A casa dos grandes pensadores
 

MONICA DE CAMARGO COUTINHO

 

 

Quantidade x Qualidade

 

Há um aforismo que diz: Quantidade não significa qualidade.

Por que não? Se um produtor de cosméticos engarrafar apenas quatro frascos de xampu hoje, e engarrafar 500 ou 1.000 frascos amanhã, com os mesmos componentes químicos, amanhã, o que afetaria a qualidade dos mesmos? Nada!

Não sei se foi Rubem Braga ou Rubem Alves, Gabriel García Marques, tenho certeza, deixaram engavetados por uns 20 anos, textos que não acharam bons. Foram lapidando-os durante esse período. O que mudaram no texto? A idéia principal? Então já não era o mesmo texto. O que modificaram no texto? A narrativa, a estética, corrigiram os erros? Não sei, pois não vi os originais. Mas li o texto engavetado do García Marques. Ele mesmo disse que o publicava porque não conseguira seu objetivo. O texto deveria ser uma obra-prima, se fosse o tempo o fator de qualidade, mas não é.

Não é preciso 20 anos para escrever ou melhorar um texto. Se a idéia original, o tema, não for bom, poderá ficar até 100 anos sendo lapidada, que não virará obra de gênio.

Nada achei de original no que escreveu. Um texto normal que qualquer escritor pode escrever em menos de uma semana, ou mesmo, num dia. Os 20 anos engavetado, não melhoraram a história.

Estou me lembrando disso porque muita gente fala que quantidade não é qualidade, quando digo que já publiquei 27 livros em 18 anos, e tenho mais 10 prontos. Sei que não sou nenhum gênio, tampouco a melhor, mas por ser escritora compulsiva, digo que melhorei na escrita, depois dos primeiros livros. Há pessoas que já nascem perfeitas em tudo que fazem desde o começo. São os gênios, e atualmente, não vejo nenhum gênio nessa área. Não digo que sejam gênios, mas entre os vivos destaco a literatura engajada e futurista de Nélida Piñon, Clarisse Lispector e Lygia Fagundes Telles, vejam que lindo!


(...) "Com a ponta da língua pude sentir a semente apontando
sob a polpa. Varei-a. O sumo ácido inundou-me a boca. Cuspi
a semente: assim  queria escrever, indo ao âmago do âmago
até atingir a semente resguardada lá no fundo como um feto".

Do livro (Verde lagarto amarelo).

Entre os homens, cito João Ubaldo Ribeiro. Se há outros não conheço, pois só li livros desses autores que citei.

 

 

Seria a frase em itálico, que desejavam Rubem e García? Lígia não precisou de vinte anos para isso. Não é escrever um livro de cinco em cinco anos, ou mais tempo, que o fará melhor, pois “O que é bom, nasce pronto”. E se não nasceu tão bom, dar umas pinceladas, para isso existe a revisão e o copydesk.

 

Continuando meu raciocínio, se um escritor não pratica constantemente a escrita, por que seus livros serão melhores só por que demorou a publicá-los? Tudo que se faz repetitivamente tende a melhorar, se a pessoa tiver dom para o que pratica. Se não tiver, pode praticar até cem anos, que jamais fará bem o que deseja. Se um advogado só defende causas, esporadicamente, como terá experiência na profissão? Se um médico só opera de vez em quando, como terá prática em cirurgia? Desse modo, ninguém se aprimora ou se especializa. Tanto o advogado, médico, ou qualquer outro profissional, mesmo que não sejam os melhores em suas profissões, estarão sempre aprendendo, se praticarem sempre. É isso que faço. Sei que estou longe de ser a melhor, mas também não sou a pior, mas procuro fazer o melhor que posso.


Monica de Camargo Coutinho
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 23/02/2007