A casa dos grandes pensadores
 

MONICA DE CAMARGO COUTINHO

 

 

                                      
 
 
 Que saudade, meu Brasil!

 

Quando a vida é ótima achamos que ela é apenas boa. Quando é boa achamos que é ruim. Quando é ruim, nem se fala, está péssima! De qualquer maneira, a vida nunca está boa para ninguém. Temos sempre a mania de não dar valor a nada. Nunca estamos satisfeitos. Reclamamos de tudo, como se nossas lamúrias fossem melhorar o rumo da vida.
            Pois é, ó meu! Estava na maior fissura viajando para o exterior com meus pais. Na maior mordomia conheci o Japão, Cingapura, Malásia, lndonésia (em Bali, a Ilha da Fantasia), Bangkok, Hong Kong, Shangai e Beijin (capital da China, conhecida por nós, como Pequim).
            Da milenar cultura oriental demos um enorme salto e fomos para San Francisco, nos Estados Unidos.  Eu, Luiz Cláudio, Kaká para os parentes, e Kamboja para os amigos, 18 aninhos nas costas, atraído pelo brilho e cores de Los Angeles, onde já havia estado durante três dias, antes de viajar para a Ásia, pedi a meus pais permissão para ficar. Permissão, falou, bicho? Dá até vontade de rir, não dá? Pô! Tamanho marmanjo pedindo permissão!.. Tá bom, fui bem criado, acho que os filhos devem uma certa obediência aos país. Obediência ou satisfação, sei lá. Mas, no meu caso, foi obediência mesmo! Ou certo medo de enfrentar um país estranho, sozinho. E se eu adoecesse? E se entrasse numa fria? Para quem apelaria?
            Estava doido pra ficar. Ao mesmo tempo, queria que eles não deixassem, não sei. Talvez, dessa indecisão, meu espírito de obediência entrando em ação. Estava confuso, mas a presença de meu amigo Fernando, que já estava morando lá, deu-me certa tranquilidade. Enchi a cara de coragem e falei com papai. Para minha surpresa, mamãe já concordara, e até falou com ele sobre minha vontade de ficar ali por uns tempos.
            - E aí, pápi? Posso ficar por aqui uns três meses? Quero ralar um pouco. Quero enfrentar a vida sozinho.
            - Três meses?
            Poxa! Ele achou muito. Teria saudade de mim.
            - É, mais ou menos três meses - respondi, louco para soltar a pulga que estava atrás de minha orelha.
            - Não, senhor...
            Poxa! Acabou meu barato.
            -... Só deixo, se ficar um ano. Já que deseja ralar, vai ralar direitinho.
            Putz! O veio havia endoidado de vez!
            - Um ano, pápi? Por quê? Só quero aprender um pouco de inglês. Aprendo rapidinho. Nuns três meses.
            - Você não disse pra sua mãe que precisa ter experiência? Pra amadurecer e ter experiência, você vai precisar de pelo menos um ano, na escola da vida.
            Fiquei sem saber o que dizer, de queixo caído. Um ano longe da família, de meus amigos, tudo!
            - Com o dinheiro que economizou na Ásia e com o que, certamente, sua mãe já te deu, vai ficar aqui três meses gastando-os. Quando acabar, volta pra casa com mais uma mordomia nas costas. Não senhor. Se quiser ficar tem de ser um ano. É pra ralar mesmo!
            Eu ouvia atentamente, pensando no que responder, quando meu velho acabasse de falar. Agora, já não se tratava de permissão, mas de uma decisão minha. E estava pesando pra caramba! Um ano! Pô! Que loucura! E agora? Nossa! Que dilema, cara!
            - Seus irmãos já estiveram aqui. Você sabe o que passaram e pastaram. E voltaram pra casa sem dinheiro nenhum, depois de ter dado aquele duro todo, como disseram.
            - Pois é, Luiz Cláudio, é só você não fazer como seus irmãos. Eles erraram. Faça diferente, mamãe falou, virando o rosto. (Aposto que era para enxugar uma lágrima, como era melosa!).
Fiquei pensando... Pensando. Lembrando das coisas que o Fernando havia falado pra mamãe.           “Pode ficar sossega­da, Monica, prometo que cuido dele direitinho. Ele vai morar lá em casa, empresto um lençol pra ele, arrumo um emprego onde trabalho, essas coisas. E não vou deixar fazer nada errado, pode crer. Prometo que vou cuidar dele mesmo.”
            Era uma decisão minha. E resolvi topar. Era homem ou rato?
            Sabia das dificuldades que enfrentaria. Não teria o dinheirinho da mamãe quando o meu acabasse. Não teria roupa limpa pendurada no armário a tempo e hora que quisesse; aquela comidinha caseira, filmes no vídeo, com uma bacia de pipocas no colo, barras de chocolate e um litro de coca-cola, do lado. E outras coisas que só se têm dentro do lar. Porém juro que não pensei que fossem tantas dificuldades para enfrentar, cara! Primeiro, foi o emprego que demorou a sair. Eu já pagava por uma vaga onde estava morando. (Lá é tudo dividido. Ninguém pode se dar ao luxo de fazer bonito para os amigos. Ninguém dá nada pra ninguém). Meu parco dinheirinho estava se evaporando a olhos vistos. Nada podia fazer, a não ser, economizá-lo, o máximo que podia. Meu almoço era um pacote de pipocas muito insossas e meu jantar, bem... Já era mais farto: um cachorro quente e um copo de coca-cola. Afinal, depois de um dia inteiro movido a isopor, merecia um jantarzinho melhor. Dou, mesmo, graças a Deus, de poder me dar ao luxo de comer um sanduíche. Quem já passou fome, sabe muito bem o que um cachorro quente ou frio representa para o estômago vazio e quase grudado nas costas. E pra dormir? Se meu regime forçado não tivesse me roubado alguns quilinhos, mal caberia no sofá que me fora destinado. Sofre, diabo! Não queria ficar aqui? Não pensou que a vida seria uma maravilha? Toma, distraído!
            Havia as coisas boas também, como esquiar na neve, nos dias de folga, em Big Mountain (Big Bear), pitoresco lugar perto de Los Angeles. Ou pegar uma praia beleza, uma danceteria, um barzinho. Economizava pra isso. Queria ter a oportunidade de conhecer lugares lindos, que jamais conheceria, se não estivesse fazendo aquele sacrifício, depois que arrumei emprego.
            Quando saía para me divertir, principalmente, quando estava esquiando, pensava que aqui era o melhor lugar do mundo, mas à noite, naquele sofazinho estreito, olhando para aquele teto escuro de fumaça, a saudade do pessoal batia. Bicho, que coisa horrível! Que sensação de perda! O coração ficava tão pesado que, às vezes, pensava que ele ia parar no estômago. Eu, o caçulinha da casa, sozinho! Sofrendo o pão que o diabo amassou!..
            Mamãe me dissera que eu podia telefonar uma vez por mês, a cobrar. Que as outras vezes que telefonasse teria que ser com meu dinheiro. Mas que dinheiro, bicho? Estava quase morrendo de fome! E eu telefonava mesmo! Eles me castigavam de lá, eu os castigava de cá. Não estava nem aí se o papai estava dando bronca por causa das contas telefônicas. A saudade era demais, cara! Ninguém aguenta, não! Pelo menos o consolo de ouvir a voz do pessoal...
            Depois que o Fernando, não aguentando mais, tirou o time de campo, tudo ficou pior, porque perdi um amigo querido que me apoiava e confortava quando o peso da saudade ficava maior do que podia suportar.
            Hoje, ganho melhor e telefono mais vezes, sem dor de consciência. Mas, os telefonemas não atenuam a saudade. Pelo contrário, quando ouço a voz dos meus familiares tudo fica pior. Torço pra que digam que estão com saudade de mim e me liberem da minha prisão de um ano. Ninguém fala nada. Meu coração fica apertado, às vezes, eu, com mil anos de revolta. Quando as ideias ficam mais claras paro de fazer julgamentos falsos e parto para pensamentos positivos. “Aposto que todos me querem lá. Mas têm medo de que eu volte aos antigos companheiros que ficavam me tirando até do serviço para umas farinhas fora de hora... (E eu saía mesmo!). Então eles têm razão de estar preocupados. Sei que desejam meu bem. Por isso, nada dizem, mesmo quando estou com aquela voz amargurada, louco pra que falem: Volte logo, Kaká!”
          Não falarão nunca, sei bem. Portanto, tentarei fazer o tempo passar depressa, fazendo coisas que gosto, como esquiar em Big Mountain, até que vença meu degredo quase voluntário.
            Hoje, conversei com minha irmã, mamãe e papai. Liguei duas vezes. Aí, conversei só com mamãe. Ela disse que ela e Dorinha haviam sonhado comigo.
            - Ah, então é por isso que tive insônia esta noite, brinquei.
            Ela riu um pouco e depois falou que escrevia algo sobre minha estada aqui. E que o fazia na primeira pessoa, como se fosse eu.
            - Como pode escrever deste jeito? Não sabe o que estou passando nem sentindo!
            - Não sei exatamente, mas posso imaginar. Ainda não percebeu nos meus livros, que agora, só escrevo na primeira pessoa? É como se tudo que conto acontecesse comigo.
            - Mas como escreve sem saber o que os outros pensam ou sentem?
            - Não preciso saber o que outros pensam ou sentem. Penso e sinto por eles quando escrevo. Imagino o que possam sentir nessa ou naquela situação, pelo que me contam. Procuro narrar o fato com as emoções próprias para cada tipo de acontecimento. Eu me infiltro na história e me faço de personagem. Sei, por exemplo, muito bem do sufoco que passa por aí.
            - Ë, pode ser, mas se eu contasse aquele meu caso do “Rock in Rio”, que saiu em seu último livro, eu contaria com maiores detalhes.
            - Claro, né, bidu! Aconteceu com você! Lógico que tem de saber mais detalhes do que eu. Você me contou o grosso, o resto ficou por minha conta. Mandraque também não sou. Mas... Não gostou?
            - Gostei, sim. Muito, até. Foi mais ou menos aquilo mesmo. E esse negócio aí que escreve sobre mim? Não vai publicar sem eu ver primeiro, tá?
            - Quando terminar, tiro uma cópia e mando pra você.
            - Legal. Aqui! Também estou escrevendo alguma coisa sobre minha experiência nessa cidade. Quem sabe dá pra sair no seu próximo livro?
            -  Manda pra eu ler.
            - Assim que terminar, envio.
            - Já tem título?
             Tem.
            - Qual é?
            - llusÂngeles!
 
Do livro “Álbum de Família”.
 
 
Monica de Camargo Coutinho
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 23/10/2010