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Crônica
 
Francisco e Franciscos
Por: Valdir Sodré

A visita do Papa Francisco ao Brasil, na Jornada Mundial da Juventude, é uma passagem emblemática e de profunda renovação do cristianismo católico no mundo. A participação de centenas de milhares de jovens de diversas nações do mundo no evento, na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, contundentemente criou uma atmosfera fértil de fé, alegria e esperança, que contagiou cristãos praticantes ou não e até mesmo alguns céticos.
A humildade e o carisma dialógico do Santo Pontífice impressionaram a Nação brasileira e o mundo. As homilias diárias nas missas e discursos proferidos sempre se voltavam aos excluídos, salientando que nunca devemos perder a esperança. O bater do Papa na porta do Brasil inicialmente se efetivou como uma atitude simbólica de um impacto sereno e respeitoso, que, porém, se tornou um imenso eco que ressoou mundo a fora e fez renascer um espírito de solidariedade e de fraternidade inestimáveis.
De fato, a história enumera um cabedal de erros no passado relacionados à Companhia de Jesus, a qual o Papa Francisco se faz discípulo e partícipe ativo em sua formação doutrinária cristã. A Companhia de Jesus tem uma história demarcada pelo ensino. Por duzentos e dez anos (de 1549 a 1759), a educação da recém-colônia brasileira foi organizada e exercitada pelos jesuítas, sob a égide da religiosidade católica europeia. O fim do período de educação jesuítica no Brasil tem como marco a expulsão dos jesuítas pela reforma educacional de Marquês de Pombal. Porém, há de ressaltar que a Igreja católica é formada por homens e como tal é e sempre será vulnerável ao pecado e aos erros.
Inegavelmente, a figura carismática, solidária, fraterna e humilde do Papa Francisco não se apresenta manchada pelo passado crítico-histórico dos jesuítas e da Igreja católica. Pelo contrário, Sua presença estabelece-se fundamentalmente como um marco diacrônico de renovação da Igreja católica. A figura papal de Francisco remete-nos à vida de muitos outros Franciscos, personagens da vida presente ou passada dos cotidianos mundanos.
De imediato associa-se a figura do Papa Francisco à vida e à santidade de São Francisco de Assis, frade católico italiano da Renascença que se voltou para uma vida religiosa de completa pobreza e que fundou a Ordem dos franciscanos. Para São Francisco de Assis, “ninguém é suficientemente perfeito, que não possa aprender com o outro e, ninguém é totalmente destituído de valores que não possa ensinar algo ao seu irmão”. Nesses e em muitos outros aspectos, o pensamento e a conduta de vida simples de ambos se assemelham, considerando a real diferença entre o passado e a vida contemporânea.
Sob um necessário olhar ecumênico, há de resgatar a vida marcante e passada de Chico Xavier, outro Francisco brasileiro que dedicou a vida aos que mais necessitavam de ajuda. Espírita, porém cristão. Afirmava que “lembremo-nos de que o homem interior se renova sempre. A luta enriquece-o de experiência, a dor aprimora-lhe as emoções e o sacrifício tempera-lhe o caráter. O Espírito encarnado sofre constantes transformações por fora, a fim de acrisolar-se e engrandecer-se por dentro”.
Outro Francisco histórico e vivo que se vislumbra é o rio São Francisco, o “Velho Chico”, que também conhecido pelos índios com a alcunha de Opará, o Rio-mar. O “Velho Chico” é um dos maiores rios navegáveis do mundo, nasce no Estado brasileiro de Minas Gerais e desemboca no Oceano Atlântico entre os Estados de Sergipe e Alagoas. Apesar da luta contra o assoreamento e das políticas desajeitadas de Governos, o “Velho Chico” permanece vivo, como fonte de alimentação e de renda a diversos ribeirinhos que vivem em seu percurso. Seu nome é uma homenagem a São Francisco de Assis e serviu de ocupação das Missões religiosas, a partir de 1641, das quais os franciscanos foram um dos percursores ao instalarem os primeiros aldeamentos.
O discurso enfático do Papa Francisco sempre esteve voltado aos excluídos. Sendo assim, quantos milhares de Franciscos se escondem nas muralhas da exclusão. Franciscos esses que lutam diariamente no Brasil e no mundo por um prato de comida para “matar” a fome, enquanto várias nações destinam bilhões ou trilhões de dólares em armamento bélico. Franciscos que têm fome de felicidade, de amor, de qualidade de vida, de fraternidade, de socorro, de esperança, de humanidade, de solidariedade, de sorriso, de amparo, de mundo. Franciscos escondidos nas ruas, nas periferias urbanas, no consumo de drogas, nos becos, nos albergues de diversas cidades e metrópoles mundanas.
De certo, não é na figura e no discurso do Papa que se encontram as respostas e soluções da frenética injustiça social. É no engajamento solidário entre todos nós que podemos pôr em prática tudo aquilo que teorizamos. Há de se estabelecer uma práxis em que surja uma transformação social e coletiva. A transformação social que almejamos passa necessariamente pela transformação social de todos os indivíduos, de todos os Franciscos, que de alguma forma estejam excluídos pela máquina feroz da indiferença, do individualismo, do dinheiro e da desumanidade. Movimentos sociais, como os ocorridos recentemente no Brasil e como a Jornada Mundial da Juventude, denunciam as mazelas da injustiça e clamam fervorosamente por mudanças que se iniciam por pequenas atitudes que fazemos no dia-a-dia. Conforme afirmara São Francisco de Assis, é preciso que cada um de nós “comece a fazer o que é necessário, logo estarás fazendo o possível e perceberás que estarás fazendo o impossível”.

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