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Crônica
 
Sobre vogais e consoantes
Por: Marlene A. Torrigo

(Republicação de janeiro de 2010)

Em criança eu sequer sonhava que um dia tornar-me-ia uma (quase) escritora de verdade. Recordo que primitiva no mundo mágico das palavras, enamorei-me delas. Letreiros, revistas, gibis, jornais, nada escapava ao meu olhar arguto e voraz por leitura. Fascínio era ter um livro em mãos e fascínio maior era saber que existiam pessoas que escreviam frases tão bonitas. Passei a considerar os escritores semideuses.
Quando adolescente o mais velho dos meus irmãos tornou-se fã das Seleções Reader’s Digest, incutindo em mim o prazer de lê-las. Seleções me abriu o portal deleitoso da palavra escrita.
Do meu fascínio por livros, um dia, com a cabeça sobrenadando entre vogais e consoantes, nasceram os primeiros versos e textos, algo extrovertidos e sinistros, e com eles ludibriosos afãs literários, intercalados por sentimentos antagônicos. Descobri a dualidade existente entre céus e infernos na qual transitam aqueles que ousam aventurar-se pelos caminhos doridos do Atletismo, da Ciência e da Arte.
Anos após, serenada e cônscia da minha condição de escritora menor, aprendi a fazer da arte de escrever, estudo, disciplina e, sobretudo persistência, afora os demais afazeres e dilemas existenciais da vida.
Sempre em busca de aprimorar a sofrida arte de escrever, tenho estudado muito e julgo que amadureci a minha performance criadora. Sei-me meio irônica, por vezes intolerante e brava na minha forma de escrever. Tais adjetivos nasceram de revolta e traumas adquiridos. Afastei o lado trágico que teimava presença constante nas linhas. Mui embora emoções tormentórias ainda forcejem por invadir as laudas, há que se notar menos persistência, o que constitui uma significativa melhora, posto que, quando principiei a escrever escorriam rios de sangue e lágrimas caso se torcessem as folhas manuscritas por mim. O filetezinho de hoje nada é comparado àquilo.
Poetas e escritores são cientistas das vogais e consoantes. Essa que ora lhes escreve sofre a pena das penas para montar textos plausíveis, dado não ser intelectual ou autodidata. Escrever, ler, reler, refazer, revisar vezes sem conta, é um trabalho massivo, mas que me proporciona intenso prazer. Escrevendo romances desde a virada do milênio, sorvo cada sentença, debulho-me em lágrimas nos trechos de grande comoção, entro no enredo, igualo-me aos grandes escritores.
Agora, sofrimento literário mesmo dá-se com as editoras. Elas não assimilam meia vírgula minha com as dos grandes escritores. Confrange-me quando os meus trabalhos são devolvidos. Desarvorada e inconformada, cedo à sensação de impotência e incompetência, olhando desiludida a escrivaninha onde dedico horas solitárias aprimorando a minha técnica literária, horas que podiam ser preenchidas com lazer, mas não, essa pobre escritora tem que escrever, precisa escrever, assim foi fadada.
Hei de confessar que por vezes tenho vontade de abandonar tudo e viver como qualquer pessoa de bem, mas, destarte teimosa, penso naqueles que jamais desistiram. Volvo então às teclas do meu destino que está ficando velho, autoritário, não permitindo que eu desista a fim de simplesmente parasitar solene na sala da vida, ignorando a minha dor lombar, o meu padecimento artrítico, ó pobre escritora!... e tecle, tecle, tecle, Marlene de Letícia, nas linhas sublimes da vida.
Letícia é a minha mãe, viu leitor. Um nome lindo, lindo, lindo! Saudade, mãe querida; devo à senhora gostar tanto de ler e escrever. Apesar dos seus graves problemas psíquicos, se não fosse o seu estimulo em me fazer pegar nos livros escolares quando eu era desse tamanico e as histórias infantis que me contavas e também as histórias sensacionais de quando eras criança e moça na sua querida Natal no RGN, hoje eu não... eu...
“Chorando, escritora? Podeis parar? Não iniciaste este texto a fim de aborrecer o seu estimado leitor.”
Não sei quanto a você, querido leitor, mas quando escrevo confabulando comigo mesma, eu algodôo pedras, sorvendo nobres emoções.
Continuando; aquém do desprezo de várias editoras, já recebi, sim, propostas de algumas, só que orçamentos onerosos tornam inviáveis os meus anseios literários. Sigo então em prol de pescar sentenças máximas no rodopio mágico do letreiro dinâmico da minha mente. Haja concentração!
Devido tanta concentração devo ser a campeã mundial de queima de comida. Tudo calcinando, a casa esfumaçada e eu só sentindo o cheiro das palavras. Mulheres normais queimam comida absortas em novelas, eu não! Presa às letras, dou cada salto desesperado da cadeira em direção ao fogão que as minhas articulações inflamadas urram de dor. Dado saber que detesto cozinhar, que avilte! uma escritora danada de boa como eu (risos), ser submetida à tortura de cozer, acebolando-se, perdendo pensamentos brilhantes numa cozinha detestável, impregnada de cheiros d’alhos.
Outrossim, sei-me alma excêntrica, sensível, uma incansável aprendiza da vida. Amiúde escapo mais bonita das tormentas do espírito, das lanças certeiras, das gélidas nuanças, buscando garbosa e aguerrida, a inspiração dos encantos e candores da vida, moldando-a na fascinante magiez da palavra escrita.



* Nota: Caso você deseje reproduzir esse texto, em todo ou em parte, não esqueça de respeitar os direitos autorais.

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