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João Bosco Soares dos Santos
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UMA MAGISTRAL HISTÓRIA DE ÍNDIOS BRASILEIROS
Por: João Bosco Soares dos Santos

UMA MAGISTRAL HISTÓRIA DE ÍNDIOS BRASILEIROS.

DO LIVRO TOCATAS.
TEXTO TAMBÉM PUBLICADO NO Nº 6 DA REVISTA CADERNOS DE LITERATURA,
EDITADO PELO GAC-BA E FUNDAÇÃO JOÃO FERNANDES DA CUNHA,
LARGO DO CAMPO GRANDE, 8, SALVADOR, BAHIA.

Na língua Tupy, receberam os nomes de Mussaperê e Herundy, que significam Terceiro e Quarto dos primeiros quatorze filhos do Cacique Ubajara, que, até 1933, viveram no então isolado município cearense de Tiaguá, na divisa com o Estado do Piauí.
Eles e os pais foram levados pelo Tenente Hildebrando Moreira Lima para a serra do Cariri e lá Mussaperê passou a chamar-se Antenor Moreira Lima e Herundy a chamar-se Natalício Moreira Lima.
Ouvindo as vozes e os cantares dos dois na língua Tupy – ainda não falavam o Português – o Tenente convenceu-se de que eles, com certeza, fariam sucesso no sul do Brasil. Do Cariri, naquele mesmo ano, os dezesseis índios – quatorze filhos e os pais – partiram a pé para o Rio de Janeiro. Foram imensas as dificuldades. Passaram por Pernambuco e por Alagoas, antes de chegarem na Bahia. Numa das feiras nordestinas, compraram uma velha viola e começaram a estudar e a aprender os primeiros acordes, sozinhos. Mas, no momento de necessidade, trocaram a viola por uma cuia de feijão.
Na capital baiana, contaram com a proteção do Governador, que lhes ofereceu passagens para o Rio de Janeiro, onde chegaram no início de 1937. Nesses longos e difíceis anos, meses, dias e horas de viagens – de 1933 a 1937 – aprenderam a tocar viola e violão, o suficiente para começarem a trilhar pelos caminhos do sucesso. Logo ao desembarcarem do navio Almirante Jaceguai, em razão de uma reportagem feita por um jornal, são acolhidos pelo albergue Leão XIII. Vestidos de branco começaram a apresentar-se nas feiras livres do Rio de Janeiro. Levados para apresentarem-se na Casa do Caboclo, um teatro voltado para a cultura regional brasileira, não obtiveram sucesso, pelas seguintes razões: não falavam corretamente o português e tiveram medo de se apresentarem como índios, mesmo diante de seus aspectos físicos e comportamentais inacobertáveis. É que a crueldade de alguns cariocas insensíveis os atormentavam dizendo-lhes que se eles revelassem serem índios, seriam assassinados.
Somente em 1942, é que a Rádio Cruzeiro do Sul, por intermédio de seu apresentador Paulo Roberto, ofereceu-lhes um contrato artístico, com a exigência de se apresentarem como índios tupy-tabajara. No dia 25.07.1942, a Revista Carioca assim apresentou os artistas índios: “Os Irmãos Tabajara...fazendo sucesso no rádio carioca... são interessantíssimos no gênero que aprenderam naturalmente, quando não pensavam em cantar no rádio. Artistas por índole, dedilham magistralmente a viola e o violão, arrancando das cordas efeitos de grande beleza e emotividade.”
Atuaram nos cassinos da Urca (Rio de Janeiro) e da Pampulha (Belo Horizonte). Em 1944, depois de se apresentarem em São Paulo, excursionam por toda a América Latina até 1949. Ás vezes, somente recebiam o suficiente para alimentação e para prosseguirem viagem. Até a chegada ao México, somente sabiam “tocar de ouvido”, sem nenhum conhecimento de Teoria Musical. Quando Ricardo Montalban, famoso ator holywoodiano de origem latina, um dia, num palco mexicano, apresentou-os como “analfabetos musicais”, por nada saberem de Teoria Musical, mas que, mesmo assim, tocam magistralmente seus violões, os índios brasileiros, já batizados como “Os irmãos Tabajara”, definitivamente decidiram estudar teorias de canto e de música. Mussaperê voltou para Caracas, onde estudou com o maestro Francisco Christancho, da Orquestra Sinfônica da Venezuela, e continuo estudando no Brasil. Herundy, que também já vinha se interessando por músicas clássicas, voltou a Buenos Ayres, onde comprou uma casa e começou a estudar música e canto. Dois anos depois, os dois se reúnem e partem para uma excursão à Europa, quando se apresentam como intérpretes musicais de compositores clássicos como Tchaikovsky, Sibelius, Targa, Falla, Chopin, Villa-Lobos e outros. As adaptações ao violão eram feitas por Mussaperê. Também incluem em seus espetáculos músicas folclóricas européias, cantando-as em diversos idiomas. Muitos aplausos, agenda cheia e, consequentemente, convites recusados, até. A vitoriosa excursão termina em Madrid.
De volta ao Brasil, convencem-se de que “Santo de casa não faz milagre”, porque não passavam de dois ilustres desconhecidos: nenhum apoio e nenhuma divulgação condizente. As execuções musicais e as músicas que tanto sucesso fizeram na Europa, não interessavam às gravadoras brasileiras. Mas, por acaso, a Gravadora Continental gravou e lançou três discos em 1953/1954: Tambor Índio/ Acará Cary; Pássaro Campana/Fiesta Linda – o primeiro que ouvi, lá pelos idos do início de 1955, na minha terra natal, momento em que tomei conhecimento da existência desses magistrais instrumentistas e músicos – e Te Besaré/Te quiero mucho más.
Ainda em 1954, voltam a excursionar pelo exterior. Exibem-se na Rádio City de Nova Iorque, exibição esta precedida de uma pequena temporada em Cuba.
Em1957, gravam na RCA Victor Americana o LP Sweet and Savage (Doce e Selvagem), onde incluem o Bolero Maria Helena, melodias brasileiras e outros sucessos latinos. Todavia, passam despercebidos.
No retorno ao Brasil, não obtendo qualquer sucesso, dão por encerradas suas atividades artísticas. Compram uma propriedade rural em Araruama, Rio de Janeiro, e, com a maioria de seus 34 (trinta e quatro) irmãos,fazem da agricultura seu novo meio de existência, talvez pretendendo reproduzir a vida tribal de suas infâncias. Ali estavam vivendo anônimos e calmos, quando, em 1963, a sorte e a competência voltaram a agitar suas vidas: um produtor da Rádio WNEW, de Nova Iorque, procurando uma música instrumental qualquer para fazer um fundo musical de um programa humorístico, puxou do arquivo o LP Sweet and Sevage, optando,de logo, pela faixa Maria Helena.E, diariamente, nesse programa de grande audiência, o fox Maria Helena era tocado, até que ouvintes interessados em adquirir o disco escreveram à gravadora RCA VICTOR, solicitando informações. De imediato, aquela gravadora lançou um compacto simples, que, de repente, atingiu o 4º lugar nas paradas americanas de sucesso. Os executivos da RCA VICTOR entraram em contacto com a filial brasileira, que, depois de algum tempo de procura, localizou os Irmãos Tabajara em Araruama, às margens da lagoa.
“Pensávamos que fosse brincadeira. Só acreditamos mesmo quando recebemos as passagens de ida e volta e as ajudas de custo para seguir com destino a Nova Iorque, com tudo pago...Ficamos hospedados nos melhores hotéis e só não gostamos mesmo foi do tal caviar servido todos os dias” – contou Mussaperê.
Em apenas trinta e seis dias gravam em Nova Iorque dos LPs e dois compactos, com destaques especiais para Moonligt and Shadowns, Solamente uma vez e Always in My Heart.
Reapareceram os convites para se apresentarem por todo os Estados Unidos, pela Europa e pelo Japão, onde também se tornam ídolos. Em muitas das apresentações são acompanhados por orquestras filarmônicas.
O início dos anos 70, já somavam 48 LPs gravados e oito milhões de cópias vendidas.
E esta não foi nem é lenda indígena. É mais uma magistral história de vitória do querer, do agir e da energia, própria e autêntica de pessoas determinadas – ou entusiastas, como diria o Padre pensador TEILHARD DE CRARDIN – que não se deixam levar pelos desânimos ocasionais nem pelas pequenas dificuldades que sempre surgem quando as lutas diárias são enfrentadas, por melhoras vivenciais.
Fonte: REVIVENDO – Músicas Comércio de Discos LTDA.
E-mail: revivendo@sul.com.br

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