O pai, o filho, o outro
Marçal Aquino
Ele não gostou da casa. (Você também não gostaria, acredite.)
Era úmida, escura, inóspita. Não existia forro. As paredes
exalavam um hálito defumado, as cortinas estavam encardidas, os móveis
caíam aos pedaços. Não havia nada enfeitando as paredes, nem
mesmo um calendário. (Você já esteve numa casa doente? Aquela era
uma.)
O rapaz sentou-se num sofá desbotado, que cedeu de modo
preocupante sob seu peso, e olhou para a velha empregada. Ela disse:
Seu Valdemar já vem.
E afastou a cortina de tirinhas para voltar à cozinha. Sem nada
para distrair os olhos nas paredes, ele fixou a atenção no pedaço
de bombril preso à antena da televisão portátil. No canto oposto,
um minipinheiro de folhas amareladas, enfeitado por meia dúzia de
bolas coloridas, fazia as vezes de árvore de Natal. Ele esperou,
represando a vontade de sair dali. (Você nunca se arrependeu de
algo que ainda está por acontecer?)
Por uma fresta das cortinas, ele pôde ver um pedaço ainda
azulado do céu. Escurecia devagar naquela época do ano. Chegaram
da cozinha o ruído de panelas e o cheiro de alho fritando. Ele
ouviu a voz da empregada, mas não entendeu o que ela dizia. Então
se levantou e colocou o rosto entre as tirinhas de plástico.
Falei que você pode ligar a televisão, se quiser, a mulher
disse. Só que a imagem não é grande coisa.
A cozinha era maior do que ele imaginava. Abrigava um fogão, armários,
uma enorme pia de mármore e uma mesa de fórmica, coberta por uma
toalha vermelha. Pratos e talheres para três pessoas. De um dos
cantos do teto, afluentes de uma mancha de infiltração avançavam
em direção à lâmpada. A empregada se movia de um jeito nervoso
entre o fogão e a mesa. Coxeava de uma perna, ele reparou.
Quando se voltou, deu de cara com o homem parado às suas costas.
Tinha se barbeado e penteado os cabelos com capricho, usava uma
camisa nova de mangas compridas, calça vincada e sapatos. Recendia
a sabonete de pinho.
Ele notou que, vestido daquele maneira, o homem assumia um ar
solene - estava habituado a vê-lo de macacão e botinas. Parecia até
mais magro vestido com aquelas roupas. E pouco à vontade.
Você quer um aperitivo, Cléber?, o homem perguntou.
E, sem esperar pela resposta, pegou uma garrafa de cachaça e
dois copos no armário da cozinha.
Beberam sem brindar. O homem estalou a língua, satisfeito. Ele
sentiu o ardor da bebida na garganta. Lacrimejou, tossiu. E percebeu
que a empregada olhava com curiosidade para seu rosto.
Essa é da boa, o homem disse.
E serviu-se outra vez. A empregada abriu o forno e espiou o
assado. O cheiro espalhou-se pela cozinha, foi capturado pelas
narinas do rapaz e classificado como bom.
Podem ir sentando, a mulher disse. Tá tudo pronto.
O homem puxou a cadeira para o rapaz e, depois, sentou-se de
frente para ele. Entre os dois, a empregada colocou as travessas com
a comida. Por último, protegendo as mãos com um guardanapo,
retirou o assado do forno. Lombo com batatas.
O homem esperou que a mulher ocupasse seu lugar à mesa e então
olhou para o rosto do rapaz.
Não faça luxo. A comida é simples, mas você vai ver como a
Conceição cozinha bem.
O rapaz serviu-se e derrubou arroz na toalha. Manteve a cabeça
baixa, evitou olhar para o homem ou para a mulher. Sabia que ambos o
observavam. Estava enganado, porém: enquanto o homem abria uma
garrafa de vinho, prendendo-a entre as coxas para retirar a rolha, a
empregada fatiava o lombo.
Quando terminaram de comer, a empregada levantou-se para passar
um café e o homem e o rapaz foram para a sala.
Gostou da comida?
Gostei, o rapaz respondeu.
O homem sorriu, satisfeito. Então entrou no quarto e reapareceu
com uma caixa embrulhada em papel de presente.
Comprei pra você, disse. Feliz Natal.
O rapaz segurou a caixa e a vontade de sair correndo dali. Estava
pensando que nunca deveria ter aceitado aquele convite.
Eu não trouxe nada.
Não tem problema, o importante é que você está aqui, o homem
disse. Abra o seu presente.
O rapaz abriu o pacote. Uma camisa. A empregada entrou na sala
com o café. E, depois de colocar a bandeja sobre a mesa de centro,
ficou parada, olhando para a camisa nas mãos do rapaz. O homem
falou:
Foi ela que escolheu.
Obrigado, o rapaz disse.
A mulher sorriu de um jeito tímido. E retornou à cozinha
arrastando uma das pernas. O homem e o rapaz afundaram lado a lado
no sofá.
E então, você pensou no que eu falei?
Antes de responder, o rapaz curvou o corpo para frente com
dificuldade e colocou a xícara sobre a mesa de centro. Ganhou
tempo. E falou sem olhar para o rosto do homem.
Pensei, seu Valdemar. Não posso aceitar.
O homem suspirou.
Não pode por quê?
Não posso, só isso.
O homem se mexeu no sofá. Seu corpo tocou no do rapaz.
Você é orgulhoso que nem a sua mãe.
O rapaz o encarou.
Não é orgulho. É que eu tô pensando em ir embora.
Embora pra onde?
Ainda não sei, o rapaz disse. Vou pra uma cidade maior.
Você não precisa fazer isso. Pode ficar por aqui e ganhar a
vida com a borracharia.
Eu vou embora.
O homem também colocou a xícara sobre a mesa. Balançou a cabeça.
Tem uma coisa que você não sabe.
Pronto, o rapaz pensou, lá vêm as histórias. Estava
acostumado: desde menino escutava as conversas na cidade (diziam que
ele era filho do borracheiro; mas ele sabia que não era). Só que o
homem falou de outro assunto.
Eu tô doente, Cléber. Tenho pouco tempo de vida.
O rapaz baixou a cabeça, não soube o que dizer. O homem tocou
em seu braço. Disse:
Eu já estive no cartório e passei tudo para o seu nome. Esta
casa, a borracharia. É tudo seu.
O rapaz levantou-se do sofá.
Eu não posso aceitar uma coisa dessas, seu Valdemar.
Claro que pode. Eu sempre ajudei a sua mãe. E agora quero te
ajudar.
O rapaz ficou em silêncio por um tempo. Pensava na mãe, que
tinha morrido meses antes. Uma vez, chegara a conversar com ela
sobre os boatos que ouvia.
E por que o senhor quer me ajudar?
Porque sim. Eu não tenho ninguém pra quem deixar as minhas
coisas. Deixo pra você, que também não tem ninguém.
A mãe dissera que aquilo não passava de fofoca. Seu pai, ele
sabia, era um engenheiro com quem sua mãe se envolvera na época em
que a mineradora se instalou na cidade. Um estrangeiro. Quando mais
novo, o rapaz gostava de imaginar o pai como um aventureiro. Um
aventureiro que fora embora da cidade e que nunca voltara para visitá-lo.
Não posso aceitar.
Não depende de você, Cléber. Tá tudo no seu nome lá no cartório.
Nesse momento, a empregada surgiu entre as tirinhas da cortina.
Eu já vou me deitar. Se vocês precisarem de alguma coisa, é só
chamar.
Obrigado, Conceição, o homem disse.
E então se levantou do sofá e ficou ao lado do rapaz. Pôs a mão
em seu ombro.
Você não precisa vir morar aqui. E, depois que eu morrer, você
pode fazer o que quiser com esta casa e com a borracharia.
Eu não vou aceitar.
O homem pareceu não ouvi-lo.
Só tem uma coisa: eu não quero que você deixe a Conceição na
mão.
Às vezes, no dia de seu aniversário ou em ocasiões como
aquela, o rapaz recebia presentes que, ele sabia, não haviam sido
comprados pela mãe. Ele gostava de imaginar que o pai os enviara. O
aventureiro estrangeiro.
O senhor conheceu meu pai?
O homem pensou antes de responder.
A sua mãe não falava dele pra você?
A mãe não gostava de falar do assunto, o rapaz lembrou. Parecia
incomodá-la. Uma dor. E ele respeitava, evitava perguntas.
Contentava-se com os fiapos que conhecia.
Eu já vou embora, seu Valdemar. Obrigado pelo jantar. E pela
camisa.
O homem colocou outra vez a mão em seu ombro.
Posso te dar um abraço?
O rapaz pôs a caixa sobre o sofá e então ele e o homem se abraçaram.
Ficaram assim por um tempo.
Quero que você me prometa que pelo menos vai pensar no assunto,
Cléber.
O rapaz não disse nada. Limitou-se a recolher a caixa e a
caminhar em direção à porta. O homem disse:
Eu não tenho muito tempo pela frente.
Quando chegou à rua, o rapaz sentiu alívio. Estava transpirando
- devia ser o vinho, não tinha o costume de beber. Antes de se
afastar, olhou uma última vez para a casa. Sua casa. Esse
pensamento encheu-o com uma sensação que ele não soube definir.
Era cedo ainda e ele não pretendia voltar para o quarto-e-sala
que ocupava nos fundos de uma casa. Onde sempre vivera com a mãe.
Pensou em ir até um dos bares do centro, talvez encontrasse algum
dos amigos. Não, ele sabia que os amigos estavam com suas famílias
naquela hora.
Em frente a um sobrado, dois garotos brincavam com uma bola, que,
num chute descuidado, veio rolando em sua direção. Uma bola nova
em folha, que os garotos tinham acabado de ganhar. Ele agachou-se,
recolheu a bola e a devolveu ao garoto. Depois, encostou-se num
poste e permaneceu por algum tempo assistindo às brincadeiras dos
garotos.
Pensou na mãe e lembrou-se de que ela sempre ficava triste em
dias como aquele. Nunca soube por quê.
Então, de repente, ele se virou e retornou pela rua, em direção
à casa do borracheiro. A sua casa. Ainda não sabia muito bem o que
diria quando o homem abrisse a porta. Talvez dissesse apenas que
voltara porque tinha se esquecido de lhe desejar feliz Natal.
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