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Artigo
 
Exemplo de vida: um breve momento.
Por: Milena Aragão

Existe um ditado que diz para cuidarmos ao apontar o dedo para alguém, pois tem três apontados para nós. Ele pode ser compreendido de algumas formas, mas geralmente é pela via do: “ao criticar o outro, olhe para si”. Eu gosto de ampliá-lo e pensar que quando aponto o dedo para alguém e inicio uma fala sobre essa pessoa (positiva ou não), eu tenho dedos apontados para mim, me estimulando a olhar para o meu processo de vida e compreender quem sou, para além da crítica. Diante disso, tenho buscado voltar na minha história de vida e me ver pelos olhos de outras pessoas, buscar as “verdades”da minha existência e somar com as “verdades”que minha memória conseguiu guardar. Sou como uma Indiana Jones de mim mesma, desbravando sentimentos, ações, motivos, vivências... Enfim, procurando nas tramas da minha história, um pouco da criança, da adolescente, da adulta que habita em cada pedacinho do meu ser e que são evocados nos diferentes momentos da vida. É a busca incessante para responder algo que, no fundo, está mais para processo do que para resultado: “quem sou eu”. Nesse caminhar me deparo com belas surpresas, conheço e reconheço diversos “eus” e vivencio a montanha russa que a busca subjetiva proporciona.
Numa dessas escavações do passado, conversei com a minha mãe sobre meu desempenho escolar e as mudanças de escola. Ela me disse que a maioria das mudanças foi por causa de questões financeiras, mas numa escola não... “uma vez eu levei você para a escola e fiquei no pátio, sentada, só ouvindo as aulas. A professora gritava tanto com a turma que tirei você da escola logo!” Afirmou minha querida mãezinha, com ares de preocupada, como se tivesse voltado no tempo. Que orgulho senti ao ouvir esse relato! Minha mãe me trocou de escola porque a professora gritava muito com os alunos! Hoje sou assumidamente contrária à educação através da violência física, gritos e humilhações e sempre pensei: de onde veio essa preocupação? Claro que o motivo aparente é a defesa da criança como ser de direitos, ora, se o adulto sofre um ato violento por outro adulto aquele pode processar este por lesão corporal, danos morais, etc, mas se um adulto bate, grita ou xinga uma criança, o mesmo ato é considerado educação! Incoerência! Batemos na criança para que ela respeite e quando adultos, buscamos ser respeitados sem o uso da violência, não faz sentido! Ensinamos a criança a não bater, batendo; a não gritar, gritando. Todavia, não saía da minha cabeça a busca pelos motivos subjacentes: por que defendo essa linha de pensamento? Ora, fui retirada de uma escola porque a professora “educava” através da violência psicológica, com gritos e ameaças. Independentemente de qualquer ação consciente que minha mãe tenha feito para me educar, ela não teve noção do quanto aquele ato me educou, do quanto mostrou meu valor como sujeito no mundo. Nesse momento, ela me ensinou que educar pelo grito não era uma forma aceitável no universo escolar. Realmente, a professora gritava bastante, lembro-me dela, apenas não me recordava o motivo da troca de escola. Veja só! Tornei-me professora de crianças, posteriormente de adolescentes e hoje, de adultos. Nunca gritei com nenhum deles, não acho correto, estudei e busquei outras formas de chamar a atenção do grupo, desde que respeitosa. Esse movimento veio de dentro de mim, uma crença muito forte na educação positiva, ou seja, aquela que não usa de violência física ou psicológica. Agora sei que esse desejo de que professores e pais eduquem sem o uso da violência, os anos de estudo e pesquisa nessa área, tem como pano de fundo minha própria história de vida e os ensinamentos da minha mãe. Isto me leva a rememorar uma expressão muito utilizada pelas pessoas que apanharam na infância: “minha mãe me batia e eu mereci, hoje agradeço os tapas que levei” e refletir sobre ela. Ora, eu agradeço muito à minha mãe, mas os exemplos positivos que me fizeram pensar sobre o mundo que quero viver. Pelos tapas e gritos (que tinham vez ou outra) eu a perdoo, pois sei que não fazia por maldade, apenas desconhecia outra forma de educar, tendo em vista a cultura da violência estar impregnada em cada um de nós. Eu agradeço pelo carinho, pelos beijos, pelos abraços, pelos agrados, pelos “nãos” recebidos nos momentos próprios, pelos ensinamentos de civilidade que propiciam a convivência comunitária, pela possibilidade de fazer o bem ao outros (sempre a via – e ainda vejo - dando comida para as pessoas que pediam na nossa porta ou ajudando alguém na vizinhança). Essas ações, que não tinham uma conotação de ensinamento consciente, é que me construíram e constroem uma pessoa com valores positivos. Ela nem sabia o bem que estava fazendo quando dava o exemplo de pessoa altruísta. Assim, tenho muito a agradecer, mas não pelos tapas e gritos, isso eu deixo para o perdão, sim, pois através do perdão eu compreendo os atos da pessoa, mas não os reproduzo como corretos; já com a gratidão, eu acolho os atos e posso reproduzi-los em situações oportunas. Então, obrigada minha mãe, por mais esse ato de ensinamento e amor, por ter tido a sensibilidade de perceber que estudar numa escola onde a professora grita com os alunos poderia prejudicar meu processo de aprendizagem. Obrigada por ensinar-me o valor do respeito e que este é uma via de mão dupla: alunos respeitam o professor, mas o professor também deve respeitar a criança. Portanto, ao invés de agradecermos os tapas e gritos como caminho para educar; convido a refletir se o verdadeiro ensinamento dos valores para a vida está no exemplo positivo que nossos pais nos dão, naqueles momentos que eles acham que não estamos sequer olhando ou entendendo. Bendita seja a conversa e a oportunidade de garimpar a nós mesmos, encontrar o diamante e lapidá-lo. Obrigada mãe, por mais um aprendizado e olha... Você sequer imaginava que essa conversa iria render mais um momento!

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