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FILHOS RENEGADOS
Por: Demétrio Pereira Sena
De toda essa confusão que envolve o possível assassinato da menina Eliza, pelo goleiro Bruno e seus amigos, a reflexão que me assalta não diz respeito à brutalidade do crime. Esta já é uma reflexão coletiva tão evidente quanto legítima. Se há de fato homicídio, qual é o grau de culpabilidade e dolo de cada um, entre outras questões, tudo há de ser apurado, e as devidas penas serão aplicadas conforme cada participação.
O que ainda me espanta, mesmo depois de tantos casos famosos que evidenciam tal atitude, é constatar a utilização de uma criança como peça de jogo entre os pais. Mais do que isso, moeda ou objeto de barganha. Entretanto, considero bem mais grave o fato de uma pessoa, neste caso o pai, ser capaz de qualquer coisa para provar a não paternidade do possível filho.
Não estamos mais naquele tempo em que a palavra da mãe era quase tudo para o suposto pai e a justiça, que resolvia a questão com exames incertos de sangue (prováveis, até, mas incertos). Hoje, os exames de DNA não deixam dúvidas e são cada vez mais simples. E a justiça, convenhamos, cada vez mais branda nas questões de pensão alimentícia e outras responsabilidades. Quando um homem resolve provar a todo o custo que não é pai de uma criança, já deixa claro que não há qualquer chance de afeto em seu coração. Ele pode até ser o pai, mas nunca será um bom pai, pois acima do amor estão o dinheiro, os bens materiais, a sua posição socioeconômica e os conflitos primários advindos dessa condição. Com tanta coisa em jogo, o possível filho é o que menos interessa.
Só vale a pena para uma criança, ainda que seja fruto de uma relação extraconjugal, ter um pai que foi à justiça para provar a paternidade, não a não paternidade. Um pai que a partir do momento em que soube da existência do possível filho já se percebeu capaz de amá-lo e enfrentar qualquer circunstância ou adversidade para assumi-lo, mesmo dentro de suas limitações. O mais se resolve com o tempo.
Não havendo esse afeto, essa capacidade de se doar e ser presente na vida desse filho, o melhor a se fazer é assumir mesmo a simples responsabilidade material, o que o goleiro nem cogitou. Quis fugir a toda a responsabilidade, o que torna a criança ainda mais infeliz nessa questão. Infelicidade que se agrava, caso a mãe, também incapacitada para o amor, só se deixou ser mãe por ascensão social.
Dá medo viver num mundo de filhos renegados, que aprenderão também a renegar e a jogar com as vidas de seus rebentos. Com isso, teremos uma sociedade cada vez mais fria, impessoal e afeita estritamente ao ter, sem dividir nem com os seus. Uma sociedade, em suma, cada vez mais infeliz, se não aprender a agir como sociedade... Ou a viver como tal. |
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