A SAGA DE UM NASCITURO
Nelson Faillace
Porque e para que nascemos? Com que finalidade vivemos e
qual a razão da morte inexorável! Mas não se preocupe,
meu tema não será exatamente este, pois existem
compêndios tentando desvendar os mistérios da nossa
existência. A religião nos dá conta direitinho de tudo,
mesmo assim não desvendando totalmente.
Mas falarei somente do nascimento. Para a mãe geradora
ultrapassa as barreiras da realização maternal. Bendita
a que gerou aquele rebento, que chega melado, careteiro,
frágil e choramingas. Aflição do pai que caminha pelos
corredores, mal se agüentando em pé, com o coração aos
pulos, aguardando o glorioso momento da vinda do
nascituro. Mas esperem um pouco. Estamos em pleno século
XXI. Agora o pai fica ao lado da esposa, na bem cuidada
sala do hospital, até com a câmera nas mãos,
acompanhando tudo ao lado da companheira. Curioso e
pasmo vê surgir um courinho já cabeludo, uma face
aborrecida, com os olhos cerrados, os ombros, os
bracinhos, todo o pequeno tronco e as perninhas
diminutas e encolhidas, tudo isto ligado a um cordão
umbilical que é a fonte da vida daquele nascituro.
Apesar dos anos de experiência, a equipe de
profissionais se emociona sempre que surge uma nova
vida.
Mas, nem tudo é modernidade. Muito ao contrário. Lá no
sertão, o parto obedece a forma milenar e tradicional.
Usando do velho sistema da água e das toalhas quentes,
um ramo de arruda atrás da orelha, às vezes um defumador
no cômodo vizinho, a parteira oprimindo o ventre da
futura mamãe pede a ela que se esforce ao máximo e a
incentiva a comprimir os músculos abdominais. Desta
forma simples, a natureza completa a sua função. O
cordão umbilical é cortado com uma tesoura desinfetada
com álcool e essa única parteira realiza o parto como
ensina a mamãe natureza. A cama é a de todos os dias e
de todas as noites. O pai, tranqüilo na sua lida diária,
seja com o gado ou com a lavoura, espera o anúncio do
nascimento para comemorar à sua moda. Pode curtir um
trago da boa pinga, ou soltar o som de seu berrante. O
local foi o quarto da residência modesta do colono ou
mais caprichada do dono da propriedade, todos
acostumados ao trabalho destas experientes
profissionais, às vezes chamadas de curiosas. O bebê vem
ao mundo desta forma modesta, sem sofisticação.
Aqui como lá, o choro dá o alento à vida que desabrocha.
Lá a moderna sofisticação, aqui a simplicidade
tradicional. Mas os resultados são idênticos. Desde as
mais frias regiões árticas, às ardências do deserto, as
carências das planícies repletas de populações famintas,
na floresta, no banhado, sob o troar de bombas e
canhões, o resultado final será sempre o mesmo. Vida que
gera amor e felicidade. Vida, somente vida, nada mais
que vida!