brilhantes, era a alegria da
casa. Para minha satisfação eu era a alegria dele também. Todas
as tardes, quando chegava do colégio ouvia seus gritinhos
estridentes, quando eu subia as escadas de casa. Ele pulava em
mim, me lambia, fingia que estava me mordendo. Patinha era
lindo. Apesar do nome feminino ele era macho. As patinhas eram
voltadas para fora. Então percebi que esse nome era a cara dele.
Patinha, como todo cachorro que se preze, também fazia artes.
Quebrava as coisas, mordia os sapatos dos meus irmãos, e se
escondia debaixo da minha cama, com medo de apanhar. Não me
importava muito com suas artes, mas papai ficava furioso. Se não
o protegesse ele bateria nele. A única coisa que Patinha fazia e
não me deixava nem um pouquinho satisfeita era quando mordia os
fundos de minhas calcinhas. Se a calcinha era nova, eu até
chorava, mas nunca tive coragem de bater nele.
-
Bem-feito! dizia minha mãe - Já cansei de falar pra lavar as
calcinhas na hora do banho e pendurar no varal...
Patinha tinha bom coração. Ficava triste após seu mal-feito, e
ficava me lambendo e esfregando seu focinho no meu colo, como se
estivesse pedindo desculpas. Outra arte que fazia de vez em
quando era dar uma fugidinha para encontrar seus amigos caninos,
ou então arrumar uma namorada. Era o único momento em que lhe
dava umas palmadinhas. Tinha um medo louco de que ele fosse
muito longe e não voltasse mais.
Naquele domingo alguém havia esquecido o portão aberto. Quando
cheguei da igreja, não tive dúvida. Patinha havia fugido.
Cachorro também gosta de passear, de ver movimento, encontrar
outros cachorros para se cheirarem, e até mesmo fazer xixi ao pé
da árvore.
Após verificar que ele não estava em casa, saímos, papai, minha
irmã caçula e eu, a procurá-lo pelas ruas vizinhas e lotes
vagos. Papai tinha um laço na mão para prendê-lo. Um laço que
não me dava nenhuma esperança.
-
Não adianta procurar mais. Vamos embora – disse papai, depois de
algum tempo.
-
Papai, só mais um pouquinho! Vamos procurar mais um pouquinho,
papai!
-
Cachorro sabe o caminho de casa. Se quiser, ele volta - disse
pegando-me pela mão.
-
Mas papai...
-
Vamos embora, Monica, já disse!
Eu
não podia acreditar, e sentia até uma certa revolta. Como um
cachorro que eu amava tanto, que fiz tudo para ele ser feliz lá
em casa teve a coragem de me abandonar, sem pelo menos, um abano
de rabo?
Tirei minha roupa domingueira e me sentei na varanda, sem nem
ter tomado meu café. Com quem iria dividir meu pedaço de bolo?
Papai ficava passando pra lá e pra cá, olhando pra minha cara,
como se estivesse querendo ler na minha alma. Não dizia nada.
Sabia que não tinha palavras para me consolar. Eu ali sozinha,
sem ter com quem dividir minha dor...
Continuei sentada até que minha irmã chegou, e foi unir suas
lágrimas às minhas.
-
Você vai ficar sentada aqui o dia todo?
-
Enquanto Patinha não chegar, não vou comer.
- E
se ele não chegar?
-
Ele vai chegar.
Três horas mais tarde, ouvi um barulho. Meu coração bateu de
alegria. Levantei-me de um salto. Fui ao portão. Vi seus
olhinhos negros e buliçosos. Graças a Deus era o Patinha do meu
coração. Com que alegria fui ao seu encontro!...
Esquecendo que havia prometido a mim mesma lhe dar uma surra
para que não mais fugisse, ajoelhei-me, afaguei sua cabecinha e
o beijei. Naquele momento, percebi que seus olhinhos negros
estavam vidrados. E seu corpo, todo retorcido. Havia sido
atropelado.
Não
tive coragem de carregá-lo. Patinha subiu as escadas com muito
custo, arrastou-se pela varanda afora e foi deitar-se debaixo da
mesa onde eu fazia meus deveres escolares, lugar onde costumava
estar quando queria ficar pertinho de mim.
Tomei aquele gesto dele como uma forma de pedir desculpas
pela travessura que lhe
custou a vida. Também, para me dizer adeus. Seus olhinhos
vidrados piscaram duas vezes. Estavam se despedindo de mim, para
sempre. Abracei-me a ele, chorando muito.
-
Patinha, por que fez isso comigo, por quê? Éramos tão
felizes!... Não vou agüentar viver sem você. Vou chorar a minha
vida inteira, por você.
Ele
já não me ouvia nem podia sentir minhas lágrimas. Pobre Patinha,
como pôde ser tão ingênuo? Ir para a rua sozinho...
Percebi papai perto de mim. Aposto que desejava chorar também.
Só estava sem coragem. Creio que adultos não choram por causa de
cachorros. Devem ter vergonha de mostrar fraqueza.
Afaguei-lhe a cabecinha inerte e fechei seus olhinhos vidrados.
Papai deu uma fungada comprida e disse:
-
Monica, vamos tirá-lo daqui.
Fiquei apavorada ao ouvir aquilo.
-
Não, papai! Por favor, não!
-
Ele não pode ficar aqui, filha!
-
Só até amanhã, papai.
-
Não, filhinha, não se esqueça de que ele está morto.
-
Papai, por favor! Pelo amor de Deus que o senhor tanto ama!
-
Sinto muito, filha!
Mamãe, de longe, observava a cena. Não quis olhar o Patinha
morto. Ivanir estava chorando comigo, sentindo a mesma dor,
nosso Patinha estava morto de verdade.
-
Vamos, filha, largue-o!
-
Papai, vou me despedir dele, primeiro. Vou carregar ele um
pouquinho, quer carregar também, Ivanir?
Ela
disse que sim. Papai balançou a cabeça, negativamente, já sem
conseguir reprimir as lágrimas, pois suas duas filhas caçulas
estavam sofrendo muito. Era muito sentimental também, apesar de
durão com a gente.
-
Só um pouquinho, papai. Ele não está machucado por fora, e está
quentinho ainda, olha, coloca a mão nele.
-
Está bem, só um pouquinho.
Passei meu rosto em seu focinho frio. Beijei sua cabecinha
brilhante e limpa, havia tomado banho no sábado. Morreu
limpinho.
-
Monica, agora basta! Temos de levá-lo embora.
Só
mais um pouquinho. Carrega ele, Ivanir! - disse à minha irmã.
Corri ao meu quarto, e peguei a caixa de papelão em que ele
dormia. Coloquei-o dentro, e fomos para a rua.
-
Papai, vamos enterrar ele nesse lote florido. Ele adorava
brincar aqui. Ficava correndo atrás das borboletas...
Patinha não morreu, para mim. Era um cachorro especial,
diferente. Depois do Patinha, sempre tive cachorros. E nos olhos
de cada um deles eu sinto o olhar do meu Patinha. Quando algum
cachorro adoece ou morre, eu choro como se ele fosse alguém da
minha família. Choro como se estivesse chorando pelo meu
primeiro e grande amigo Patinha.
(Essa
história foi escrita por mim, aos 13 anos, e corrigido pela
escritora adulta Monica, que ainda sente saudades do Patinha).