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SEVERINO E AS CABRAS
Por: Tolentino e Silva


SEVERINO E AS CABRAS
Tolentino e Silva


Os canteiros de obras e fábricas em todo país, principalmente em São Paulo, concentram a maior parte de migrantes, oriundos do nordeste brasileiros.
Em 1980 estava morando em Brasília, era encarregado de construção civil e trabalhava numa empresa de concreto celular. Terminado o serviço fui transferido para São Paulo para conclusão da obra do metrô, Terminal do Tietê. Antes da conclusão da obra recebi proposta de trabalho em outra empresa, no mesmo ramo e com salário superior ao que recebia. A obra era no bairro São Mateus. Depois de estudar os pós e os contra, análises e estudos do local de produção e concentração dos operários, chegamos a um acordo. Instalamo-nos no canteiro daquela obra e fiz alguns anúncios para contratação de empregados. O grupo era pequeno. As operações exigiam apenas dez empregados entre encarregado, pedreiros e serventes. Demais exigências eram oferecidas pelo contratante aos terceirizados. Depois do expediente todos os operários se concentravam num quarto improvisado para eles, sem muito conforto, apenas o essencial: camas, fogão e instalações sanitárias.
Toda noite, antes de recolhermos para dormir, acendíamos uma fogueira no centro do canteiro da obra e ali ficávamos contando histórias e causos. Cada um tinha sua peculiaridade. Severino, homem bom, trabalhador, chegou a São Paulo vindo do interior do Rio Grande do Norte. Segundo ele, deixou lá a mulher e dois filhos menores. Com um mês que estávamos naquele local Severino recebeu a primeira carta da sua mulher. Curioso, vi Severino olhando a correspondência, sem que a lesse. De repente ele se aproximou de mim e pediu: Seu Tolentino, o Sinhô poderia ler esta carta para eu? É da minha muié. Tô com uma sodade danada dela e dos meus bichinhos! (filhos). Disse a ele que a carta é um, objeto de correspondência sigiloso, cuja mensagem interessa apenas ao destinatário. Apesar disso, sabendo que não era alfabetizado e da sua ânsia pela notícia, resolvi ajuda-lo. Chamei-o num lugar reservado para que os outros não ouvissem o que estava lendo e o coloquei a par dos acontecimentos lá na sua terrinha, na sua casa e com sua família. A introdução da carta era assim: - Sivirino, estou com muita sodade docê. Mãe manda um abraço, sua mãe e seu pai mandam a benção. A fia de Sá Juana morreu. A casa de Jusé pegou fogo. O poço do Jô secou. Pensei comigo: êta desgraça danada! Vai ser sem sorte assim lá no outro mundo! Tudo acontece de ruim naquele lugar! O que me chamou mais a atenção foi o fato de a esposa dele pedir para comprar uma cabra, tendo em vista que a que havia deixado quando partiu, já não estava mais dando leite e a criança mais nova necessitava do mesmo. O dinheiro que mandara também não foi suficiente para pagar as contas do armazém e da farmácia. Descobri que o dinheiro era remetido para a conta bancária do seu primo Odorico. Segundo Severino sua mulher é muito bonita e nova. Durante a leitura da missiva Severino me interrompia e fazia perguntas, sempre com os olhos lacrimejados e vez em quanto usava o sujo lenço para limpar o líquido que escorria do nariz. Passados dois meses a mulher de Severino manda outra carta e nela pede para comprar outra cabra, usando o mesmo argumento que usara na anterior. Então eu, mesmo sem ter nada com sua particularidade, mas com muita pena perguntei: Severino, por quanto tempo uma cabra dá leite após a cria? – Ah! Seu Tolentino, por muito tempo! Não comentei a resposta, só achei estranho o curto período que a cabra deu leite. O tempo foi passando e a obra chegando ao seu término. Faltavam apenas os arremates finais. Neste intervalo chegou mais uma carta. Era uma manhã de sábado quando o carteiro a entregou. Como estávamos trabalhando disse ao Severino para guardá-la a leríamos após o expediente. Os outros operários ficavam curiosos ou talvez até com inveja, haja vista durante todo aquele tempo somente o Severino recebeu notícias de casa. Às dezesseis horas recolhemos as ferramentas e adentramos no alojamento para o banho, o jantar e posteriormente o merecido descanso. Sair, só quando havia necessidade. Todos nós éramos “barrigas verde”, adjetivo muito usado em Brasília, atribuído aos recém chegados ou àqueles que cometem alguns deslizes naquilo que dizem ou que fazem. Inexperientes. Severino mal agüentava esperar a hora da leitura da carta. Andava de um lado para o outro, estava sem sossego. Mais tarde, após tomarmos banho e comido aquele mexido feito com as sobras do almoço, chamei Severino e fomos para uma pequena praça a uns cem metros do local de trabalho. Ao acomodarmos abri a carta e comecei lê-la para ele. O prelúdio eu já sabia de cor, embora os maus acontecimentos mudassem de nomes e lugares. Já no meio da leitura fui interrompido por Severino que perguntou assustado: - Outra cabra? Pra que tanta cabra? Essas cabras num prestam, dão pouco leite , oxente! Então, eu, que já havia passado os olhos no restante do conteúdo enquanto interrogava respondi: Calma meu amigo, o pior está por vir. – Pior? Que Pior? – Escute só uma das frases da sua mulher: “Sivirino, mande dinheiro para outra cabra porque seu filho mais novo nasceu”. O homem, inocentemente abriu um enorme sorriso e exclamou: - Nasceu? Mais um? Que benção! Então eu tenho que mandar mesmo o dinheiro. Ainda bem que eu guardei um pouco. Esta é a mió nutiça que o sinhô me deu! Não queria comentar o assunto e desfazer a sua alegria, mas com muita dó do amigo, resolvi explicar para ele a real situação. – Sr. Severino, me responda uma coisa, há quanto tempo estamos nesta obra, há quanto tempo está fora de casa? – acho que um ano e dois mês num é seu Tolentino? – exatamente Severino. Agora analise bem, quanto tempo dura uma gestação? – nove mês sô, ou menos, se fô cesariano. – acertou na mosca Sr. Severino. Então me explique: como é que sua mulher poderia ter um filho seu se somente nesta obra estamos há um ano e dois meses? Severino pensou, coçou a cabeça, andou de um lado para o outro, feito galinha tonta, se agachou e se derreteu em pranto. Eu fiquei ali o observando e com muita pena. De repente ele se levanta e diz: vou ligar pra lá, vou tirar isso a limpo. Entrou no alojamento, vestiu uma calça, pois estava de bermuda e sem mais delongas foi para a rua. Uma hora depois Severino aparece. Triste, cabisbaixo, com os olhos banhados de lágrimas, chegava a soluçar. De longe eu o observava e esperei o momento certo para me aproximar, uma vez que só a mim ele confidenciava suas alegrias e tristezas. Na hora oportuna me aproximei, coloquei a mão sobre seu ombro e disse: É Severino, nem sempre a vida é como a gente planeja, como a gente quer. Há alegrias e tristezas, há realizações e percalços que está em nós controlar. Ele então desabafou: - Pois é seu Tolentino, a gente luta com tanta difuculidade, deixa a terra pra trabaiá pra criá os fios e as pesso num dá valô. O fio que a muié ganhou num é meu, é do primo Odorico. Meu pai disse que a cabra que tem lá é a mema que eu deixei, ele além de cume meu dinheiro durmia com minha muié. Todos dois são uma peste, num vale nada. Vou arrumá um dinhero, vou buscá meus fios e sumi daquele lugá prá sempre. Só num vou matá os dois purquê num quero sujá minhas mão. Tumara que Deus me ajude preu num te que faze uma bestera!
Concluída a obra, cada um tomou seu rumo e nunca mais vi e nem ouvi falar no Severino.
Cada um tem um destino. Infelizmente existem muitos Severinos e muitos Odoricos neste mundo
 
 

 
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