A casa dos grandes pensadores

Bem-vindo ao site dos pensadores!!!

| Principal |  Autores | Construtor |Textos | Fale conosco CadastroBusca no site |Termos de uso | Ajuda |
 
 
 
Crônica
 
A MAIS RECENTE PÁGINA DA HISTÓRIA DEMOCRÁTICA BRASILEIRA
Por: Valdir Sodré

Sem sombras de dúvida, as recentes manifestações ocorridas nas diversas cidades metropolitanas brasileiras indicam mais uma página da história democrática brasileira, num momento em que o Brasil adquire uma enorme visibilidade em função do evento da Copa das Confederações da FIFA, que serve de exercício de preparação para a Copa do Mundo de Futebol a ser realizado no Brasil em 2014.
As manifestações realizadas, por uma grande maioria de jovens, fez recordar o movimento Fora Collor no início da década de 1990, que fora uma página marcante de nossa recente história. Tais manifestações não depositaram apenas o caráter de anulação dos diversos aumentos nas tarifas dos preços das passagens de ônibus nas diferentes cidades metropolitanas brasileiras, numa fatia irrisória de apenas vinte centavos acrescidos.
A bandeira dessas manifestações incorporou assuntos do cenário político brasileiro, sobretudo uma reação ao Projeto de Ementa Constitucional 37 (PEC 37), que tramita na Câmara dos Deputados e prevê que o poder de investigação criminal seja exclusivo das polícias federal e civis, retirando esta atribuição de alguns órgãos, sobretudo, do Ministério Público (MP). A PEC 37 sugere incluir um novo parágrafo ao Artigo 144 da Constituição Federal, que trata da Segurança Pública. O item adicional traria a seguinte redação: "A apuração das infrações penais de que tratam os §§ 1º e 4º deste artigo, incumbem privativamente às polícias federal e civis dos Estados e do Distrito Federal, respectivamente".
A tramitação desse projeto trouxe reações calorosas de diversos movimentos, como o “Brasil contra a impunidade” e agora as recentes manifestações que se espalharam no Brasil. Os movimentos reacionários alegam que a PEC 37 beneficia criminosos. Realçam ainda que, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), apenas 11% das ocorrências sobre crimes comuns são convertidos em investigações policiais e, no caso dos homicídios, somente 8% são apurados.
Outros aspectos também são alvos de todas essas manifestações, que deslocaram os olhares do Brasil e do mundo, como o alto investimento destinado às construções das várias arenas de futebol, em detrimento aos baixos investimentos dados as bases sociais, como Educação e Saúde. Podemos perceber que o futebol não se apresenta mais como um instrumento tão alienante como antes.
Será que o Brasil é um país de chuteiras? Será que entoamos nosso hino nacional somente nos estádios de futebol de quatro em quatro anos?
As vaias ecoadas na Arena Mané Garrincha, em Brasília, à presidenta Dilma e ao presidente da FIFA Joseph Blatter demonstram uma estrondosa demonstração de insatisfação social, mesmo com a enorme aprovação do Governo Dilma e pela enorme paixão brasileira pelo futebol.
Um aspecto relevante apresentado por alguns órgãos de pesquisa é que sete dentre cada dez manifestantes participam pela primeira vez de uma manifestação pública e política. Ademais, boa parte dos milhares de participantes dos atos realizados nas metrópoles tem em torno de 20 anos, nunca se filiou a partido político e mora tanto nas áreas nobres quanto na periferia do DF. Destaca-se ainda que grande parte da ação começara nas redes sociais virtuais, demonstrando o poder da internet na contemporaneidade.
De fato, todas as manifestações ocorridas no Brasil representam mais uma página da história democrática brasileira e demonstram que os oprimidos já apresentam uma certa conscientização crítica da realidade. Conforme Paulo Freire preconiza, a presença dos oprimidos na busca de sua libertação deve ser através do engajamento e que a educação problematizadora não é fixismo reacionário, é futuridade revolucionária. É esperançosa. Identifica-se com seres além de si mesmos – como “projetos” -, que olham para frente, olham para trás para melhor conhecer o que está sendo, para melhor construir o futuro¹.
Enfim, o que não podemos aceitar é a demonstração anárquica e baderneira de uma minoria, que mancha a democracia brasileira em construção. Destruir o patrimônio público ou particular não é tarefa dos que lutam por seus direitos e que inauguram um ato revolucionário e contundentemente histórico.


¹ FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido, 28ª edição, Rio de Janeiro/RJ: Paz e Terra, 2000

 Comente este texto
 

Comentário (2)

Deixe um comentário

Seu nome (obrigatório) (mínimo 3, máximo 255 caracteres) (checked.gif Lembrar)
Seu email (obrigatório) ( não será publicado)
Seu comentário (obrigatório) (mínimo 3, máximo 5000 caracteres)
 
Insira abaixo as letras que aparecem ao lado: KMMC (obrigatório e sensível. Utilize letras maiúsculas e minúsculas;)
 
Não envie mensagem ofensiva e procure manter um intercâmbio saudável com o seu correspondente, que com certeza busca dar o melhor de si naquilo que faz.
Seu IP sera enviado junto com a mensagem.