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Crônica
 
Amigos e adversários
Por: Antonio Jorge Moura

Antonio Carlos Magalhães foi à casa de meus pais, no subúrbio de Santa Luzia, na sua primeira campanha eleitoral, em 1954, como candidato a deputado estadual pela UDN. Eu tinha dois anos de idade. Ele foi levado pela professora Angelina, diretora da Escola Paroquial dos Mares, localizada na Baixa do Cacau. Mas eu só soube desse fato 30 anos depois, quando já era jornalista profissional, adversário político de ACM e assessor do então presidente regional do MDB, economista Rômulo Almeida, que fora seu amigo e depois divergira com ele.

Quando iniciei o jornalismo, no início da década de 70 do século passado, no antigo Jornal da Bahia, na sede da Barroquinha, além de envolver-me com a oposição que o jornal fazia ao ex-prefeito de Salvador e ex-governador da Bahia, eu era simpatizante da organização Ação Popular Marxista Leninista do Brasil (APMLB), oriunda da extinta Ação Católica que, no decorrer daquela década, foi incorporada ao PCdoB. O militante de AP mais ilustre ainda vivo é o sociólogo e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Minha irmã Mariluce Moura, também jornalista e militante da AP, fora presa pela ditadura militar. A minha sobrinha Tessa, atualmente professora da cadeira de Filosofia da USP, estava na barriga da mãe e ambas foram brutalmente torturadas. Meu cunhado, Gildo Macedo Lacerda, ex-dirigente da UNE, que vivia aqui na clandestinidade com o nome falso de Cássio, e fez trabalhos para a Seplantec no primeiro governo de ACM, morreu depois de também ser preso pela repressão no mesmo episódio. Tinha tudo, portanto, para ser adversário daquele que, aqui na Bahia, depois de duas nomeações pelo governo militar, era considerado pela esquerda que eu integrava como o representante mor do regime dos generais.

Mas a vida escreve certo por linhas tortas. Durante quatro anos, sob a direção dos jornalistas Victor Hugo Soares e Florisvaldo Matos, fui insistentemente designado pela sucursal do Jornal do Brasil aqui de Salvador para fazer a cobertura jornalística do gabinete do governador Antonio Carlos Magalhães. Além do Palácio da Aclamação e da nascente Governadoria, no CAB, tive a distinção de exercer a profissão no gabinete que o governador tinha do Palácio de Ondina. Bastava dizer que era do jornal para os portões do palácio se abrirem e eu ir cumprir as minhas tarefas na ante-sala do gabinete que o governador possuía na Residência Oficial.

Lá em Ondina conheci o brilhante político Luiz Eduardo Magalhães – Dudu Brilhantina, como chamavam os amigos e assim era apelidado jocosamente até por adversários –, antes dele ser eleito deputado federal, e o atual senador ACM Júnior, naquela época sempre tímido e introspectivo. Assisti a inúmeros gestos de atenção e carinho daquele homem poderoso, apontado como truculento, para com os filhos e a família. Me intrigava também a generosidade dele no trato com amigos e conhecidos perseguidos pelo regime militar. Ele acolheu, escondeu e até protegeu economicamente gente como Mário Alves, Fernando Santana, José Carlos Prata e Mário Lima, entre outros dirigentes e militantes de esquerda.

Uma vez me disse na frente do amigo Félix Mendonça, que na época ainda não era deputado federal: "Antonio Jorge, gosto muito de você, mas não gosto das coisas que você escreve". Me lembro que apenas sorri levemente, abaixei a cabeça e nada respondi ao governador. Fazia matérias sobre seu governo e as divergências públicas que tivera com personagens como os ex-senadores Luiz Viana Filho e Lomanto Júnior, o ex-governador Roberto Santos e o ex-prefeito Mário Kertész, este último que acabou rompendo politicamente com ele e se filiando ao PMDB.

Em 1982, junto com mais cinco colegas, fui demitido do JB. Fruto das dificuldades de sobrevivência do histórico jornal do Rio de Janeiro. Na tarde daquele dia, em minha casa, recebi telefonema do secretário de Comunicação do Governo, jornalista Carlos Libório, ex-diretor de Jornalismo da TV Bahia. "Antonio Jorge, o governador disse que você e a jornalista Simona Grooper não ficam desempregados. Ele já me autorizou a oferecer uma vaga para você aqui na secretaria". Respondi: "velho Libório, valeu, muito obrigado. Quero aproveitar para pedir a você que diga ao governador que eu agradeço muito à gentileza dele e as boas relações fonte-jornalista que sempre tivemos. Mas diga também que não me sinto preparado para o serviço público. Vou continuar na iniciativa privada". E aceitei empregos oferecidos pela Tribuna da Bahia e pelo Sindipetro.

Anos depois ingressei no Correio da Bahia, pelas mãos do jornalista Demóstenes Teixeira, e fui aproximado do ex-vice-governador Eraldo Tinoco pelo irmão dele, Eduardo Tinoco, ex-militante do PCdoB e fundador do PT na Bahia, de quem fui colega na Faculdade de Economia da UFBa. Uma vez, na Avenida Garibaldi, o carro em que ele estava e o meu pararam numa sinaleira, lado a lado, e ele avistou o plástico de propaganda da campanha de Tinoco a deputado federal fixado no vidro lateral de meu veículo. Olhou e sorriu satisfeito. Na assessoria de Tinoco, fiz amizade com o neto de ACM, Antonio Carlos Magalhães Neto, numa época em que o jovem político não tinha sido eleito sequer deputado federal. ACM Neto, quando ia deixar a assessoria de Tinoco para candidatar-se pela primeira vez a deputado federal, me convidou para acompanhá-lo. Sem saber, realizava um desejo do avô, que era me ver trabalhando diretamente com o comando do grupo carlista.

Assim como aconteceu com Rui Barbosa, apesar das repercussões da Política de Encilhamento, quando ele ocupava o Ministério da Fazenda no Governo Provisório de Deodoro da Fonseca, a história da Bahia fará justiça à figura histórica de Antonio Carlos Magalhães. Aliás, foi o baiano ACM quem introduziu o busto do baiano Rui Barbosa no plenário do Senado da República. Eles se entendem!

Antonio Jorge Moura é jornalista, iniciou a profissão em 1973.

Antonio Jorge

Publicação: www.paralerepensar.com.br - 16/12/2008

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