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João Márcio F. Cruz
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Os Quatro Pilares da Educação - Aprender a Ser
Por: João Márcio F. Cruz

Quem sou eu? Se o aluno sai da escola e não tem uma resposta para essa indagação, a escola não cumpriu sua função primordial. Mesmo que se torne um grande profissional, qualificado para exercer sua função e atender os requisitos necessários de um cargo, ele vai continuar alienado de seu verdadeiro self. Ignora sua verdadeira pessoa enquanto identifica-se com os papéis que a sociedade estabelece. Será um grande médico, um criterioso cientista, um erudito professor, um sensato advogado, um minucioso engenheiro, mas não será um ser humano de verdade.

O caminho do ser exige renúncia e trabalho a longo prazo. Não é fácil descobrir-se portador de uma essência e tornar-se capaz de assumir sua verdadeira identidade. Alguns forjam uma falsa imagem. Outros, apelam para ideologias que, temporariamente, aplacam a angústia do autoconfronto. A verdade sobre si mesmo é uma terra sem mapas. Cada um precisa seguir sua bússola e desvelar seus talentos e potencialidades. O mundo íntimo é um tesouro escondido que merece ser descoberto. Não obstante os perigos do caminho, a viagem é gratificante porque transforma a vida da pessoa para sempre. Uma vez descoberto, o caminho se abre. As alternativas ignoradas mostram-se diante das pequenas opções ponderáveis que nos são oferecidas em varejo pelo modelo de sociedade vigente.

Logo cedo, na escola ou na vida, a criança perde o contato com sua pessoalidade. Seja através de mecanismos arcaicos que douram a superfície e não cultivam a inteireza, seja pelos instrumentos de avaliação que recompensam as conquistas externas em detrimento dos êxitos internos, o indivíduo cresce olhando para fora e, parcialmente, esquecido de sua interioridade. Longe de si mesmo, se torna uma frágil vítima das circunstâncias. Incapaz de decidir por si mesmo, o indivíduo, ainda não pessoa, submete-se a promessas químicas de prazer, a deleites desbragados, a trilhas fáceis de vitória e prosperidade. A droga, a promiscuidade, a criminalidade, se tornam ofertas quase irrecusáveis porque ela não tem estrutura para dizer “não”. Com seu juízo de valor comprometido, o aluno sucumbe pela própria vulnerabilidade psíquica. Autonomia não é libertinagem ou autosuficiência. Muito pelo contrário. Somente a autonomia sobre o mundo assegura equilíbrio psicosocial. Quando uma pessoa assume sua condição de ser alguém ele estabelece limites saudáveis de contato com o mundo. Esses limites são proteções contra as invasões nocivas de mazelas sociais que assolam o povo.

É muito difícil decidir por si, se esse “si-mesmo” não existe. É arriscado mergulhar num universo social, permeado de hábitos destrutivos e manter-se consciente de si. O progresso tecnológico criou um paraíso externo: internet, curso superior, ar-condicionado, automóveis, viagens a lua; todavia, a vida interior continua indevassável. A pessoa reclama da solidão numa cidade habitada por 1.000.000 milhão de pessoas. As crianças não podem brincar porque a violência ronda suas casas. Os velhos não podem sentar ao entardecer porque sua debilidade física é convite para roubos. As mulheres almejam ascensão social mas suas vitórias terminam masculinizando sua psique e atos. Os homens no afã de enriquecer, esquecem que são mortais. O relatório Delors exprime o processo de desumanização do tecnicismo que avança como câncer destruindo as subjetividades: Risco de alienação da personalidade patente nas formas obsessivas de propaganda e publicidade, no conformismo dos comportamentos que podem ser impostos do exterior, em detrimento das necessidades autênticas e da identidade intelectual e afetiva de cada um. — Risco de expulsão pelas máquinas, do mundo do trabalho, no qual a pessoa pelo menos tinha a impressão de se mover livremente e de decidir por si própria.

A educação com o pilar “aprender a ser” investe no ser humano em sua totalidade. Não mais considerado como um objeto plano, sem profundidade, nas mãos dos estímulos externos, mas como um sujeito multifacetado, portador de polissêmicas dimensões, que tem necessidades múltiplas. O psicólogo Abraham Maslow, numa ordem hierárquica, descreveu essas necessidades: Necessidades fisiológicas (básicas), tais como a fome, a sede, o sono, o sexo, a excreção, o abrigo;

Necessidades de segurança, que vão da simples necessidade de sentir-se seguro dentro de uma casa a formas mais elaboradas de segurança como um emprego estável, um plano de saúde ou um seguro de vida; Necessidades sociais ou de amor, afeto, afeição e sentimentos tais como os de pertencer a um grupo ou fazer parte de um clube; Necessidades de estima, que passam por duas vertentes, o reconhecimento das nossas capacidades pessoais e o reconhecimento dos outros face à nossa capacidade de adequação às funções que desempenhamos; Necessidades de auto-realização, em que o indivíduo procura tornar-se aquilo que ele pode ser. Alguns profissionais falam de uma outra necessidade, a autotranscendência, que reconhece o ensejo de ir além de si mesmo e descobrir-se um fio de uma teia maior.

Á luz desse pressuposto, a educação vai rever seu método de trabalho porque aquele ser humano obtuso nunca será atendido em suas necessidades existenciais se continuar sendo tratado como uma pessoa bidimensional. Se a escola, antes, preparava apenas para sua dimensão social, agora, ela vai prepará-lo para desenvolver-se como pai, filho, cidadão, protagonista de sua história, cidadão autônomo, profissional, pessoa humano, agente de transformações e zelador do mundo. Se o ser humano não assume sua dimensão ser, ele enterra seus talentos, cerebraliza-se, dissociado da natureza, deixa de criar vínculos verdadeiros, cria uma sociedade desumana de alienados.

Como na tradição cristã, que o homem sepultou seus talentos e perdeu a própria vida, o cidadão que não segue sua vocação, perde o rumo da própria existência. Desorientado, vai migrar para locais que não lhe tem significado algum. Vai se relacionar com indivíduos que não compartilham de seus interesses. Terá sua criatividade diminuída porque longe dos próprios talentos, não encontra espaço para expressar sua arte e tendências naturais. Quase sempre, vai se reduzir a um mero operário, cumprindo ordens e executando seu ofício mecanicamente. Sem o brilho caloroso de quem cumpre um destino. Como diria a sabedoria andina: todo homem e mulher tem um futuro, mas nem todos possuem um destino.



Trecho do livro Os Quatro Pilares da Educação
Autor: João Márcio

http://www.facebook.com/joaomarcio.ferreiracruz

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