Em memória de mim
Miguel Sanches Neto
Raspou as camadas de tinta das paredes antigas e pintou tudo de
azul. Mudar a cor da sala era uma maneira de tomar posse daquele
lugar, mas servia também para enganar a solidão.
José estava na Alemanha terminando o doutorado embora fosse ela,
sem amigos ou parentes na cidade, a estrangeira. Uma intrusa naquela
casa construída pelos bisavós do marido. Podia sentir a presença
de cada um dos ex-moradores do casarão colonial, para onde não
queria ter vindo depois do casamento, mas sem coragem de contrariar
o marido, tão ligado à velha casa da infância.
Para que fosse mais sua, imaginou muitos filhos correndo pelos cômodos,
só que esse não era o desejo de José, que queria apenas a criança
que Maria trazia no ventre - para continuar o nome da família.
Mesmo assim, estava animada. Teria companhia e talvez deixasse de
se sentir uma estranha. Por isso pintou a sala. Para receber
festivamente o filho, anúncio de novos dias.
A casa mantém vivo o formalismo da família de José. Maria,
acostumada à vida alegre do interior, estranhou este mundo sem
prazer, de homens religiosos. Pintar a sala foi um pequeno ato de
revolta. Agora, era um espaço dela. Colocou um vaso de flores na
mesa e saiu à procura de outro enfeite.
No sótão, perdeu horas mexendo em velharias empoeiradas. Já não
tinha esperança de encontrar nada quando descobriu um quadro virado
para a parede - retrato a óleo de um jovem loiro de olhos azuis.
Por um instante, teve a impressão de estar diante de algo vivo, tão
intenso o brilho dos olhos.
Desceu o retrato e, depois de limpar a tela e a moldura,
pendurou-o no centro da principal parede da sala. Desde o primeiro
momento, viu-se atraída por aquele homem. Gastava parte dos dias
sentada na poltrona, contemplando seu rosto, que dava à casa uma
jovialidade desconhecida.
A sala virou seu lugar predileto - só ali se sentia bem. Tinha a
sensação de estar fazendo algo proibido, mas isso punha um pouco
de emoção em sua vida. Ela e o quadro contrariavam a sisudez dos
antigos habitantes do casarão, cujos retratos ficavam na biblioteca
lembrando que a melancolia de José era hereditária.
Aqueles olhos azuis não pertenciam a nenhum antepassado do
marido.
Ela então se lembrou de uma história que este lhe contara ainda
no tempo do namoro.
A avó de José ficou viúva muito cedo e nunca mais se casou.
Sua vida foi rezar, fazer penitência e cuidar de filhos e netos.
Aos 70 anos veio a esclerose e passou a falar da falta de um homem
de verdade.
Do nada, o retrato apareceu na parede de seu quarto, no mesmo
prego onde antes ficava o crucifixo. Numa manhã, chamou o neto,
apontou o quadro e disse que aquele era quem tinha dado alegria a
ela, única paixão de sua vida, e que agora podia dormir todas as
noites pensando nele.
José trazia o nome do avô e achou um desrespeito à sua memória.
Nunca mais voltou ao quarto da velha. Mas, à noite, ouvia certos
gemidos e não adiantava esconder a cabeça sob o travesseiro.
Com certeza, ele não iria gostar de ver o quadro na sala, mas
Maria precisava impor, ao menos uma vez, seu desejo.
Foi depois de recordar tal história que teve vontade de dormir
no antigo quarto da avó, abandonado desde sua morte. E logo achou
uma justificativa: o quarto de casal era grande demais.
O cômodo ainda tinha os mesmos móveis e isso lhe causou um
pouco de receio. Mas depois da primeira noite já estava acostumada.
Durante o dia passava as horas vazias contemplando o retrato,
imaginando-o de corpo inteiro. À noite, sonhava com ele. Dormiam
juntos e faziam amor apesar da gravidez adiantada. E o silêncio da
casa de paredes largas era povoado por gemidos. Ela enfim
experimentava o prazer.
José chegou sem avisar um mês antes do nascimento do filho. As
malas ficaram na sala, ele beijou Maria sem maior interesse e foi
retirando o retrato da parede. No lugar, colocou uma foto
envelhecida do avô. E a casa voltou a ser triste, o marido lendo na
biblioteca, quase sem falar com ela.
Maria perdia-se pelo imenso quintal, observando nuvens ou
experimentando a tranqüilidade de um céu azul. A solidão crescia,
ocupando todos os espaços. Seu filho, que também crescia, herdaria
horizontes apertados, fortalecendo uma tradição casmurra.
Ficou imaginando se a avó de José tivesse engravidado do
amante. Teria sido rompida toda essa melancolia?
Entre momentos de desespero e outros de simples resignação,
suportou o resto da gravidez. E a criança nasceu loira e de olhos
azuis, apesar de os familiares tanto dela quanto dele serem morenos.
Assim que voltaram do hospital, mãe e filho passaram a dormir no
quarto da avó, por imposição do marido, que agora já não pode
sair de casa sem se sentir envergonhado e nem suportar o olhar
lascivo do menino.
Que, indiferente a tudo, cresce alegre e inteligente.
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